Os erros que levaram Gallardo a uma grande crise e demissão no River Plate
Multicampeão com o gigante argentino, histórico treinador pediu demissão após viver um dos momentos mais turbulentos no clube
Marcelo Gallardo viveu — mais — uma crise no River Plate e não resistiu no cargo. O treinador colecionou resultados negativos nesta temporada e a derrota para o Vélez no último domingo (22) deixou a situação insustentável, culminando na confirmação de seu pedido de saída nesta segunda-feira (23).
— Sinto uma emoção e uma dor na alma por não poder cumprir os objetivos. […] Espero, de todo o coração, que esta instituição que cresceu enormemente nos últimos anos, uma instituição modelo em toda a região, em breve volte a encontrar bons resultados dentro de campo para engrandecer ainda mais o que significa o River como instituição no mundo — se despediu em vídeo nas redes sociais.
Un mensaje de Marcelo Gallardo para todos los hinchas de River 🤍❤️🤍 pic.twitter.com/byDSJdcnOY
— River Plate (@RiverPlate) February 24, 2026
Com seis rodadas no Apertura, o time Millonario soma apenas duas vitórias, um empate e três derrotas, o que deixa a equipe na 10ª posição do grupo B, fora da zona de classificação para o mata-mata. Inclusive, os três reveses aconteceram de forma consecutiva, aumentando a tensão sobre o histórico treinador.
Mesmo os resultados positivos do River Plate no torneio e também na Copa Argentina foram obtidos após atuações que não convenceram, com a equipe sempre apresentando dificuldades para vencer os seus adversários.
No final da temporada passada, o treinador já havia balançado no cargo pela eliminação na Libertadores e derrotas consecutivas no Clausura, inclusive para o rival Boca Juniors. No entanto, “Muñeco”, como é conhecido Gallardo, foi mantido no cargo e teve seu vínculo renovado.
Após o jogo contra o Vélez, Gallardo cancelou sua coletiva de imprensa e decidiu se pronunciar pelas redes sociais do clube após reunião com membros da diretoria Millonaria.
— A imagem que o River deixou ontem foi novamente muito ruim. O time teve muita dificuldade. E a questão central são os erros do treinador: não saber ler as partidas, não fazer uma autocrítica mais profunda. Marcelo Gallardo, nos últimos tempos, cancelou muitas coletivas de imprensa. E o torcedor quer ao menos uma autocrítica, quer ouvir o que o treinador pensa sobre esse momento que o River está vivendo. E ele cancelou em várias oportunidades — explica o jornalista Agustín Laredo, do “Pasión Futebolera” à Trivela.

Mas afinal, o que está acontecendo com o River Plate?
Ídolo do clube, Gallardo retornou ao time de Núñez em agosto de 2024. Sua volta ao clube foi recebida com grande alegria e expectativa por parte dos torcedores. Muñeco havia deixado o clube em 2022 após uma passagem histórica pelo clube, com conquistas que incluíram duas Copas Libertadores e uma Copa Sul-Americana.
— Quando ele chegou, a expectativa era muito grande, muito grande mesmo, obviamente porque se trata do treinador mais vencedor da história do River, com 14 títulos, campeão de duas Libertadores, uma delas contra o Boca. E a gente sempre espera o melhor de técnicos que fizeram você acreditar, que fizeram você viver os melhores momentos do clube, sem nenhuma dúvida. Ele começou bem: um jogo contra o Huracán, venceu o Boca, classificou o time para a semifinal da Copa Libertadores de 2024. Mas nunca demonstrou um bom futebol de forma consistente — analisa Laredo.
Após colecionar vexames e resultados negativos, a permanência de Gallardo dividiu até a torcida. Havia quem criticasse o técnico e pedisse sua saída, mas parte dos fãs apoiava a permanência do comandante devido ao seu histórico vencedor.
— O River de Gallardo, nesse segundo ciclo, nunca conseguiu manter regularidade por dez partidas. Sempre eram três jogos bons, dois ruins. O time dava cinco passos para frente, mas recuava dez, e assim sucessivamente. Derrotas que ninguém imaginava que poderiam acontecer, como, por exemplo, partidas no Monumental, com o River jogando muito mal no segundo semestre do ano passado — relembra o jornalista.
Após encerrar a temporada passada em baixa, o River Plate tentou se movimentar no mercado. O clube focou no mercado brasileiro e contratou Matías Viña, ex-Flamengo e Palmeiras, Fausto Vera ex-Corinthians e Atlético-MG, e Aníbal Moreno, ex-Palmeiras. Mesmo assim, Gallardo não conseguiu extrair o melhor dos jogadores.
— Somando as últimas janelas de transferências, o River gastou mais de 100 milhões de dólares (cerca de R$ 516 milhões), algo que nunca tinha acontecido na história do clube. E ainda por cima com jogadores sobre os quais muita gente se pergunta se realmente têm nível para estar no River, como Matías Galarza Fonda, Juan Carlos Portillo, Maximiliano Salas, por quem o River pagou a cláusula de rescisão ao Racing Club de Avellaneda, e Kevin Castaño, a contratação mais cara da história do clube — ponderou Laredo.

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Quais foram os erros de Gallardo?
Além dos questionamentos envolvendo reforços, Gallardo também tem suas opções em campo questionadas. As escalações e a utilização de alguns jogadores são constantemente criticadas por parte da torcida e da imprensa.
— Eu sinto que os erros que ele tem estão na construção do jogo e no planejamento tático, ao testar formações diferentes sem respeitar as posições naturais dos jogadores que tem à disposição. Um exemplo claro é que, sim ou sim, o time precisa de um centroavante de área. Salas, no Racing, rendeu bem atuando ao lado de um 9 de área como “Maravilla” Martínez. Colidio, no Tigre, também foi bem com um 9 de referência como Retegui. Driussi, na sua melhor fase, jogou com um 9 de área como Alario — explicou o jornalista Lautaro Avalos, do “Patria Futbolera”, destacando atletas do River que atuaram em outros clubes no passado.
— Falávamos de Lencina como um grande talento, e hoje ele nem é utilizado. Por uma partida fraca, Rivero sai do time e entra Paulo Díaz, sendo que o próprio Gallardo já havia pedido a saída dele anteriormente. Colidio parece desmotivado, mas mesmo assim não é o primeiro a ser substituído — seguiu Lautaro.
Outro ponto que chamou a atenção na passagem do técnico foi a confusão envolvendo a utilização dos jovens da base. O River é conhecido pela sua boa formação de jovens valores. Inclusive, o clube não foi atrás de um centroavante justamente para dar mais espaço aos garotos.
— A intenção de Gallardo de não buscar um centroavante é compreensível para dar espaço aos jogadores da base, aos mais jovens. Mas isso não tem sido constante. Como saber se um jogador pode render se ele é testado apenas em dois jogos, como no caso do Agustín Ruberto [de apenas 20 anos]? — afirmou Avalos.

A opinião é compartilhada pelo jornalista Jeremias Rocha. Para ele, Gallardo errou em utilizar os jovens que não participaram da pré-temporada e que estão chegando ao clube em meio a uma crise.
— Os erros do técnico passam pela sensação de que ele está perdido, sem saber exatamente o que fazer. Coloca e tira, coloca e tira, sem uma linha clara. E quando a situação aperta, quando o momento fica crítico, recorre aos garotos da base, jogadores que sequer fizeram a pré-temporada — afirmou o profissional.
Além disso, as lesões são um ponto de preocupação. No jogo contra o Vélez, três substituições foram feitas por questões físicas.
Questões extra-campo também podem estar impactando o desempenho do treinador. Recentemente, Gallardo lidou com o luto da perda de seu pai e também de um de seus representantes, que também era seu melhor amigo.
— Essas duas perdas foram muito significativas. Fala-se muito que ele perdeu parte do entusiasmo, daquela energia que sempre demonstrou. Mesmo que publicamente diga que quer estar no River e que está comprometido, comenta-se que essas mortes o afetaram profundamente e que, ultimamente, ele não está em sua melhor forma emocional — finalizou Agustín Laredo.
Gallardo ainda terá uma partida de despedida, nesta quinta-feira (26), às 19h30 (de Brasília), com o Monumental de Núñez lotado contra o Banfield pela sétima rodada do Clausura Argentino. O River ainda sonha com a classificação ao mata-mata.



