Argentina

Marcelo Gallardo deixa o River Plate como lenda definitiva do clube e pronto para seguir carreira na Europa

Lendário como jogador, Gallardo construiu uma história rica como técnico, que marca para sempre o futebol sul-americano e o River Plate em especial

Um dos maiores nomes entre os técnicos sul-americanos dos últimos anos estará disponível em janeiro. Marcelo Gallardo anunciou que deixará o River Plate, clube que comanda desde 2014 e pelo qual conquistou duas vezes a Libertadores nesse período. Se o ano de 2022 não tem sido dos melhores, nada apagará o quanto Gallardo marcou a história do River Plate, como uma lenda do clube, agora também como treinador, como já era enquanto jogador. Marcou a história do clube, do país e do continente. Gallardo se tornou um nome histórico para o futebol sul-americano, eternizado em glórias.

“Comuniquei aos dirigentes que é meu contrato final. Termina em dezembro e já não seguirei no clube. É uma das decisões mais difíceis e mais sentidas, é um momento delicado para me expressar”, afirmou o técnico, em coletiva de imprensa. Caíram lágrimas dos olhos de Muñeco, que criou uma história enorme no clube como técnico, depois de ser marcante também como jogador.

“Para além da tristeza, tenho uma paz interna muito sentida, que me faz estar bem comigo mesmo porque o longo caminho percorrido nestes anos me faz sentir muito orgulho. É a palavra que quero destacar”, afirmou ainda o treinador.

A história de Gallardo no River Plate já era enorme como jogador. Fruto das categorias de base do clube, jogou por lá de 1993 até 2000, quando se transferiu para o Monaco. Voltou ao River Plate em 2003, onde ficou até 2007. Voltou ao futebol europeu para jogar pelo Paris Saint-Germain por uma temporada, em 2007/08. Jogou ainda no DC United por um ano, em 2008, até voltar ao River em janeiro de 2009. Ficou até agosto de 2010, quando se transferiu para o Nacional, seu último clube, que defendeu até julho de 2011 para, enfim, se aposentar.

Foi por lá que Gallardo decidiu iniciar a carreira de treinador. Foi apenas uma temporada, mas de sucesso: conquistou o título da liga do país. Deixou o clube em 2012. Foi contratado pelo River Plate em 2014 para substituir Ramón Díaz e retomou uma história enorme com os Millonarios.

Com Gallardo no comando, o River conquistou a Copa Sul-Americana ainda em 2014, seu primeiro título pelo clube. Conquistaria ainda a Libertadores duas vezes, em 2015 e 2018. Venceu ainda a Copa da Argentina em 2016, 2017 e 2019 e três vezes a Recopa Sul-Americana, em 2015, 2016 e 2019.

Conquistou um título do Campeonato Argentino, em 2021, depois de passar perto algumas vezes. Foi o título que mais sofreu para conquistar. Conseguiu muitas vitórias marcantes sobre o Boca Juniors, especialmente nas competições sul-americanas. A começar pela vitória na Copa Sul-Americana de 2014, ao eliminar os xeneizes em duelos equilibrados. Houve ainda a Libertadores de 2015, com o polêmico episódio do gás na Bombonera que eliminou o rival.

A maior delas é, sem dúvida, a final de 2018, que teve o primeiro jogo na Bombonera, mas o segundo jogo não aconteceu no Monumental, como era programado, por um episódio de violência contra o ônibus do Boca. A final no Estádio Santiago Bernabéu, em Madri, consagrou o segundo título de Libertadores do time de Gallardo. Ainda haveria o confronto na Libertadores de 2019, com nova vitória dos Millonarios sobre os Xeneizes. O Boca Juniors venceu duelos na Copa da Liga Argentina em 2020 e 2021.

“Tudo tem um final e é o momento de fechar um ciclo lindo, muito valioso. Quero agradecer ao torcedor, que em cada pequena homenagem que me fizeram ao entrar em campo, sobretudo nestes últimos anos, será uma recordação inesquecível. Agradecer por as demonstrações de afeto e se bem hoje vou terminar meu vínculo como pensei sempre, como deve ser, é possível que no domingo tenha minha última partida no Monumental. Simplesmente obrigado pelo amor e carinho que me brindaram”, disse Gallardo.

A sua saída acontece um ano depois do esperado. Após a conquista do Campeonato Argentino, em 2021, com o seu contrato chegando ao fim, era esperado que o treinador deixasse o clube. A renovação veio de forma surpreendente e foi muito celebrada pela torcida. Desde então, toda a construção do time foi acidentada.

A dois jogos do fim da temporada, o técnico mais vitorioso da história dos Millonarios sairá e certamente mexerá com o mercado, tanto na América do Sul quanto possivelmente na Europa. Neste domingo, dia 16, no estádio Monumental de Núñez, o River Plate recebe o Rosario Central e Gallardo certamente será coberto de glórias e homenagens dos torcedores. No domingo seguinte, dia 23, fecha a temporada contra o Racing. Ainda há chance de conquistar o título, mas é muito remota. O Boca Juniors lidera com 48 pontos contra 44 do River, mas os xeneizes têm um jogo a menos. Ou seja: o River precisa vencer os dois e torcer para o Boca não fazer mais do que dois pontos nos três jogos que restam.

Próximo destino: Brasil ou Europa?

A saída de Gallardo certamente vai chamar a atenção de clubes brasileiros, que se tornaram poderosamente ricos em relação aos rivais, mesmo os argentinos. O salário do treinador, porém, pode ser um empecilho: ele ganha algo em torno de US$ 500 mil por mês, algo em torno de R$ 2,6 milhões na cotação atual. Os clubes brasileiros têm condições financeiras de bancar um Gallardo, ao menos os mais ricos. É possível que ele aceite menos, mas também deve haver uma disputa com clubes europeus.

Gallardo já foi sondado por clubes europeus em diversos momentos. Como ele tem a certificação de treinador da Uefa, pode treinar em clubes por lá sem problemas. Com seu histórico no futebol francês, esse pode ser um mercado que se interesse por ele. Isso além do óbvio interesse do mercado espanhol, até pelo idioma. Mas que clube poderia ter interesse em Gallardo?

Dificilmente Gallardo será desejado pelos superclubes europeus, até porque todos os lugares estão ocupados. Se passarmos a clubes médios ou pequenos de grandes ligas, porém, Gallardo certamente tem mercado. Clubes como o Wolverhampton, que busca um treinador, pode ser um destino para o argentino, mas outros clubes desse porte ou menores certamente se interessarão por ele.

A principal questão para que Gallardo vá para a Europa é a sua vontade de trabalhar por lá e disposição de ganhar menos. Como quem possivelmente irá o contratar será um time médio ou pequeno, o seu salário não será como o que recebe no River Plate atualmente. Mas há espaço para um técnico como ele, consagrado no futebol sul-americano. Só em La Liga há três técnicos argentinos, um chileno e um mexicano.

Basicamente, tudo depende da vontade de Gallardo em se aventurar em clubes pequenos do futebol europeu. Basta lembrar que Diego Simeone foi para o Catania no futebol europeu antes de chegar ao Atlético de Madrid. Mauricio Pochettino, outro argentino, também começou a sua carreira no Espanyol e passou pelo Southampton (onde chegou sem falar inglês) para depois chegar ao Tottenham e ao PSG.

Os salários dos técnicos do nível de Gallardo são enormes na América do Sul. Para chegar à Europa, além da licença da Uefa, que o argentino tem, é preciso disposição em passar por um time médio ou pequeno para mostrar a sua capacidade. Em certo aspecto, é parecido com o que se espera de alguns jogadores, que primeiro precisam passar em um clube europeu médio ou um grande fora das cinco grandes ligas, como jogar em Portugal, para aí sim mudar para um clube dos melhores do continente.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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