Tim Vickery: O caso Prestianni expõe uma ferida histórica do futebol argentino
'A pior parte do problema do racismo na Argentina é a negação de que se trata de um problema', diz colunista da Trivela
Tapar a boca com a camisa quase certamente serve como uma confissão da culpa, e Gianluca Prestianni deve sofrer consequências das suas palavras na semana passada, no jogo entre Benfica e Real Madrid. A punição faz parte de um processo de educação — para ele e para todo mundo.
O futebol não inventou o racismo nem vai conseguir acabar com a praga, que tem raízes muito fundas e se manifesta em formas distintas em lugares diferentes.
Na Europa atual, por exemplo, o racismo muitas vezes toma a forma da rejeição ao imigrante. Não é difícil explicar; numa economia desindustrializada e rentista, ficou complicado ter uma casa e começar uma família.

A força de mão de obra, então, não está se reproduzindo, tornando a imigração uma necessidade – e logo o imigrante leva a culpa por uma economia rentista, enquanto os bilionários se divertem semeando divisões entre imigrantes e locais. Deu para ver as consequências neste processo nas arquibancadas de Lisboa na semana passada.
No campo, porém, a dinâmica foi diferente. Foi uma questão sul-americana, fortemente ligada às ideias de supremacia branca num contexto de escravidão.
As repetidas e frequentes manifestações de racismo na Argentina e dos argentinos vêm de uma ignorância brutal da própria história do país. Verdade, a Argentina teve muito menos escravizados que o Brasil — sem plantações de açúcar, banana, algodão, não precisava tanta mão de obra. Mas, 200 anos atrás, um terço da população de Buenos Aires era afrodescendente e deixou a sua marca.
A própria palavra “tango” tem raízes africanas.

Mas com o fim da escravidão em 1813, febre amarela, a guerra de liberação contra a Espanha e, principalmente, a chegada em escala enorme dos imigrantes da Europa e o Oriente Médio, os negros argentinos quase não formam mais um grupo distinto. Faltam, então, mais vozes poderosas dentro da Argentina para ensinar e educar sobre o assunto do racismo. Porque a pior parte do problema do racismo na Argentina é a negação de que se trata de um problema.
Depois do “caso Prestianni”, há dois mecanismos de defesa quase automáticos na Argentina. O primeiro, um argumento dado por Sergio Aguero nesses dias: que Vinicius Júnior e Rodrygo provocam muito em campo, mas ninguém faz nada. O outro — que cada vez que um time argentino vai para o Brasil, os torcedores sofrem ataques muito perigosos, da torcida rival e até da polícia.
Os dois argumentos podem ser procedentes. O segundo, acredito que todo mundo já viu. Acho inacreditável que o Brasil não tenha recebido uma punição severa para os eventos no Maracanã no jogo nas eliminatórias contra a Argentina em novembro de 23.
Mas não têm nada a ver. Não justificam em nada manifestações racistas. Discriminar alguém somente pela cor da pele tem um outro contexto, um outro peso, uma outra profundidade. Ataca o ser humano não em suas ações ou atitudes, mas na sua própria essência. Impossibilita uma convivência harmoniosa.
Acho bem provável que a situação na Argentina esteja piorando. Antes, acredito que muitos torcedores fazendo gestos de macaco estavam atuando na crença, bem forte por lá, que o acontece no estádio fica no estádio, que qualquer coisa é válida para perturbar o adversário.

Mas se antes poderia ter sido ignorância, agora parece maldade mesmo — uma declaração da identidade, tipo “isso faz parte da natureza argentina de ser, e ninguém vai obrigar a gente a mudar.”
Como melhorar? Acredito que chegou o momento daqueles jogadores argentinos com a experiência de vestiários multinacionais e multiculturais. Enzo Fernández, por exemplo. Depois da vitória na última Copa América, o Enzo gravou e postou um vídeo no qual a “comemoração” foi uma música zoando os jogadores negros da França.
Detalhe — no Chelsea ele compartilha um vestiário com alguns deles. A situação dele ficou bem complicada. Pediu desculpas. Parecia arrependido. Ótimo — aprendeu alguma coisa.
Mas agora vem o teste. Ele está disposto a compartilhar o que aprendeu com os seus compatriotas? Um tipo de “eu errei, vamos todos parar de errar.” Seria uma bola bem dentro.


