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Para proteger garotos, St. Pauli decide não mais negociar com empresários na base

St. Pauli não vai mais negociar jogadores para a sua base com empresários; a partir disso, pretende fortalecer ambiente familiar e proteger os garotos do aspecto mais comercial do esporte

O St. Pauli é um clube que costuma nadar contra as correntes dentro do futebol. E, nesta semana, os Piratas anunciaram uma medida bastante interessante, para proteger suas categorias de base. Segundo comunicado oficial, o clube decidiu não negociar mais a contratação de menores de idade com empresários. A partir de agora, a equipe alemã vai priorizar apenas contatos com familiares e com o próprio entorno dos atletas. É uma tentativa de “fortalecer o diálogo”, bem como de se posicionar “contra a capitalização do futebol de base”. De certa maneira, a direção se afasta do impacto que esses agentes podem ter sobre o desenvolvimento dos atletas.

“O assunto está sendo discutido de maneira crítica em todos os clubes e a maioria reconhece o problema. Queremos tomar o primeiro passo agora e esperamos que outros sigam nosso exemplo”, afirmou Andreas Bornemann, diretor esportivo do St. Pauli, em entrevista ao Süddeutsche Zeitung. A preocupação se concentra na maneira como talentos cada vez mais novos recebem contratos suntuosos e comprometem seus futuros com empresários. Na Alemanha, há inclusive um aumento no número de treinadores particulares, que oferecem rotinas específicas em troca do agenciamento desses garotos. Promessas tantas vezes quebradas.

O projeto pedagógico paralelo

Ao longo das últimas décadas, o St. Pauli possui uma coleção de posturas “contra o futebol moderno” e mais ligadas a uma ideia de comunidade ao redor do clube. Os Piratas e sua torcida se colocam constantemente ao lado de uma visão progressista do futebol, atrelada ao espectro político. O rompimento com os empresários para proteger as categorias de base, ainda assim, soa como uma decisão acima da política em si. Por mais que os Piratas não reneguem um compromisso com sua identidade, esse é o tipo de postura que poderia ser exemplar para qualquer equipe.

Há um interesse do St. Pauli em proteger os jovens de um interesse puramente comercial no desenvolvimento de suas carreiras, que tantas vezes pode significar um custo pessoal. Isso poderia ser feito por qualquer agremiação, que demonstre vontade de manter um ambiente mais saudável no seu processo de formação. Ainda assim, tal ideal também depende de um trabalho do próprio clube na preparação desses jovens além do futebol. Neste sentido, o St. Pauli possui um projeto pedagógico que abrange diferentes áreas de apoio aos seus garotos – algo ainda mais importante que o rompimento com os agentes.

O que o St. Pauli fala em sua nota oficial

“O St. Pauli decidiu que não haverá mais qualquer tipo de colaboração com consultores, agentes e treinadores individuais comerciais nas categorias de base. O clube posiciona-se assim contra a capitalização do futebol de base e quer fortalecer o diálogo com jogadores e seu entorno, num espírito de parceria”.

“O St. Pauli aplica explicitamente um princípio orientador em suas categorias de base: ‘É possível fazer um tipo diferente de futebol'. Para fortalecer essa reivindicação, o clube tomou agora uma decisão estratégica: no futuro, a associação se absterá de falar ou negociar com consultores ou agências nos processos de contratação, renovação e desenvolvimento da base. Este regulamento se aplica a todos os jogadores menores de idade”.

Foco maior no ambiente

Diretor da base do St. Pauli, Benjamin Liedtke também salientou como um elo maior com as famílias pode criar um ambiente mais saudável dentro da estrutura do clube: “Contamos com um diálogo baseado na parceria com os jogadores, suas famílias e os ambientes pessoais. Isso significa que, no futuro, também haverá uma abordagem uniforme para todos os jogadores e suas famílias, que normalmente são de importância decisiva para o desenvolvimento contínuo e, sobretudo, sustentável desses jovens jogadores”.

Outro ponto ressaltado por Liedtke é a orientação para que os atletas não busquem um treinamento individual além do clube, no que abarca interesses comerciais de terceiros. O diretor inclusive demonstra consciência sobre a maneira como tal postura do St. Pauli pode restringir contatos e até mesmo possibilidades, diante da insatisfação de empresários e agentes. Mesmo assim, os Piratas avaliam que o bônus da proteção maior aos atletas supera o ônus por essas possíveis recusas.

Liedtke assinala como o distanciamento de uma ideia comercial do futebol pode auxiliar os jovens no desenvolvimento de ferramentas importantes para lidar com o ambiente do esporte profissional. “Tornamos os jogadores melhores a longo prazo e trabalhamos as habilidades necessárias para sobreviver em esportes competitivos”, aponta o diretor. “Esta não é uma decisão contra os empresários de futebol em geral, mas sim uma decisão sobre focar no ambiente pessoal dos jogadores na base, não em agências e no mercado”.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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