Schmidt decepcionou no Leverkusen, mas vale continuar de olho neste técnico promissor
Roger Schmidt deu um presente de grego para Pep Guardiola, no 43º aniversário do espanhol. No comando do Red Bull Salzburg, venceu o Bayern de Munique, em amistoso de intertemporada, por 3 a 0, em partida que deixou o treinador adversário fascinado pelo seu estilo de jogo ofensivo e de pressão incessante. Chegou a ser objeto de estudo de Guardiola, que viria a reencontrar na Bundesliga alguns meses depois, um elogio bem considerável para um engenheiro mecânico de 49 anos que, enquanto Guardiola trocava o Barcelona pelo Brescia, trabalhava como fornecedor de peças para construtoras de carros e batia uma bola semiprofissional nas divisões inferiores da Alemanha. Mas Schmidt, promissor treinador da nova geração, está sem emprego depois de ter sido demitido pelo Bayer Leverkusen, no último fim de semana.
LEIA MAIS: Capitão do Eintracht Frankfurt, Russ volta a campo 285 dias após retirar tumor e é ovacionado
A gota d’água de uma campanha decepcionante foi a pesada derrota por 6 a 2 para o Borussia Dortmund, no último sábado. O que é de certa forma irônico, pois a vitória por 2 a 0 sobre o time de Thomas Tuchel, na sexta rodada do Campeonato Alemão, deixou todo mundo animado no Bayer Leverkusen, confiantes que poderiam finalmente dar um passo à frente, brigando pelo título ou pelo menos assumindo a posição do Dortmund de principal rival do Bayern de Munique. A realidade foi bem diferente: com apenas quatro vitórias nas últimas 13 rodadas, o clube amarga a 10ª posição da liga, a onze pontos da zona de classificação à próxima Champions League, e já foi derrotado 11 vezes, mais do que em toda a edição anterior da Bundesliga.
A sorte não foi muito melhor nas outras competições. O Leverkusen caiu na segunda rodada da Copa da Alemanha para o Sportfreunde Lotte, atual décimo colocado da terceira divisão. Classificou-se em segundo lugar no seu grupo na Champions League, à frente do Tottenham, mas perdeu por 4 a 2 do Atlético de Madrid, em casa, pelo jogo de ida das oitavas de final, e está bem próximo de ser eliminado do torneio europeu.
“Eu considero Roger Schmidt um técnico de primeiro escalão, mas tivemos que agir rapidamente para não perder nossos objetivos de vista”, justificou o diretor-esportivo do Leverkusen, Rudi Völler. “A primeira coisa que precisamos é conseguir um novo ímpeto e alguma consistência. Nosso time tem muita qualidade, mas mostramos isso raras vezes nesta temporada. Roger Schmidt é capaz de encontrar o sucesso novamente”.
O Bayer Leverkusen terminou entre os cinco primeiros nas últimas sete temporadas. Com Schmidt, que chegou ao clube em 2014, foi quarto e terceiro colocado. O elenco recheado de jogadores de qualidade ganhou as boas companhias do zagueiro Dragovic e do atacante Volland, com a expectativa de subir de patamar, mas, na prática, deve acontecer o contrário. A principal crítica ao trabalho de Schmidt tem sido o estabelecimento de um estilo de jogo unidimensional, excessivamente ofensivo que, quando funciona, é delicioso de se ver. Quando não funciona, a equipe fica exposta demais. Entre os 13 primeiros colocados da Bundesliga, apenas o Freiburg tem uma defesa pior que a do Leverkusen nesta temporada.
Thank you, Roger Schmidt! pic.twitter.com/BE3HdMipMS
— Bayer 04 Leverkusen (@bayer04_en) March 5, 2017
Mais do que uma fraqueza, impor o seu estilo de jogo contra qualquer adversário é uma filosofia de Schmidt. “Ficamos felizes quando o jogo é intenso. Mesmo contra equipes que são supostamente melhores do que a nossa, como Bayern de Munique ou Barcelona, na temporada passada (2 x 1 e 1 x 1), tentamos fazer com que eles joguem o nosso futebol. É isso que exigimos dos nossos adversários e, se funcionar, geralmente vencemos”, disse, em outubro, ao Guardian.
Ter uma convicção tão firme, parecida com a do próprio Guardiola, é curioso para um treinador que, no começo da carreira, tratava o futebol mais como um hobby do que de fato uma profissão. Schmidt chamou a atenção ao chegar em quinto lugar na segunda divisão com o pequeno Paderborn, na temporada 2011/12. Foi chamado por Ralf Rangnick para treinar o Red Bull Salzburg e, na Áustria, desenvolveu melhor o seu estilo de jogo parecido com o do ex-treinador, que chocou a Alemanha quando, no final da década de noventa, levou o SSV ULM a dois acessos seguidos rumo à Bundesliga, jogando um futebol com conceitos modernos, e depois teve boas passagens pelo Hoffenheim e pelo Schalke 04.
A chave do jogo de Schmidt é a pressão para recuperar a posse. Seu método de treinamento é um cronômetro com um alarme que apita cinco segundos depois de seus jogadores perderem a bola. Caso eles ainda não a tenham recuperado, a ordem é para reagrupar e retornar às posições defensivas. “Eu nunca, na minha carreira, cruzei com uma equipe que jogava com tanta intensidade”, disse Guardiola, depois do amistoso de 2014, contra o Red Bull Sarlzburg. “No fim do trabalho (na Áustria), um futebol ainda mais extremo do que aquele que Ralf conheceu no Hoffenheim havia nascido”, gabou-se Schmidt, em outubro.
Os resultados com o Red Bull Salzrbug foram realmente incríveis. Em 2013/14, última temporada de Schmidt na Áustria antes de se transferir para a Alemanha, sua equipe foi campeã austríaca com cinco rodadas de antecedência e um ataque arrasador. Jonathan Soriano e o brasileiro Alan fizeram 57 gols em conjunto. O elenco ainda contava com Sadio Mané, atualmente no Liverpool, e Kevim Kampl, que passou pelo Dortmund antes de se reencontrar com Schmidt no Leverkusen. O ataque quebrou com folgas a barreira dos 100 gols, com 110 em 36 rodadas, uma ótima média de três por partida. Conquistou a dobradinha com o título da Copa da Áustria e, na Liga Europa, venceu os seis jogos da fase de grupos e impôs um 6 a 1 no agregado contra o Ajax, antes de ser eliminado pelo Basel, nas oitavas de final.
Esse resultados e principalmente o desempenho em campo foram atrativos para o Bayer Leverkusen, que buscava um treinador que desse identidade ao seu time. Schmidt cumpriu essa missão, e seu estilo de jogo foi responsável por grandes vitórias, como 2 a 0 sobre o Bayern de Munique e 5 a 0 sobre o Borussia Monchengladbach, em 2015, e mesmo na atual temporada, como aquela contra o Dortmund e outra, por 3 a 0, diante do Monaco, líder do Campeonato Francês, também com um futebol bastante ofensivo. Em outro escopo, protagonizou partidas eletrizantes, mesmo em tropeços: 4 a 4 contra a Roma, 4 a 3 contra o Stuttgart, 4 a 5 contra o Wolfsburg. No entanto, a falta de consistência impediu que elevasse o clube de patamar, e agora, com alguns meses para se reciclar antes da próxima temporada, caso volte ao mercado imediatamente, pode tentar descobrir o que deu errado.



