‘Gol da Alemanha’ parte de Klinsmann para desvendar o processo de revolução do futebol alemão
Quando acabou a semifinal da Copa do Mundo de 2014, a goleada inapelável da Alemanha sobre a seleção brasileira foi o ápice de um processo de revolução que começou depois de o time fracassar em duas grandes competições seguidas – quartas de final do Mundial de 1998 e lanterna do seu grupo na Eurocopa de dois anos depois. Um projeto que tem vários pais, influências de técnicos de diferentes países e linhas de pensamento, mas que não teria sido possível não fosse a coragem de Jürgen Klinsmann. Essa é a tese que o livro ‘Gol da Alemanha’, escrito pelo jornalista Axel Torres e pelo professor de alemão André Schön, traduzido pelo brasileiro Thiago Arantes, e editado pela Grande Área, tenta comprovar ao longo de 202 páginas.
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O texto agradável faz com que o leitor acompanhe de perto uma jornada de descobertas e estudos. Torres, renomado jornalista espanhol e fascinado pelo futebol alemão, busca um professor para aprender o idioma e ter mais acesso àquele mundo. Este homem é André Schön, fanático por futebol e pelo Bayern de Munique. Em uma das primeiras aulas, conversam sobre a revolução do clube bávaro e do futebol alemão – o livro mostra como, em muitos momentos da história, os dois times se retroalimentam -, e Torres não se conforma quando Schön afirma que o caminho não começou com Louis van Gaal, mas com Klinsmann.
Klinsmann foi técnico da seleção alemã de 2004 a 2006. Ou seja, comandou a equipe durante a Copa do Mundo que a Alemanha sediou. Teve a coragem de, mesmo com a pressão de atuar em casa, dar mais espaço a jovens como Schweinsteiger, Philpp Lahm e Lukas Podolski, três pilares da Nationalelf na década seguinte. Barrou o grande Oliver Kahn a favor de Lehmann, pois este era melhor com a bola nos pés. Atuou indefectivelmente com uma linha de quatro na defesa, sem líbero, quebrando um tabu do futebol alemão. E montou uma equipe que jogava para a frente, ofensivamente, sem medo.
A Alemanha terminou a Copa do Mundo em terceiro lugar, um resultado acima das expectativas naquela época, e o time de Klinsmann foi responsável por fornecer muita alegria ao povo alemão. No entanto, muitos questionavam os seus méritos durante os dois anos de trabalho, creditando-os mais a Joachim Löw, seu auxiliar e, sob o ponto de vista de alguns críticos e torcedores, o verdadeiro treinador daquela seleção. Ao assumir o Bayern de Munique, em 2008, ele ganhou a chance de se provar. E fracassou: foi demitido em abril do ano seguinte, depois de levar 4 a 0 do Barcelona, nas quartas de final da Champions League. Os bávaros contrataram Van Gaal e deram início ao projeto de três etapas que levou o Bayern a três finais europeias, um título de Champions, cinco Bundesligas e o fantástico time de Guardiola, que jogou um futebol muito diferente do tradicional estilo alemão.
Torres fica fascinado com essa opinião de Schön e, juntos, ambos embarcam em uma máquina do tempo para identificar exatamente onde tudo começou. Torna-se uma daquelas investigações nas quais você puxa um pequeno fiozinho e encontra um novelo de lã. Por exemplo, o SSV ULM surpreendeu toda a Alemanha no final da década de noventa, com dois acessos seguidos rumo à Bundesliga, jogando um futebol com conceitos modernos para o contexto da época: marcação por zona, pressão ao perder a posse, linha de quatro, etc, etc. O treinador era Ralf Rangnick, que depois viria a comandar o Schalke 04 e atualmente é diretor esportivo do RB Leipzig. Os autores enviam um amigo jornalista, Willy, a Ulm para averiguar melhor essa história. Willy descobre que Rangnick adquiriu seus conceitos depois de um amistoso contra o Dínamo Kiev de Valeriy Lobanovskyi, em 1984. Então será que tudo começou em uma excursão de inverno do time soviético na metade dos anos oitenta?
Schön brilha em dois momentos. Quando conta a fascinante história de um homem, com o qual se encontrou em um bar, que alega ser o verdadeiro Franz Beckenbauer e que acusa aquele que vemos na TV e na imprensa de vez em quando de ser um impostor. E quando dá uma aula de história – inclusive, o nome do capítulo – explicando as raízes do jogo ‘feio’ e eficiente da seleção alemã. Tem a ver com a maneira como o país reergueu-se depois da Segunda Guerra Mundial. Tratava-se de um povo derrotado, de baixa auto-estima, com complexo de inferioridade, envergonhado pelo que havia acontecido e paranoico com o que a Guerra Fria poderia lhes trazer. A solução foi abaixar a cabeça e trabalhar duro, seguindo as regras e “sem experimentos”, como dizia o slogan do chanceler Konrad Adenauer, que comandou o país de 1949 a 1963.
Essa filosofia transferida ao futebol transformou-se em uma equipe que não tinha a qualidade técnica de italianos ou espanhóis – muito menos de brasileiros ou argentinos -, mas que compensava o gargalo com muita luta, dedicação, fidelidade ao plano de jogo e eficiência. Foi assim que conseguiu viradas improváveis contra adversários superiores tecnicamente em duas finais de Copa do Mundo e, de 1966 a 1990, com exceção de 1978, chegou pelo menos nas semifinais do Mundial. Sem falar no sucesso do Bayern de Munique tricampeão europeu, que Torres destrincha com habilidade, vendo e revendo partidas chave daquele time, depois de ouvir em um podcast que os bávaros não mereceram vencer nenhuma daquelas finais. O jornalista também revisita jogos da seleção alemã daquela época, já que os técnicos dos três títulos da Copa dos Campeões, Udo Lattek e Dettmar Cramer, foram auxiliares de Helmut Schön, lendário treinador da Alemanha em quatro Copas. A fórmula do sucesso ruiu nos anos noventa quando os alemães perceberam que não tinham uma geração boa o suficiente e que seu modelo havia sido ultrapassado por novas ideias. Era a hora de se modernizar, tanto em conceitos, quanto na formação de jogadores.
É interessante assistir a Torres e André Schön ligando os pontos da revolução do futebol alemão, desde a seleção da década de sessenta até a vitória sobre a Argentina, no Maracanã, aproximadamente cinquenta anos depois, e chegando à conclusão de que o que vimos durante a Copa do Mundo do Brasil foi o resultado de um multiculturalismo, não apenas na nacionalidade dos jogadores, mas também dos treinadores que influenciaram aquele time: o holandês Van Gaal, os alemães Rangnick, Klopp e Heynckes, o croata Branko Zebec, o espanhol Guardiola e até mesmo o português Mourinho. E Klinsmann, claro, que, se não conseguiu resultados exuberantes nem na seleção e nem no Bayern de Munique, teve o mérito, segundo o livro, de convencer essas duas entidades que, por mais bem-sucedidas que elas fossem, precisavam rever seus conceitos e entrar de vez nos novos tempos.
O livro Gol da Alemanha está R$ 37,80 na loja on-line da Editora Grande Área.



