Alemanha

Kimmich diz que não se vacinou e levanta desconfianças sem qualquer embasamento científico

Segundo Kimmich, ele não é negacionista da COVID-19 e diz que toma todas as medidas restritivas; jogador do Bayern diz que pode se vacinar no futuro

O meio-campista Joshua Kimmich confirmou em entrevista após a vitória do seu time, o Bayern, contra o Hoffenheim pela Bundesliga que não tomou a vacina contra COVID-19. Surgiu a informação na Sky Sports Alemanha que o jogador não tinha se vacinado, o que o próprio confirmou em declaração, em que explicou seus motivos de desconfiança com os estudos clínicos. Ainda assim, deixou aberta a possibilidade de tomar a vacina no futuro.

Antes do jogo, a Sky Sports perguntou ao diretor do Bayern de Munique, Hasan Salihamidzic, se a informação era verdadeira. Ele não confirmou a história, só disse que o próprio Kimmich falaria sobre o assunto depois da partida. Reforçou ainda que a recomendação do Bayern é que os jogadores se vacinem contra a COVID-19. Ele lembrou que não há vacina compulsória no Bayern, como não há na Alemanha.

“Sim, isso é verdade”, afirmou Kimmich quando perguntado pela Sky Sports se era verdade que não tinha tomado a vacina. “Pessoalmente, eu ainda tenho algumas preocupações sobre a falta de estudos de longo prazo”, explicou o jogador. “Eu também sigo as medidas de higiene. Além disso, os jogadores não vacinados do clube são testados a cada dois ou três dias”.

A informação que Kimmich não tomou a vacina surpreendeu, porque o jogador fez uma campanha para arrecadar fundos para vacinação contra COVID-19 em países pobres. O projeto foi feito junto com o seu companheiro de clube e seleção, Leon Goretzka. A campanha, chamada de “We Kick Corona” (algo como “Nós chutamos o Corona”, em tradução livre), chegou a ganhar o Prêmio Esportivo da Baviera na categoria especial “Engajamento contra o Corona”.

Para Kimmich, não há nenhuma contradição em participar da iniciativa e não ter pessoalmente tomado a vacina. “Eu acho que todo mundo que decidiu por eles mesmos que querem se vacinar devem ter a oportunidade de fazer isso”, afirmou o meio-campista do Bayern de Munique.

“Não sou um negacionista da COVID-19 ou contra as vacinas. Há pessoas que têm preocupações, independentemente das razões. E isso também tem que ser respeitado, especialmente se você segue as medidas de restrição”, disse ainda Kimmich à Sky Sports. “Você é rapidamente criticado. As razões não são sequer perguntadas. Você se sente frequentemente pressionado”.

Kimmich ainda afirmou que a sua opinião pode mudar e não descartou tomar a vacina. “No momento eu tenho algumas preocupações. Mas é bastante possível que eu seja vacinado no futuro”, disse ainda o jogador, de 26 anos.

Por que as vacinas foram criadas tão rapidamente?

É importante lembrar que os estudos feitos para a vacinação contra a COVID-19 não começaram do zero quando a pandemia iniciou. Até por ser um tipo de vírus que já tem vacinas desenvolvidas anteriormente – tanto que há outros coronavírus –, os estudos tiveram uma base importante. Assim como também há diversos métodos usados em outros tipos de vacinas virais, como a da gripe, que foram utilizados.

Há motivos para que as vacinas tenham sido feitas de forma muito mais veloz do que outras, em momentos anteriores, como mostra esta matéria do Gizmodo. Entre os motivos para a rapidez estão mais de uma década de pesquisas sobre este tipo de vírus – já que este é um novo coronavírus e, portanto, havia outros. Além disso, as tecnologias usadas nas vacinas não são propriamente novas: a vacina de RNA da Pfizer/Biontech, por exemplo, é a primeira a usar RNA mensageiro, mas é um modelo que tem sido estudado desde o início dos anos 1990, ou seja, são mais de 30 anos de pesquisas.

Outro ponto importante e crucial para entender a rapidez da produção das vacinas contra a COVID-19 passa por um fator muito simples: dinheiro. Nunca antes tantos governos e empresas privadas investiram tanto dinheiro em tão pouco tempo para o desenvolvimento de uma vacina. Um dos grandes entraves para o desenvolvimento de vacinas é que elas são caras e conseguir financiamento para isso não é tarefa fácil. Isso sem falar em processos burocráticos que normalmente acontecem nas agências reguladoras, como o FDA americano ou a Anvisa brasileira. Com investimentos para que essas agências trabalhem mais rápido e em regime de urgência, os prazos foram reduzidos.

Outro ponto fundamental para a criação rápida das vacinas foi o alto número de infectados. Normalmente, os testes duram até que uma certa quantidade de indivíduos que participam do estudo se infecte. Em uma pandemia, com uma quantidade imensa de infectados, os testes ocorrem mais rapidamente.

Por fim, mas não menos importantes, diversos passos foram antecipados pelos envolvidos: as farmacêuticas começaram a produzir seus imunizantes depois de passadas os testes, antes deles serem aprovados, de forma a se antecipar e deixá-los prontos, caso fossem aprovadas e pudessem rapidamente distribuir. Isso, claro, normalmente não acontece porque as empresas temem perder dinheiro. Neste caso, se não fizessem isso, o tempo de produção seria muito grande e impediria uma distribuição em massa.

“Não foi um milagre, foi um esforço sem precedentes”, diz cientista brasileira

A rapidez é usada como motivo de desconfiança de muitos, mas é uma desconfiança que não se sustenta em dados científicos. “Não foi um milagre, foi um esforço sem precedentes, o que demonstra como podemos alcançar muito mais do que aquilo que normalmente pensamos ser possível”, afirmou Denise Golgher, doutora em biologia celular pela Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos, e pós-doutora em imunologia de câncer pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, em entrevista ao UOL.

“O que impulsionou o desenvolvimento em tempo recorde foi a motivação conjunta proporcionada pelo sofrimento e desespero causados pela doença. Ninguém pôde fechar os olhos para a pandemia, como tantas vezes acontece em epidemias”, disse ainda Golgher.

“Houve (…) a união de grandes empresas farmacêuticas, empresas de biotecnologias, cientistas, periódicos especializados e agências regulatórias de vários países, que juntos trabalharam para que o desenvolvimento de vacinas e medicamentos evoluíssem com tanta rapidez”, afirmou a cientista.

“Não se sacrificou a segurança. A diferença desta vez foi que a concorrência (muitas vezes entre empresas rivais) deu lugar à colaboração. A inércia cedeu seu lugar à ousadia e à coragem para implementar o novo. Finalmente, a ignorância foi diminuída pela transparência, divisão e difusão dos resultados. Claro que isso tudo só foi possível pelo esforço hercúleo de muita gente, que tornou possível o que há um ano parecia impossível”, explicou a brasileira, que trabalha nos Estados Unidos.

A vacinação não é um processo individual. É fundamental, para combater o vírus, que haja uma adesão em massa à vacina. Caso contrário, o vírus continua encontrando um ambiente favorável e pode continuar se adaptando, o que gera novas variantes. As vacinas interrompem grande parte da transmissão da COVID-19, como mostram estudos. O mais importante de tudo: as vacinas são seguras.

Doenças que já foram grandes problemas de saúde pública foram controladas com vacinas, como sarampo, rubéola, coqueluche e varíola, por exemplo. Todos nós tomamos diversas vacinas desde os primeiros meses de vida, de forma a impedir que esse tipo de doença nos acometa. Foi assim que se controlou essas doenças.

A falta de vacinas fez com que o Brasil voltasse a ter surtos de sarampo, perdendo a certificação de “país livre de sarampo”, como informa a Fiocruz. A vacinação coletiva é fundamental para controle do vírus e para impedir que ele siga se adaptando e criando novas e mais perigosas variantes.

Só conseguiremos vencer essa doença com a adesão em massa das pessoas. Por isso, recomendamos: vacine-se contra a COVID-19 e incentive as pessoas ao seu redor a se vacinar também.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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