Alemanha

Gomez, Breitner, Lahm e até Merkel criticam Kimmich por não ter se vacinado contra Covid-19

Ex-jogadores criticaram a atitude de Kimmich, enquanto políticos disseram que há informações disponíveis para esclarecer as suas dúvidas – e até se prontificaram a conversar com ele

A discussão sobre Joshua Kimmich ainda não ter se vacinado tornou-se grande na Alemanha. O ex-atacante Mario Gomez fez críticas ao jogador por não ter se vacinado e disse que se mais gente seguisse o que Kimmich fez, os times teriam que continuam jogando sem público mais um ano. Ele não foi o único a criticar a atitude. Phillip Lahm e Paul Breitner, ex-jogadores do Bayern, também se posicionaram. Assim como políticos, como Karl Lauterbach, que é também cientista e político, além da chanceler alemã, Angela Merkel, outra provocada a se posicionar.

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“Os estádios estão cheios de novo e podemos ficar felizes porque 60, 70, 80% das pessoas foram vacinadas. O fato que a vida pode voltar ao normal novamente é por causa daqueles que estão vacinados. E Kimmich também se beneficia disso”, disse Mario Gomez na Amazon Prime, onde é comentarista. “Se todo mundo reagisse como ele, teríamos que jogar outro ano sem torcedores nos estádios”.

As críticas não vieram apenas de Mario Gomez. Paul Breitner, ex-jogador da seleção alemã e do Bayern, disse que não jogaria com Kimmich nessa condição, se ele ainda tivesse um cargo diretivo no clube, como já exerceu. “Eu não preciso discutir com ninguém se eles deveriam se vacinar ou não. Para mim, a única direção é se vacinar. E isso não é sobre ser um modelo de comportamento, é sobre o indivíduo”, afirmou Breitner.

Paul Breitner, ex-jogador da Alemanha e do Bayern (Getty Images / OneFootball)

Breitner: “Ele não jogaria comigo”

“Fui responsável pelo time do Bayern por cinco anos. Ele não jogaria comigo – e também os outros quatro jogadores [do Bayern que não se vacinaram] –, esses cinco não jogariam comigo, sequer treinariam conosco. Eu teria dito a eles: ‘Caras, adeus. Ali atrás vocês podem correr subindo e descendo a montanha, mas não aqui. Não é possível’”, disse ainda Breitner ao Sport Bild.

Phillip Lahm, ex-capitão do Bayern de Munique e da seleção alemã, comentou também sobre o assunto e disse que, se ainda fosse jogador, teria a tarefa de conversar com Kimmich sobre o assunto. “Para mim seria clara a tarefa de falar com ele sobre isso, convencê-lo”, disse o ex-jogador ao Suddeustsche Zeitung.

Para Lahm, é importante que como jogador ele saiba que é um modelo a ser seguido e é importante fazer a coisa certa. “Você pode ter essa opinião, mas a pergunta que surge para mim é: como se chega a essa opinião?”, questionou o ex-lateral, campeão do mundo em 2014 pela Alemanha. “Eu leio muito, é de onde eu me informo. E não li muitas coisas disseram que a vacina é ruim”.

“Há mais razões para se preocupar com a infecção do que com a vacina”

Quem também comentou sobre o assunto foi Karl Lauterbach, um cientista alemão que também é político pelo Partido Social Democrático da Alemanha (SPD). Ele é professor de saúde econômica e epidemiologia na Universidade de Colônia e comentou no Twitter sobre um estudo da Universidade de Düsseldorf que, nas palavras dele, “é relevante para Joshua Kimmich”. O estudo mostra que ao menos 5% dos jogadores da Bundesliga e Serie A sofrem de efeitos da infecção pela COVID-19 e estavam com menos força nos seis meses depois de contrair a doença.

Lauterbach foi um dos que se manifestou publicamente se mostrando disposto a conversar com Kimmich sobre o assunto vacina. “Se ele quiser, eu ofereceria a ele diretamente”, disse o político ao Münchner Merkur, sobre conversar com o jogador. “Do ponto de vista científico, há mais razões para se preocupar com os danos causados por uma infecção de COVID-19 do que de efeitos da vacinação”.

“Pessoalmente, presumi que ele estava vacinado. Não é bom que não esteja. Se ele diz que está esperando, é difícil”, afirmou o político. Lauterbach, porém, ressalta que não se vacinar é um direito de Kimmich. “A vacinação de Kimmich seria valiosa, porque tem um enorme efeito simbólico para os jovens, que representam um problema epidemiológico”. Neste momento, porém, quem tem explorado a imagem de Kimmich como alguém para se ter como exemplo é o AfD, o partido “Alternativa para a Alemanha”, de extrema direita, e que tem um discurso antivacina e negacionista em relação à pandemia.

“Há bons argumentos factuais sobre seus questionamentos e dúvidas, que estão amplamente disponíveis”

Angela Merkel

Até a chanceler alemã, Angela Merkel, comentou o assunto. “Talvez Joshua Kimmich pense nisso e reconsidere. Afinal, ele é conhecido como um jogador muito reflexivo”, disse a chanceler alemã. Ela foi perguntada o que achava dos argumentos de Kimmich para não se vacinar, por ter “preocupações com estudos de longo prazo”. Merkel tem um doutorado em física. “Há bons argumentos factuais sobre seus questionamentos e dúvidas, que estão amplamente disponíveis”, ela respondeu ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung.

Joshua Kimmich, do Bayern (Getty Images / OneFootball)

Médico da seleção alemã quer restrições a não vacinados

Kimmich recebeu uma ligação do técnico da seleção alemã, Hansi Flick, que foi técnico do Bayern de Munique. O treinador estava preocupado com a repercussão negativa do caso e queria saber como o jogador estava se sentindo depois de dias turbulentos. Flick assegurou apoio a Kimmich, mesmo que ele não se vacine. Mas a posição do treinador não é unânime na seleção da Alemanha.

O médico da DFB (Federação Alemã de Futebol, que gere a seleção), Tim Meyer, faz campanha para que só seja adotada a regra “2G”, ou seja, só sejam aceitos na seleção os jogadores que tenham se vacinado ou que já tenham sido infectados e, portanto, já tenham algum nível de proteção contra o vírus.

É uma discussão também no país em relação aos estádios: a maioria exige a chamada regra 3G (“Geimpfte, Genesene, Getestete”, ou seja, vacinados, recuperados ou negativados em exame, em tradução livre). Alguns clubes, como o Colônia, adotam a regra 2G, ou seja, só vacinados e recuperados. O Borussia Dortmund e o Mainz usam uma regra intermediária: pessoas com testes negativos são aceitos, mas só para uma cota restrita de ingressos.

Na seleção alemã, por enquanto a regra segue sendo 3G, o que permitiria Kimmich jogar. Caso a ideia de uma restrição maior, com a mudança para 2G, de fato aconteça, Kimmich só poderia defender a seleção se tomasse a vacina. A discussão não deve parar por aí, até porque o vírus não irá sumir – ainda que a vacina já tenha tido grande efeito e tenha reduzido drasticamente infectados e também as transmissões. Veremos quais serão as cenas dos próximos capítulos.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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