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A final da LC é o maior sinal do legado da Copa de 2006

Estádios modernos, arquibancadas lotadas, força econômica, jogadores talentosos, seleção forte, clubes competitivos. Várias virtudes podem ser relacionadas ao futebol alemão atualmente. O sucesso de Bayern Munique e Borussia Dortmund nesta Liga dos Campeões repercute tanto quanto os bons desempenhos recentes da seleção. E é difícil não associar o ótimo momento vivido pelo país no esporte sem relacioná-lo com a realização da Copa do Mundo de 2006.

Como se espera de uma sede de Mundial, a Alemanha hoje usufrui o tão comentado legado. Em uma nação que não precisou de tantas obras em infraestrutura, os estádios construídos ou reformados foram muito bem utilizados, enquanto outros que nem receberam jogos da Copa acabaram modernizados. Mais importante que isso, foi o planejamento esportivo criado com a realização do evento e que surge como grande herança para os alemães.

O segredo está na base

O legado esportivo criado na Alemanha tem seu ponto de virada em 2000. A péssima campanha do Nationalelf na Eurocopa de 2000 provocou uma reflexão no país. A seleção não passou da primeira fase, derrotada por Inglaterra e Portugal, além de ter empatado com a Romênia. Um péssimo resultado para uma equipe que seria anfitriã da Copa do Mundo em seis anos e que precisava remodelar sua ideia de futebol.

“Foi imposto aos clubes terem centros de rendimento: professores de futebol, treinadores juvenis e melhores condições. Quem não tinha essa estrutura, não obtinha licença para disputar nem a primeira e nem a segunda divisão da Bundesliga”, explica Jürgen Klopp, técnico do Borussia Dortmund, em entrevista ao jornal El País.

Os exemplos vinham de outros países europeus. A academia de Clairefontaine, utilizada pela seleção francesa, bem como as categorias de base de clubes com excelência na formação, como o Ajax, o Barcelona e o Real Madrid. “Outros modelos nos inspiraram, mas sempre mantendo nossa personalidade”, aponta Uli Stielike, ex-jogador da seleção na década de 1980 e que ajudou a desenvolver o projeto ao visitar a cantera merengue.

O incentivo da DFB, a federação de futebol alemã, espalhou academias de futebol pelo território nacional. O investimento em programas infantis e escolas supervisadas pela entidade chegaram a € 1 bilhão no período. Atualmente, são 366 centros de treinamentos espalhados pelo país, com cerca de mil treinadores e 25 mil jovens envolvidos.

Götze, Reus e Kroos, jovens talentos que ganham espaço na seleção
Götze, Reus e Kroos, jovens talentos que ganham espaço na seleção

Como resultado direto do programa, uma geração de talentos passou a surgir na Alemanha durante os últimos anos. Entre as cinco grandes ligas europeias, a Bundesliga é a que tem a menor média de idade (24,8 anos) e só fica abaixo da Eredivisie entre as 15 mais valiosas do continente. As seleções de base também passaram a aproveitar esses talentos e chegaram ao ápice com os títulos nos Europeus Sub-21, Sub-19 e Sub-17 entre 2008 e 2009. Manuel Neuer, Mats Hummels, Jêróme Boateng, Marcel Schmelzer, Sven Bender e Mario Götze, todos envolvidos com a decisão da LC, participaram dessas conquistas.

Além de revelar prodígios, o programa instituído também serviu para que o futebol alemão mudasse seu estilo. Ao invés da força física e do jogo aéreo que tanto marcaram as maiores conquistas, os clubes e a seleção hoje primam pela técnica e pela objetividade, além de manterem a tradicional disciplina tática. “Fomos valentes ao colocar garotos de 20 anos em campo. As coisas mudaram tanto que agora nos falta jogo aéreo. Não temos muitos cabeceadores na seleção”, avalia Klopp.

Futebol atraente capaz de levar o Nationalelf a ótimas campanhas nas duas últimas Copas do Mundo e nas duas últimas Eurocopas, mas que não rendeu títulos até o momento. A coroação virá justamente na decisão da Champions, quando um alemão levantará a primeira taça que legitima esse processo – seja ele Bayern ou Dortmund, ambos com modelos diferentes, mas fortíssimos na base.

A roda da fortuna alemã

A mobilização popular gerada pela Copa do Mundo de 2006 também criou um ciclo benéfico dentro do futebol alemão. Estádios modernos e futebol atraente passaram a levar mais torcedores às arquibancadas. O público passou a reverter mais dinheiro aos clubes. E o , que não permite gastos estratosféricos e mantém o poder nas mãos dos sócios, acaba alimentando investimentos justamente nessa estrutura.

Dois novos estádios foram construídos às vésperas do Mundial (Allianz Arena e Veltins Arena), oito foram reformados especialmente para o torneio e outros dois tinham passado por modernizações recentes, na década de 1990. Além disso, as arenas de Mönchengladbach e Düsseldorf foram construídas antes da competição, enquanto a de Bremen passou por obras profundas, mas nenhuma delas três entrou na seleção final para a Copa.

Ao todo, 15 estádios de primeiro nível espalhados pelo país, que reverteram no . A média ultrapassou 40 mil espectadores por jogo pela primeira vez em 2005/06, um aumento de 32% em relação a cinco anos antes e de 90% quando comparado com 1990/91. Nas últimas cinco temporadas, o número se estabilizou acima de 42 mil torcedores. Em 2012/13, 92,5% das arquibancadas foram ocupadas.

Bundesliga

Maior público, diretamente, significa maiores bilheterias. Entretanto, a política alemã de manter o acesso do público em geral aos estádios, com ingressos a baixo custo, não torna este dinheiro o mais importante nas finanças dos clubes. Em compensação, estádios cheios geram maior visibilidade comercial, contratos de patrocínio mais pomposos e direitos de transmissão de TV mais altos. Assim, os times conseguem firmar grande parte de suas receitas e mantêm a roda girando.

O exemplo alemão e a realidade brasileira

Diante da situação atual, é difícil imaginar uma crise capaz de derrubar o vigor do futebol alemão. Os desempenhos de clubes e seleção podem não se manter em patamar tão alto daqui a um tempo, mas o projeto de renovação de jogadores deixa a situação menos suscetível. Além disso, estádios cheios e planejamento sustentável acabam permitindo o investimento necessário para a manutenção da estrutura.

Enquanto isso, o Brasil ainda discute qual será o legado da Copa do Mundo de 2014. Os ingressos caríssimos, os elefantes brancos construídos para o evento e os problemas administrativos da maioria dos clubes tornam uma mudança de patamar mais distante. O que parece utopia no Brasil, é realidade na Alemanha desde 2006.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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