‘Meu país não me defendeu’: Nicolas Pépé denuncia racismo e omissão de federação
Após onda de ataques nas redes e pedido de desculpas feito sob pressão, atacante afirma que foi abandonado pela federação nacional
A relação entre Nicolas Pépé e Federação Marfinense de Futebol atravessa momento delicado. Fora da convocação da Costa do Marfim para a última edição da Copa Africana de Nações por motivos extradesportivos, o atacante do Villarreal rompeu o silêncio e fez duras críticas à postura da entidade diante da onda de ataques que afirma ter sofrido.
Em entrevista ao jornalista costa-marfinense Malick Traoré, o jogador falou abertamente sobre racismo, pressão institucional e o sentimento de abandono. A exclusão da lista final para a CAN foi consequência de uma controvérsia iniciada meses antes, quando Pépé participou de um vídeo no YouTube, no canal do influenciador Just Riadh.
No conteúdo, o atacante fez comentários em tom humorístico sobre Marrocos e o longo período sem conquistas do país na competição continental. A repercussão foi imediata — e pesada. Ainda assim, ele não demonstra qualquer arrependimento.
— Pedi as imagens, quando vi o vídeo, dei a minha aprovação. Foi sem arrependimento, porque era a minha pessoa, gostei porque me revi. Era 100% eu. Era o que queria partilhar com as pessoas. Era a minha pessoa, se tivesse que fazer de novo, faria sem hesitar.
Racismo, pressão e abandono: Pepé revela mágoa com Federação Marfinense

Se a polêmica já era grande no campo esportivo, ela ganhou contornos ainda mais graves fora dele. Segundo o atacante, as declarações desencadearam uma onda de insultos racistas que se prolongou muito além do que ele imaginava.
— Pensei: “amanhã acaba”. Mas, no final, durou, tomou proporções e entrou no extremo.
O episódio culminou em um pedido público de desculpas, feito após pressão do presidente da Federação Marfinense. A retratação, no entanto, não partiu de um convencimento pessoal.
— Para dizer a verdade, fiz (o pedido de desculpas) a contragosto. Porque recebo insultos e tenho de pedir desculpa?
Formado na França e com passagens por clubes como Angers, Lille, Nice e Arsenal, Pépé não poupou palavras ao descrever o que chamou de “tripla penalização”.
— Sofro insultos racistas, não vou à CAN e a federação não me defende. A LaLiga te defende, as pessoas te defendem, mas o teu país não. O comunicado chegou muito tarde, o mal já estava feito. Teria preferido que o tivessem feito antes. É como se te esmagassem e depois te esmagassem ainda mais com essa mensagem tardia — desabafou.
Sem o atacante, a Costa do Marfim acabou eliminada nas quartas de final da CAN, ao ser superada pelo Egito por 3 a 2. Enquanto a seleção caía no torneio continental, Pépé seguia atuando pelo Villarreal na LaLiga, somando minutos e tentando manter o foco no clube em meio à turbulência institucional.
O caso escancara um debate que vai além do desempenho dentro de campo: qual é o papel das federações na proteção de seus atletas diante de ataques racistas? Para Pépé, a resposta, ao menos dessa vez, ficou muito aquém do esperado.



