A Conmebol tenta impor à Copa Libertadores uma “mudança cultural” bastante forçada nos últimos anos. Ninguém nega que há muito a se melhorar no futebol por essas bandas e que existe, sim, potencial econômico para que o torneio cresça. Porém, isso não significa ignorar as verdadeiras virtudes e a cultura fundamental ao redor da competição, sobretudo as celebrações nas arquibancadas. E se torna um tanto quanto saboroso ver uma festa legítima como a protagonizada pelo Cerro Porteño nesta quinta-feira. Empurrados por 45 mil vozes, os azulgranas mandaram as proibições às favas e proporcionaram uma noite apoteótica como se espera na Libertadores. Entre fogos de artifício e trapos coloridos, os paraguaios saíram vitoriosos mesmo com a eliminação diante do River Plate.

Há alguns simbolismos na ocasião. O principal deles é a importância da partida ao próprio estádio, a Olla Azulgrana. A casa do Cerro Porteño foi completamente renovada e expandida em 2017. Virou o maior estádio do Paraguai, e sem precisar se submeter à arenização tão costumeira nesta década. Estádio com cara de estádio, a Olla se enche com frequência nos jogos do Ciclón. E, afinal, o duelo contra o River Plate era a maior ocasião desde a reinauguração. Não é sempre que se disputa as quartas de final da Libertadores e os azulgranas estavam distantes deste estágio desde 2010. Nada mais natural que uma festa tão explosiva, que desconsiderasse os caprichos da Conmebol.

Além do mais, a celebração do clube e do futebol parece mesmo um recado da torcida do Cerro Porteño. Meio por acaso, a Olla Azulgrana também será palco de uma final continental neste ano, após a remarcação da decisão da Copa Sul-Americana de Lima para Assunção. Deve rolar uma invasão massiva, especialmente pela possibilidade de Atlético Mineiro e Corinthians estarem lá, ou mesmo o Colón e sua caravana em outros países. Em termos de festa genuína e legítima, o Ciclón deu o exemplo do que espera ver dos visitantes em seu estádio. Difícil será reproduzir, quando a tendência que boa parte dos ingressos nesta final seja abocanhada por patrocinadores.

A própria diretoria do Cerro Porteño, além do mais, comprou a briga da torcida e se disponibilizou a pagar a multa relativa aos fogos de artifício e outros itens proibidos pela Conmebol. Não é a primeira vez que faz isso neste mês, aliás. “Filha” da entidade continental, a federação paraguaia começou a impor restrições similares aos clubes do país, principalmente quanto à pirotecnia. No entanto, o Ciclón ignorou o regulamento e também organizou uma festa completa durante o clássico contra o Olimpia há duas semanas – o primeiro realizado na Olla desde a reforma do estádio.

E o mais legal é que os torcedores do Cerro Porteño deixaram muito claro que não estavam lá pelo resultado. Obviamente, existia uma missão a se cumprir e ainda acreditava-se em uma virada contra o River Plate, após a derrota por 2 a 0 em Buenos Aires. A explosão depois que Nelson Haedo Valdez abriu o placar deixa bem claro esse sentimento. Entretanto, se a remontada não veio e o empate por 1 a 1 eliminou os azulgranas, também não teve problema. Após o apito final, as arquibancadas permaneceram em chamas, com uma torcida disposta a celebrar seu orgulho e seu amor pela camisa. Essa é a verdadeira cultura do futebol sul-americano, algo que a Conmebol tenta renegar, mas sempre será a maior riqueza da Libertadores.