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Zamorano: “Chile não pode relaxar”

 Um dos maiores ídolos do futebol chileno nos últimos tempos, Iván Zamorano é um tipo que se sente totalmente à vontade manejando seus conceitos sobre futebol. Com observações bastante lúcidas e atualizadas, o ex-atacante da seleção do Chile arranjou espaço em sua ocupada agenda e bateu um papo conosco por telefone (em pleno horário de almoço!). “Bam-Bam” falou tudo o que pensa sobre a campanha do time dirigido por Marcelo Bielsa nas eliminatórias sul-americanas e como “La Roja” deve se comportar nessas rodadas finais. Além disso, “El terrible” comentou sobre Ronaldo, Salas, e as diferenças para um atacante triunfar em cenários de mentalidades diferentes como Espanha e Itália. De quebra, confirmou que foi mesmo procurado por clubes brasileiros na reta final de sua carreira. “O Flamengo me ligava todo ano” disse.

O Chile atravessa o melhor momento em eliminatórias desde a última década quando sua geração foi ao Mundial da França em 98. Como “La Roja” deve se comportar nas últimas rodadas?
Além de conseguir os pontos necessários para a classificação, devem pensar que ainda temos jogos decisivos pela frente contra Brasil, Colômbia e Equador e que eles também darão tudo. Penso que o importante é não baixar o nível e manter a concentração e ambição intactas.

Como avalia o trabalho do técnico Marcelo Bielsa, ex-Argentina, a frente da seleção do Chile?
Ele nos fez viver novamente um momento futebolístico notável e seu compromisso com o nosso país nos faz ilusionarmos em disputar mais uma Copa do Mundo. Impressiona-me como ele conseguiu fazer com que os jogadores se engajassem rapidamente na sua filosofia. Tanto Bielsa quanto os jogadores estão dando 100% e depois de alguns anos em baixa voltamos a aspirar grandes objetivos.

Quando o Ronaldo chegou a Internazionale, você não quis abrir mão da camisa 9 e nas temporadas seguintes você utilizou a camisa 1+8, que muitos julgaram falta de companheirismo. Além disso, o lateral-esquerdo Gilberto voltou para o Brasil falando mal de você e do Simeone…
(Interrompendo) Ter jogado com Ronaldo foi uma oportunidade maravilhosa, pois foi um dos maiores jogadores dos últimos tempos e uma pessoa extraordinária fora de campo. Estou contente pelo bom momento dele no Corinthians e a lição que novamente ele está dando. Ronaldo sempre foi assim; quando se lesionava todos diziam que tinha que parar, não valia mais nada etc e ele voltava e surpreendia a todos. Por isso tudo é uma alegria imensa ainda vê-lo jogando..

Eram muito correntes os rumores de que equipes do futebol brasileiro estavam interessadas em você no inicio desta década. Verdade ou mentira?
Sim, nos últimos anos da minha carreira os clubes brasileiros sempre entravam em contato. O Flamengo, por exemplo, todo ano falava comigo, e o Corinthians chegou a fazer uma oferta oficial, mas acabei optando pelo América, do México. Teria sido uma experiência muito interessante jogar no Brasil, onde o futebol é fascinante e se joga com alegria.

Quem te encantou mais: Ronaldo ou Romário?
São dois dos maiores atacantes e que já marcaram seus nomes na história. Joguei com Ronaldo na Internazionale e era impressionante sua capacidade de fazer a diferença nas partidas. Romário foi meu adversário na Espanha (o ‘baixinho’ no Barcelona e ‘Bam-Bam’ no Real Madrid), era um craque. Como são dois gênios, não é possível considerar um superior ao outro, seria como tentar achar o melhor entre Batistuta e Crespo ou entre Salas e Zamorano.

Depois de passar 15 anos longe, quando voltou ao futebol chileno para encerrar a carreira no Colo Colo em 2003, quais as mudanças que mais chamaram sua atenção?
Estava mais profissional e com campeonatos mais sólidos. Já éramos mais respeitados como nação futebolística e o povo já tinha uma confiança muito maior no futebol chileno. Agora com a chegada de Marcelo Bielsa foi excelente para progredirmos ainda mais e termos perspectivas maiores. Acredito que nesse momento, além da classificação para um Mundial, ganhar uma Copa América seria fundamental para nós…

Você foi artilheiro da Liga Espanhola, mas teve uma média de gols modesta na Internazionale apesar dos quatro anos e meio em Milão. É mais difícil para um atacante triunfar na Itália?
(incisivo) Marcar gols é difícil no mundo inteiro. A Itália é especialmente citada quando o assunto é identificar um país onde é difícil marcar muitos gols porque lá se joga para não perder. Na Espanha se tem outra filosofia, se joga para ganhar, tem mais gols, e o povo exige mais espetáculo. Mas a dificuldade é a mesma na Espanha, no México e em qualquer outro lugar.

Ainda mantém contato freqüente com seus ex-companheiros de Real Madrid e Inter?
Ainda falo com alguns deles, já outros eu nunca mais vi, mas sei que ainda existe respeito, admiração…

Quais foram os defensores mais difíceis que enfrentou ao longo da sua carreira?
Oscar Ruggeri quando atuava pela Argentina era uma luta constante para superá-lo. Alkorta, antes de ser meu companheiro no Real Madrid, quando estava no Athletic Bilbao sempre me castigava também. O Materazzi quando ainda estava no Perugia já era extremamente difícil em qualquer lance. Citaria também o Júnior Baiano pela sua qualidade na saída de jogo e sua altura, era um defensor bastante temido…

O técnico Marcello Lippi é – ao lado de Fabio Capello – o treinador mais vitorioso do futebol italiano nas últimas duas décadas, mas sua carreira foi manchada pela passagem pífia pela Internazionale em 99/2000. Qual é o perfil dele e porquê Lippi fracassou em Milão?
Lippi trabalha muito a parte tática, tem muito caráter e quer ganhar sempre. Ele é um tipo ‘taticista’ e para mim futebol é bem mais do que isso, minha relação com ele não foi boa e a Internazionale teve um péssimo ano com ele.

Como foi o jogo de despedida do Marcelo Salas?
Uma festa muito linda, eu já tinha vivido algo semelhante quando parei. Agora começa uma nova etapa na vida dele e tenho certeza que terá sucesso porque é uma pessoa vencedora e que persevera no que planeja.

Falava-se muito na dupla “Za-Sa” (Zamorano e Salas). Marcelo Salas foi mesmo o melhor parceiro de ataque que você teve?
Salas e Ronaldo são dois atacantes com os quais pude fazer duplas mais letais. São dois monstros do futebol que estarão sempre no meu coração, mas para um atacante de área cuja função é marcar gols e decidir jogos, ter um companheiro que dê assistências como era Michael Laudrup no Real Madrid é fundamental. Aquele ano em que ganhamos o título espanhol e eu fui o artilheiro (1994/95) foi o melhor da minha carreira. Se tivesse de escolher, digo que Laudrup foi o ideal.

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Equipe Trivela

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