Willian: “Temos que manter nosso padrão de jogo”

O Shakhtar Donetsk pagou por ele US$ 20 milhões em 2007. Na época, um meia de apenas 18 anos, que havia conquistado a titularidade do Corinthians há pouco tempo e feito um Sul-Americana sub-17 muito bom com a Seleção Brasileira. Hoje, Willian é o dono da camisa 10 do clube – algo conquistado nesta temporada, já que até então usava a 22 – e um dos destaques da equipe que fez bela campanha na Liga dos Campeões e conquistou o bicampeonato ucraniano sem muitas dificuldades.
Ao todo, o meia brasileiro já disputou 160 partidas pelo Shakhtar e marcou 24 gols. Willian se diz completamente adaptado à vida em Donetsk. Além disso, nesta entrevista concedida à Trivela, é só elogios ao presidente do clube, Rinat Akhmetov, – “trata a todos como filhos” – e o técnico Mircea Lucescu – “cobra muito no dia a dia”.
Willian também falou sobre a provável chegada de um ex-companheiro do Parque São Jorge: Dentinho. E garantiu que “aprovou” a contratação do amigo, mais um brasileiro para o ofensivo time ucraniano.
Esta foi sua melhor temporada pelo Shakhtar?
Acho que sim. Por tantas coisas que conquistei, mais um título, o time foi bem na Champions. Vi muita coisa na internet também sobre clubes interessados no meu futebol. Dentro de campo as coisas deram certo, fiz alguns gols, consegui um número maior nas assistências. Foi uma temporada boa.
Como é o relacionamento dos jogadores com o presidente, Rinat Akhmetov?
Ele aparece nos treinos, vai ver como os jogadores estão, trata a todos os jogadores como filhos dele mesmo. Nós, claro, procuramos retribuir dentro de campo. Tudo que ele puder fazer para melhorar o clube ele vai fazer. Apesar de tudo que tem, é uma pessoa muito humilde. Nunca conversei muito com ele, mas sempre pergunto como ele está, ele pergunta como estou. Sempre nos cumprimentamos.
E como os brasileiros se relacionam com Mircea Lucescu?
Ele cobra muito no dia a dia nos treinamentos, procura nos ajudar. Ele fala um pouco de português, mas é mais no portunhol mesmo. Ele gosta muito dos brasileiros.
Por que a diferença para o Dynamo Kiev nesta temporada foi tão grande? Em momento algum o título do Shakhtar esteve ameaçado, apesar da recente derrota por 3 a 0.
O Dynamo também tem uma grande equipe, com grandes jogadores, mas nós aproveitamos melhor os nossos jogos. O Dynamo teve um início de campeonato muito ruim, perdeu algumas partidas. Nós sempre mantivemos a regularidade.
Metalist e Dnipro passaram a investir muito em reforços nos últimos meses. Acha que os clubes terão condições de lutar com Shakhtar e Dynamo na próxima temporada pelo título?
Podem sim. As duas equipe estão crescendo a cada ano, e no ano que vem certamente estarão ainda melhores e vão trazer mais jogadores. O campeonato vai ficar ainda mais difícil, mas temos que procurar manter nosso padrão de jogo para seguir vencendo.
E como é enfrentá-los no Campeonato Ucraniano? Ficam sempre fechados? E nos clássicos com o Dynamo, o Shakhtar também é o time que ataca?
Alguns jogos eles vieram fechados, sim. O Dynamo, por exemplo, mesmpo jogando em casa atuou bem fechado, só nos contra-ataques. Venceram em três erros nossos. O primeiro, na verdade, foi um erro do árbitro que marcou um pênalti inexistente. Depois foram duas falhas individuais da nossa defesa. Mas temos muita qualidade do meio para frente, por isso os adversários se defendem mais. [Dynamo Kiev 3×0 Shakhtar Donetsk, pela 27a rodada]
E como foi a perda da invencibilidade na Donbass Arena? Afinal, o Shakhtar estava invicto em casa há quase dois anos: foram 34 jogos no novo estádio até a derrota, entre setembro de 2009 e abril de 2011 – 1×0 para o Obolon Kiev, pela 24a rodada do Ucraniano. A partida foi bem no meio dos confrontos com o Barcelona pela Liga dos Campeões.
Eu estava suspenso, mas o Lucescu poupou alguns jogadores por causa do segundo jogo com o Barcelona. Criamos algumas situações, mas foi um jogo morno, não pressionamos tanto o adversário como sempre fazemos. Claro que ficamos tristes, mas nenhum time é imbatível. Depois da partida o treinador conversou bastante com a gente, explicou que isso faz parte do futebol.
Olhando para trás, acha que o Shakhtar deveria ter entrado com outra postura contra o Barcelona pela Liga dos Campeões?
Acho que não. Jogamos bem, da maneira certa, mas é difícil entrar no Camp Nou lotado para enfrentar o Barcelona. O Lucescu conversou muito com a gente antes do jogo que era importante suportar a pressão deles nos primeiros 10, 15 minutos. O que não podia era termos levado um gol com dois minutos de jogo, isso quebra o esquema de qualquer equipe. Mas depois tivemos algumas chances com o Luiz Adriano, e se ele faz pelo menos uma delas a história da partida seria outra. Em jogos assim não podemos dar mole. É difícil achar alguma chance contra o Barcelona, e é preciso aproveitá-las. Mas acho que o time foi bem.
E a decisão da Copa da Ucrânia? O time já está focado na decisão com o Dynamo?
Desde quando conquistamos o título. Claro que não podemos menosprezar os adversários restantes no Campeonato Ucraniano, mas estamos de olho na Copa agora. É um jogo muito importante, e temos que reverter a derrota de 3 a 0, mostrar que não foi nada daquilo que ficou parecendo. São duas equipes com muita qualidade, acho que não há um favorito.
Você deixou o Corinthians com apenas 18 anos e levou um tempo para se adaptar ao país. Acha que saiu muito cedo do Brasil ou isso foi até bom para você? Ou seja, amadureceu como jogador já na Europa.
Foi bom para mim. Muitas pessoas falam que saí cedo, que fui para o lugar errado, mas não me arrependo de nada. Estou muito feliz, amadureci como pessoa e como jogador também, além de ter aprendido e vivido uma nova cultura.
Seu contrato vai até a metade de 2014. O que você sonha para seu futuro?
Estou bem feliz aqui, tenho um carinho muito grande pelo clube, mas todo jogador tem objetivos na carreira. Venci muitos títulos aqui, e quero ainda disputar um campeonato com mais visibilidade, em um grande clube. Claro que quando o Shakhtar está na Champions tem bastante visibilidade, mas com o campeonato daqui é complicado. Sonho em vestir a camisa da Seleção Brasileira.
O Dentinho está próximo de ser contratado pelo Shakhtar. Você conversou com ele? Sabe sobre o negócio?
Falei sim. Antes de sair a notícia, o presidente e o treinador vieram falar comigo, perguntaram se eu o conhecia. Disse que tinha jogado com o Dentinho, que tinha muitta qualidade e ia nos ajudar muito. Na semana seguinte saíram as notícias sobre a transferência. Falei com ele também, ele perguntou se estava frio aqui. Disse que vou ajudá-lo na adaptação, assim como os outros brasileiros me ajudaram.
Muita gente acha que aí faz frio o ano inteiro.
Frio mesmo é entre dezembro e fevereiro. A partir de março já começa a melhorar. No verão faz muito calor, tanto que nossos treinos acontecem às 19h porque à tarde faz 40o C às vezes.
A diretoria do Shakhtar admite que investe em estrangeiros para as posições de ataque e em ucranianos para a defesa. Isso gera algum mal estar entre os jogadores? Há ciúme dos ucranianos?
Não, não, o pessoal é bem tranquilo, não tem ciúmes no grupo. Nos treinamentos os ucranianos brincam bastante com a gente, e nós com eles.
E como vocês fazem para lidar com o idioma?
Aprendemos no dia a dia, mas aqui se fala mais o russo. Aprendemos nas ruas, nos treinamentos, nos viramos. Estou há quatro anos aqui, é um idioma bem difícil, mas já consigo me virar, aprendi alguma coisa.
Como está o clima no país para a disputa da Euro 2012? E a seleção ucraniana?
O país está se movimentando, reformando ruas, aeroportos, as pessoas estão se preocupando com a Euro, que é algo inédito no país. A seleção tem alguns jogadores de qualidade, claro que é muito difícil, mas por jgoar em casa com o apoio da torcida isso pode ajudar bastante.
Para finalizar: há algum estádio no Brasil que se pareça à Donbass Arena?
Não, nenhum (risos). É bonito demais, quem chega na cidade e vê pela primeira vez até se assusta.


