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“Voltar ao Brasil? Agora não”

Araújo tem um cartaz como poucos têm no futebol asiático. Vivendo grande momento com a camisa do Al-Gharafa, quebrou o recorde de gols do campeonato do Qatar, então pertencente ao argentino Gabriel Batistuta. Não bastasse isso, já havia feito história no Gamba Osaka, conquistando título nacional e sendo artilheiro e melhor jogador da competição. Recebeu, aliás, prêmio da IFFHS (Federação de História e Estatísticas do Futebol), como o mais efeito artilheiro do planeta em 2005.

No Brasil, porém, Araújo é apenas mais um. Talvez por ter ficado muito tempo no Goiás, onde é o maior artilheiro de toda a história do clube. Talvez, também, por ter passado de forma muito rápida pelo Cruzeiro, de onde saiu em meados de 2007. Assediado pelo Fluminense, não deve, porém, deixar o Qatar, onde é ídolo. Possivelmente, ficará para a história como um daqueles que fez história no exterior, mas que fizeram pouco em seu próprio país.

Como tem sido sua passagem pelo futebol no Qatar?

Tem sido realmente muito boa. Consegui me adaptar aos costumes e ao futebol do país com facilidade. O Al-Gharafa foi um clube que investiu muito em contratações e a maioria do grupo atual é formada por jogadores que fazem parte das seleções de seus países. O futebol no Qatar está crescendo muito. Tenho mais um ano de contrato e espero ajudar ainda mais meu clube atual.

Qual foi a repercussão de seu novo recorde aí no país?

A repercussão não poderia ter sido melhor. Esse era um recorde que já existia desde a temporada 2002/03 e ninguém conseguia chegar perto. Quando eu estava me aproximando, meus companheiros passaram a me ajudar e a fazer jogadas para que eu pudesse fazer gols. No fim, consegui fazer 27 gols, dois a mais do que o recorde do Batistuta. Há pouco tempo, ganhei do xeque uma roupa árabe de presente e resolvi experimentar no clube. Foi uma festa e todos os jogadores queriam tirar fotos comigo. Foi divertido.

E a vida no Qatar, como é? Você mora com a família?

A vida é muito tranqüila e minha família está gostando. Sou uma pessoa que consigo me adaptar facilmente às mudanças e, nos primeiros meses, fiquei mais em casa. Mas agora vou ao shopping, praia e restaurantes. A religião predominante é a islâmica, mas eles são liberais com estrangeiros. Por isso, não temos problemas. Gosto muito daqui, pois tenho tudo o que preciso. Existem também vários hotéis e spas que são muito bons, principalmente para minha esposa. A comida tem um tempero que parece com o nordestino, do qual estou acostumado. O calor é muito forte e a temperatura chega acima de 40 graus em algumas épocas.

No início, era complicado andar na rua à tarde depois do treino. Não entendia a língua e os árabes falam muito rápido, mas o inglês é a segunda língua do país e estou fazendo aula com um professor particular. Já consigo me virar sozinho. Com a dificuldade do idioma, assim que cheguei, um funcionário brasileiro do xeque me ajudou muito.

Os salários estão todos em dia? Houve algum problema com relação a isso?

Não tive problemas em relação a isso no Qatar

A temporada está se encerrando por aí. Você quer voltar pro Brasil ou pensa em seguir fora?

Tenho um contrato até o ano que vem com o Al-Gharafa, a multa é bem alta e acredito que eles dificultariam minha saída ao máximo. Principalmente porque fomos campeões nacionais e atingi um dos meus objetivos, que era a artilharia.

Você recebeu proposta do Fluminense?

Para mim, não chegou nenhuma proposta oficial, até porque eu tenho contrato em vigor. Fizeram apenas uma sondagem e telefonaram para meu sogro, José Alberto, que é meu procurador. Fiquei muito feliz e orgulhoso ao saber que o Fluminense mostrou interesse na minha contratação. Isso é sinal de que venho fazendo um bom trabalho no Qatar. Tive algumas propostas sim, principalmente do futebol japonês e de outros times dos Emirados Árabes e do Kuwait.

Qual passagem foi mais interessante: Gamba Osaka ou Al Gharafa?

É difícil dizer qual foi melhor. Fui muito feliz no Japão também. Os japoneses me trataram com muito carinho e também não tive dificuldades para me adaptar.

Como é ser ídolo em três clubes diferentes – Goiás, Al Gharafa e Gamba Osaka -, mas não ter um nome muito forte nacionalmente falando?

Acho normal não ter tanta exposição no meu pais, porque fiz mais sucesso no exterior. E no Brasil, o jogador fica mais em evidência quando atua no eixo Rio-São Paulo, o que ainda não aconteceu comigo.

Você quis sair do Cruzeiro?

Fiquei com o coração apertado por deixar o Cruzeiro naquele momento. Desde que cheguei, sempre deixei claro que só negociaria a partir do momento que eles aceitassem os termos, pois alguns clubes japoneses já haviam feito sondagens. O Al-Gharafa fez a proposta e a negociação foi excelente, tanto para mim quanto para o clube. O Cruzeiro aceitou a proposta do Al-Gharafa e vendeu 50% dos meus direitos econômicos. Busquei informações sobre o clube no Qatar e aceitei o desafio.

Quais as principais diferenças entre o futebol do Qatar, do Japão e do Brasil?

A parte técnica de um jogador no Qatar é o principal diferencial dele, pois não existem muitos jogadores com habilidade no país. Com isso, as competições ficam bem disputadas. O ritmo de jogo é parecido com o brasileiro e tem uma certa cadência. Já o futebol japonês é muito rápido e, por isso, a força acabava sendo mais importante do que habilidade, diferentemente do que acontece no Brasil. No Japão, quando eu pegava na bola sempre tinha, pelo menos, dois marcadores em cima para marcar. O futebol brasileiro é mais cadenciado e os jogadores têm muita habilidade.

Segundo nosso colunista de Ásia, há um abismo muito grande entre Al-Sadd, Al Gharafa e os outros clubes. É assim mesmo?

O futebol no Qatar está crescendo, a liga local foi fundada há cerca de 34 anos, mas alguns clubes fazem um pouco mais de investimento do que os outros. A maioria dos estádios, por exemplo, são modernos. Mas o futebol ainda não é o primeiro esporte do país na preferência da torcida.

O Felipe foi jogar no Qatar e ficou de vez. Como ele é visto por aí?

Eles gostam e elogiam muito o futebol do Felipe. Ele é o principal jogador do Al Sadd, fez 12 gols nessa temporada e ajudou o seu time a ficar em segundo lugar na liga nacional. Ele está muito bem adaptado e, logo que cheguei ao Qatar, me ajudou na minha adaptação.

Como está o Autuori por aí?

Eu e Paulo moramos no mesmo prédio e nos encontramos de vez em quando. Paulo Autuori está muito bem, renovou o contrato recentemente por dois anos e os árabes comentaram que ele vai ficar responsável por todo o futebol do seu clube. Vai comandar o time na próxima temporada e também vai orientar os dirigentes em relação ao trabalho com as categorias de base, estrutura, tudo. Isso é importante porque o futebol do Qatar ainda está em desenvolvimento e pode crescer ainda mais. Sei também que ele está reforçando o time.É um treinador que conquistou muitos títulos importantes no Brasil e é muito respeitado aqui no Qatar.

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Equipe Trivela

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