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“Vamos entrar para ganhar!”

Com o inicio da AFC Cup 2008, o segundo torneio interclubes mais importante do continente asiático, a Trivela procurou o treinador inglês Steve Darby, do Perak FA, da Malásia. Os atuais vice-campeões malaios representarão o país junto com o campeão Kedah. Fazendo parte do Grupo E ao lado do Singapore Armed Forces (Cingapura), New Radiant (Ilhas Maldivas) e Kitshee SC (Hong Kong), o técnico de 53 anos (foto ao lado) avalia exclusivamente para nós o que pensa dos adversários. Além de ser sempre um prazer ouvir as histórias e experiências de ‘Sir’ Darby, um conversador fascinante! Confira!

Lá se vão três anos desde a sua última participação na AFC Cup, dirigindo o Home United, de Cingapura, em 2005. Qual o seu sentimento ao retornar a competição agora pelo Perak FA, da Malásia?
Eu estou adorando voltar a disputar a AFC Cup. É uma grande competição na Ásia, similar a Copa UEFA. Os clubes das grandes nações como Japão, Arábia Saudita e China disputam a Liga dos Campeões da Ásia e os dos países do segundo escalão a AFC Cup. Esse método de divisão torna essas ligas muito competitivas. Quando eu estava no Home United, de Cingapura, conseguimos chegar às semifinais, em 2004, e perdemos para um time muito bom da Síria (Al Jaish). Eles tinham muitos jogadores da seleção e o país (Síria) foi promovido para a Liga dos Campeões da Ásia. Foi uma grande experiência para os meus jovens jogadores cingapurianos, já que aquilo tudo ensinou a eles a realidade de se jogar em alto nivel. Nós tínhamos muitos problemas extra-campo e fomos duramente surrados em campo (pelo Al Jaish). A coisa boa é que a Direção que organiza a AFC Cup escutou nossas queixas e tem melhorado a competição todo ano. Está mais profissional. É um prazer participar de um torneio com alto nivel administrativo. Isso só nos ajuda.

Qual tipo de ambição tem o Perak FA na AFC Cup 2008?
Vencer! Você tem que acreditar no seu time e essa é uma ambição realista quando você nos compara com as nações que nós jogaremos contra na AFC Cup. Não será fácil, mas nós estaremos levando a sério o fato de estarmos representando uma nação (Malásia). Como técnico, eu amaria ver o futebol malaio na Liga dos Campeões da Ásia. É sempre melhor estar envolvido em competições ‘top’. Nós podemos colocar 30 mil torcedores do Perak FA no nosso estádio! Eu adoraria ver como os estrangeiros se comportariam vendo tal atmosfera em nosso estádio. Eu não tenho dúvidas que o Kedah tem a mesma ambição. Eles tem um time muito bom com um excelente técnico e produzem muitos jovens de qualidade. Eles fazem um grande trabalho para o futebol malaio com seus jogadores das categorias de base. Confesso que o Perak FA poderia aprender com eles.

Sobre os oponentes do Grupo E na AFC Cup, eu gostaria de saber sua visão. O Singapore Armed Forces talvez seja o adversário mais forte. É uma das equipes mais em forma no sudeste asiático. Como você pretende pará-los?
Eles são uma boa equipe, e desde que eu deixei Cingapura, eles tem vencido sempre. Tem um ótimo técnico, Richard Bok, e o clube corre em linhas muito profissionais. A eficiência da administração de Cingapura é uma coisa que muitos clubes da Malásia poderiam aprender e tentar rivalizar. Seria um grande negócio. Eles tem sido muito inteligentes ao usarem o sistema de cotas para estrangeiros ao máximo. Quando o estrangeiro demonstra ser diferenciado ele logo ganha a cidadania cingapuriana. Então, eles podem jogar com três estrangeiros e ainda ter, em campo, outros com cidadania cingapuriana. Neste caso inclui Duric (australiano), Wilkinson (inglês), Bennet (inglês), todos da seleção de Cingapura agora. O fato é que na S-League, eles precisam escalar no mínimo quatro cingapurianos. Dentro deste contexto, eu não tenho problema aqui na Malásia, pois só tenho três estrangeiros mesmo. Mas esse sistema é algo que não acontece na Malásia.

Eles são bicampeões nacionais e possuem ótimos meias como Wilkinson e Chaiman e um artilheiro como Duric, que vive um grande momento.
Você está certo sobre a qualidade dos jogadores. Eu tentei assinar com Therdsak Chaiman quando eu estava no Home United, mas infelizmente, depois de apertar as nossas mãos, ele assinou pelo Singapore Armed Forces. Frequentemente os jogadores reclamam sobre como os clubes tratam eles mal, mas, às vezes, o processo é inverso. Eu também tentei assinar com Wilkinson este ano. Entretanto, ele foi muito profissional, honesto e na verdade nós não poderíamos oferecer mais do que ele ganha em Cingapura. É a realidade do futebol, sem problemas. Duric é um monstro fisicamente. Ele jogava na Austrália, em 95, quando eu trabalhava lá. Temos que dar crédito para a atitude profissional dele por ainda estar jogando aos 37 anos. O bom é que eu poderei observá-los melhor antes de jogar contra eles, pois receberei um DVD com partidas deles.

Parece que eles não mandarão seus jogos no Estádio deles, o Choa Chu Kang, não é?
Nós jogaremos contra eles no Jalan Besar Stadium, um campo de grama sintética já que a AFC (Confederação Asiática de Futebol) divulgou que os refletores do estádio deles não são fortes o suficiente. Eu sei que eles não ficaram felizes com a escolha, assim como os jogadores não gostam de jogar nesse tipo de gramado.

O outro oponente é o New Radiant, das Ilhas Maldivas. O técnico deles, o alemão Gerd Horst, é conhecido por trabalhar muito a parte física, mas o histórico da AFC Cup mostra que os clubes das Ilhas Maldivas sempre fazem papelão. Mesmo assim, existe algo que o senhor teme?
Primeiramente é muito difícil informações sobre os times das Ilhas Maldivas. Mas a internet tem ajudado. Eles usam suas vantagens ao máximo. Eles marcam seus jogos para as 4 horas da tarde quando a temperatura está, em média, 34 graus, mesmo tendo refletores. Entretanto, eles tem também alguns bons jogadores. A seleção deles conseguiu empatar em 0 a 0 com a Coréia do Sul alguns anos atrás. Existe um grande jogador chamado Ashfaq, que despertou interesse do Benfica. Atualmente ele está jogando no DPMM, time de Brunei que joga a Super League malaia. É difícil avaliar os times já que os jogadores mudam de equipes frequentemente. Então, a equipe que conseguiu vaga para a AFC Cup pode não ser a mesma que irá competir. Eles podem estar pior ou melhor. Então, a coisa mais inteligente é tratá-los com o máximo de respeito.

Para finalizar a análise dos adversários do Perak FA, o Kitshee SC, de Hong Kong, possui vários africanos e um jovem treinador sérvio com muita ambição para progredir na carreira, Dejan Antonic. O que o senhor espera deles?
O Kitshee é a equipe mais fácil para conseguir informações. Eu tenho muitos contatos em Hong Kong que reportam as coisas para mim ou me enviam DVDs. Nossa vantagem é que os times de Hong Kong deixaram entrar um grande número de estrangeiros na sua liga. Então, quando eles vem para AFC Cup precisam respeitar as cotas e trazer seus jogadores locais que não jogam regularmente na liga nacional deles. O estádio de Mong Kok pode também ser um fator. Quando eu joguei uma partida de veteranos lá, era um gramado horrível. Eu espero que quando formos jogar lá, seja no Estádio Nacional, que é fora-de-série!

Os clubes jordanianos estão construindo uma hegemonia enorme na AFC Cup. Não acha que isso tira o charme da competição?
Bem, você não pode culpá-los por vencer. Talvez seja tempo para promovê-los a Liga dos Campeões da Ásia devido o sucesso deles na AFC Cup. Apenas times do mesmo país vencendo determinada competição não é bom para um torneio. A Liga dos Campeões da Ásia tem, no mínimo, quatro nações que podem vencê-la. As equipes do Sudeste Asiático tem habilidade e potencial para jogar e ganhar, o problema é a administração que, às vezes, dificulta. O melhor exemplo é o teto salarial em Cingapura, onde não poderiam ter limitado as equipes em uma temporada muito movimentada. O Home United poderia ter sido uma potencia no Sudeste Asiático, mas estava impedido pelo teto salarial que eles ‘amarravam’ rigidamente por ser uma equipe da policia.

Como desbancar os times do Oriente Médio na AFC Cup?
O Home United teve sucesso contra times do Líbano. Entretanto, o principal objetivo é marcar cedo contra eles. Aumentar a pressão em cima deles e a pressão pode vir dos torcedores ou dentro do próprio time. Parece haver uma tendência para brigas entre eles mesmos quando as coisas não vão bem. Mas existem alguns jogadores no Oriente Médio que deveriam estar na Europa dada suas qualidades.

Ano passado o Perak tinha um atacante diferenciado para os padrões locais, o africano Keita Mandjou. Ele fazia uma fantástica dupla com Khalid Jamlus. Esse ano o senhor conta com o chileno Carlos Cáceres que está muito bem. Acha que ele é capaz de ser protagonista na AFC Cup 2008?
Quando eu estava no Home United e nós jogamos contra o Perak FA na AFC Cup 2005, Keita Mandjou não era um problema naquela época. Ahmad Sharul causou mais problemas. Keita não está mais conosco porque nós não conseguimos um acordo financeiro. Ele está parado na África há 7 meses. Por isso, eu tenho a filosofia de não procurar o que você não pode controlar. Aqui ninguém pensa mais nele. Cáceres é um jogador muito diferente de Keita. Tecnicamente ele é muito bom, mas ele não tem o ritmo de Keita. Então, com Cáceres e Khalid Jamlus no ataque, nós trabalhamos com eles deixando-os próximos a área e dando assistência para eles resolverem. Você precisa adaptar a equipe taticamente as qualidades dos jogadores que você tem. Khalid e Cáceres marcaram 25 gols até agora e apreciam muito jogar um com o outro. Ambos são inteligentes e criam espaços para outros aparecerem de trás

Khalid Jamlus é um ‘bad boy’ como muitos outros na região como Alam Shah e Ahmed Latiff?
A imagem pública de Khalid criada pela imprensa malaia está longe da sua verdadeira pessoa. O fato é que fora de campo ele é um tanto tímido. Ele tem 31 anos e marcou 34 gols nos últimos 18 meses pelo Perak FA. Isso após marcar somente 6 gols em dois anos pelo Selangor. Trato todos os meus jogadores como homens e, geralmente, eles me respondem como homens. Se você bancar o idiota terá problemas. Trate primeiro como pessoas e depois como futebolistas e seus problemas acabam. Eu desejaria ter trabalhado com ele mais cedo. Ele tem uma presença natural para estar no lugar certo e na hora exata e é tecnicamente soberbo. Se ele tivesse mais ritmo teria condições de atuar na Europa. Ele também quer aprender, melhorar e nós passamos muitas horas fazendo praticas de finalizações com ele. Você tem que aceitar que se ele não tem tanta movimentação, você tem que entregar a bola para ele na área. Ele tem uma grande habilidade para finalizar.

Uma das grandes estrelas do futebol no sudeste da Ásia, o atacante Alam Shah foi suspenso por um ano em Cingapura e acabou acertando com o DPMM FA, um time pouco expressivo da Malásia. Porque os principais clubes como Selangor, Kedah e o próprio Perak FA não demonstraram interesse?
A razão de nós não termos assinado com Alam Shah foi que nossa cota já tinha estourado com três estrangeiros no plantel. Não foi por razões futebolísticas. Nós não poderíamos nos dar o luxo de dispensar um estrangeiro e eticamente fizemos a coisa certa. O Perak assinou com os três estrangeiros e firmaremos com eles até o fim. Eu sei que alguns times malaios tem até 8 estrangeiros, mas para mim isso é má gestão econômica (já que apenas 3 podem jogar) e uma pobre política de contratações. Acredito que os outros também não assinaram com ele por esse motivo.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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