Uma história africana
Não importa a nacionalidade, as culturas de todas as torcidas se confundem em nome da vitória. Nos cinco continentes, elas só querem que seus times repitam o Barcelona, o Internacional ou o Al Ahly, campeões nos seus continentes nas últimas temporadas.
Muito se sabe da Liga dos Campeões da UEFA e da Taça Libertadores, mas quando chegou a hora do Mundial Interclubes da FIFA, a curiosidade era grande sobre como lá chegaram os times da África, Ásia, Oceania e América do Norte e Central.
Neste especial, vamos falar da Liga dos Campeões da África, competição surgida em 1965 sob os auspícios da CAF (Confederação Africana de Futebol).
História
Voltando ao continente africano, além da Liga dos Campeões da África, os africanos disputam a Copa de Clubes das Confederações (Confederation Cup), nova denominação da Copa da CAF – torneio nos moldes da Copa da UEFA -, extinta em 2003. Por fim, desde 1992, existe a Supercopa da África, disputada entre os vencedores dos dois torneios africanos.
Enquanto a Copa das Nações Africanas é certamente a vitrine do futebol africano, sendo transmitida por emissoras de tv de todo o planeta, é na Liga dos Campeões da África que está o coração e a alma do torcedor africano. É neste torneio que as lendas são criadas naquele continente esquecido.
Inicialmente, a competição era formada pelos campeões de cada país sob a jurisdição da CAF e disputada em jogos de ida e volta durante 12 meses até as quartas-de-final, semifinais e a grande final para definir o time vencedor, declarado o campeão dos campeões da África. Vencer times cuja reputação vinha de muito longe mexia com a imaginação dos fãs do torneio; todos querendo ser o maior.
As competições africanas são jogadas durante o ano, iniciando em janeiro e com as finais em dezembro. A Supercopa geralmente é disputada em janeiro ou março entre o campeão da Liga dos Campeões e da Copa de Clubes das Confederações. Todos os jogos são disputados nos finais de semana.
Hoje, o grande objetivo dos clubes de futebol africanos é chegar ao sucesso na Liga dos Campeões, vencendo ou no mínimo provocando um considerável impacto neste tremendo torneio. Para cada time de cada país ser levado a sério por seus torcedores e pela mídia através da África, é nesta competição que necessitam se distinguir dos rivais.
Na primeira temporada do torneio, disputada por apenas quatro times, iniciado em 1964 , o primeiro time a erguer o troféu foi o Oryx Douala de Camarões, que bateu o time malinês Stade Malien, em fevereiro de 1965. No ano seguinte, não houve temporada, mas a competição recomeçou em 1966, quando introduziram a final em um jogo em casa e outro fora. Neste ano, sete equipes disputaram o título, com o Oryx entrando na semifinal. Mais um time de Mali estava na final, o Real Bamako, mas quem ficou com o troféu foi o Stade Abidjan com um inesquecível 4 a 1, na decisão na Costa do Marfim.
Em 1967, um drama com pinta de futebol brasileiro. Depois de dois empates entre o Asante Kotoko, de Gana, e TP Englebert, da RD Congo (ex-Zaire), a CAF sugeriu um jogo extra para resolver o impasse, mas o time ganense refugou e o título foi finalmente para o TP Englebert, que depois mudaria seu nome para TP Mazembe. Só para provar que merecia o título de campeão, o TP Englebert foi com toda força em busca do bicampeonato. E conseguiu, batendo o Etoite Filante, de Togo. No entanto, o Kotoko esperou até 1970 para a grande revanche contra o TP Englebert. Mais uma final entre os dois times e mais um empate no primeiro jogo. Porém, contra as expectativas dos ganenses em sua quarta final consecutiva, o Asante Kotoko venceu por 2 a 1 o jogo em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, garantindo o título que declinara havia três anos.
A década de 70 marcou uma ascensão notável na sorte do futebol de clubes de Camarões, que com tal fase de sucesso passou a ser adorado em nível internacional, contando com a torcida de muitos na Copa do Mundo de 1982. Entre 1971 e 1980, times camaroneses venceram a Copa dos Campeões em quatro oportunidades, com o Canon Yaounde, time do conhecido goleiro N’Komo, levando o troféu por três vezes e o Union Douala erguendo a Copa em 1979. O Canon Yaounde é o time com mais títulos em Camarões, além de ter revelado os famosos Marc-Vivien Foé, François Omam-Biyik e Pierre Womé.
No intervalo das honrosas conquistas camaronesas, o Haifa da Guiné Bissau teve sua fase áurea, chegando ao título três vezes nesse período.
Desde os anos 80, são os times da África do Norte (árabe) que vêm dominando a Liga dos Campeões, particularmente os arqui-rivais egípcios Zamalek e Al Ahly. É significante que antes do domínio destas duas equipes, o único time do Egito a ser campeão tinha sido o Ismaili. Até 1979, os times da África Sub-Saariana (negra) dominaram a Liga dos Campeões, sendo derrotados só para o Ismaili e para o mais popular time argelino, o MC Algiers, em 1976. Voltando, os “Vermelhos” (Al Ahly) venceram pela primeira vez em 1982, alcançando a glória máxima ainda em outras oportunidades, enquanto os “Brancos” bateram o recorde de títulos, com nada menos que cinco conquistas. Um outro time norte-africano que deixou boa impressão no torneio foi o Raja Casablanca, que marcou a história três vezes.
Os times do Norte da África alcançaram tanto sucesso devido à sua melhor organização e a um padrão de (semi) profissionalismo no futebol. Foi possível, então, superar oponentes de países com jogadores considerados mais talentosos individualmente. A preparação dos times da África Branca é definitivamente superior também devido à freqüente contratação de técnicos estrangeiros.
Mudanças
Em 1997, a CAF substituiu a forma de disputa, como a UEFA havia feito na Europa. A Copa dos campeões da África virou Liga dos Campeões da CAF. A competição era aberta para todos os campeões das ligas dos países afiliados à CAF. Em 2004, outra mudança: os 12 países melhores no ranking passaram a ter o direito de uma segunda vaga para seus vice-campeões. O ranking foi baseado no desempenho dos clubes nos cinco anos anteriores.
Semelhante à UEFA, a Liga dos Campeões da África passou a ter duas rodadas de classificação – mais uma rodada preliminar para alguns participantes – antes da fase de grupos que determina os finalistas.
Premiação
Enquanto as torcidas vibram com as glórias nos estádios, os dirigentes pensam mesmo é na premiação. Os prêmios financeiros da Liga dos Campeões da CAF estão mais para Libertadores da América do que pra Liga dos Campeões da UEFA. Para efeito comparativo, além dos prêmios por vitórias, empates e classificação para cada fase da Liga, o Barcelona levou 8,26 milhões de dólares só pelo título. O campeão da Libertadores leva no máximo 2,6 milhões de dólares, incluindo 1 milhão de dólares do patrocinador do torneio. A CAF distribui 3,5 milhões de dólares entre os quatro melhores classificados de seu torneio. O campeão leva 950 mil dólares, enquanto sua federação fica com 50 mil. Cada time classificado para as semifinais também recebe um adicional de 427,5 mil dólares. A diferença de premiação para os times da Europa e do resto do mundo só provocam um desnível entre os times da do Velho Continente e os do resto do mundo.
O marketing da Liga dos Campeões da África é feito por uma agência de publicidade, e a soma que os clubes que não chegam à fase de grupos recebem é comparável a de times que não sobreviveriam na terceira divisão da Itália. Outra dificuldade na disputa do torneio são as viagens intercontinentais, já que a malha aérea africana está longe do conforto dos vôos europeus.
O pouco dinheiro investido nas competições (semi) profissionais de clubes africanos, tal qual no futebol sul-americano, causa uma emigração de jogadores talentosos para times não muito importantes da Europa. Os jogadores da África Negra, então, logo partem para algum time de segunda ou terceira divisão das ligas européias.
Mundial de Clubes
Com a criação do Mundial de Clubes da FIFA, os times africanos ficaram ainda mais sedentos pelo título da Liga. A chance de disputar um troféu com grandes e ricos times da Europa, a admiração pelo futebol sul-americano e a rivalidade com as equipes asiáticas motivou bastante a Liga da África. Agora os jogadores querem aproveitar a chance de poder mostrar todo seu futebol no Japão. Dificilmente encontrarão vitrine melhor que essa.


