Um por todos, todos por um

 

Quando a Internazionale venceu o Bayern Munique na final da Liga dos Campeões de 2009/10, fez um gol por toda a Itália. O vice-presidente do Milan disse dias antes da final que torceria pelo clube arquirrival. Não, não foi por qualquer sentimento de união italiana ou de ufanismo em relação ao país. A razão é muito mais simples e objetiva.

A vitória da Inter sobre os alemães impediu que a Alemanha ultrapassasse a Itália no ranking de países da Uefa e mantivesse a Serie A de 2010/11 com quatro vagas na LC dest temporada. A Udinese, quarta colocada, pode colocar na conta da Inter a possibilidade de jogar o torneio europeu em 2011/12. O ranking da Uefa, baseado em um coeficiente, é que determina o número de vagas para cada nação.

No entanto, a ultrapassagem da Alemanha sobre a Itália era iminente. A pontuação de ambos era próxima e o desempenho alemão vinha sendo maior do que o italiano. Tanto que, em 2010/11, os alemães deixaram os vizinhos europeus para trás desde o início da temporada, consolidando sua posição como terceira força da Europa. Mas, afinal, como funciona esse ranking da Uefa?

A Uefa adota um sistema que conta o desempenho dos clubes nas últimas cinco temporadas em competições europeias. Esse é o chamado coeficiente, que a entidade usa para calcular o rendimento dos países e assim distribuir as vagas por critério técnico. É por isso que as ligas mais fortes conseguem ter mais times do que as mais fracas. Algo mutável, já que as ligas mudam sua força com o passar dos anos – em 2003, a Espanha liderava, a Itália era a segunda e a Inglaterra era a terceira, com a Alemanha na sequência.

Durante esse período de cinco anos do ranking, cada equipe ganha dois pontos por vitória e um por empate em jogos de competições europeias. Há ainda pontos de bônus para quem chega à fase de grupos da Liga dos Campeões (quatro) e da Liga Europa (dois, no mínimo, caso o time não alcance essa pontuação com os pontos por jogos). Os times que são eliminados nas fases preliminares recebem pontos de acordo com a fase – quanto mais adiantada, obviamente, mais pontos.

Quem se classifica para as oitavas de final da Liga dos Campeões ganha cinco pontos de bônus. Um ponto adicional é dado a cada passagem de turno a partir daí – quartas de final, semifinal e final, sendo que neste caso vale também para a Liga Europa. Não há pontuação adicional para quem é campeão, mas nem precisa, já que ao chegar à decisão, o time ganha necessariamente muitos pontos.

O coeficiente do país na temporada é definido com a soma de todos os pontos divididos pelo número de times. Por exemplo, na temporada 2010/11 a nação que mais somou pontos foi Portugal, com cinco times disputando competições europeias. Muito graças às excelentes campanhas de Porto, campeão da Liga Europa, Braga, vice-campeão, e Benfica, semifinalista. Além deles, Sporting e Marítimo também somaram alguns outros.

O Porto, ao todo, adicionou 28 pontos, o Braga 25, o Benfica 22, o Sporting 13 e o Marítimo 4. Somados, chegaram a 94. Esta pontuação dividida pelos cinco times dá a média de 18,800, que é o coeficiente do país na temporada.

Este valor é somado ao das quatro temporadas anteriores para formar o ranking geral. São computadas, portanto. no atual: 2006/07, 2007/08, 2008/09, 2009/10 e 2010/11. Portugal, com seus 18,800, soma 8,083, 7,928, 6,785 e 10,000 para formar seu total: 51,596. É o sexto país no ranking da Uefa, atrás de Inglaterra (85,785), Espanha (82,329), Alemanha (69,436), Itália (60,552) e França (53,678).

Os campeões dos 12 primeiros colocados no ranking entram direto na fase de grupos da Liga dos Campeões. Os demais passam pelas fases preliminares. E de acordo com a posição dos países, os times conseguem mais vagas.

O ranking de clubes

A Uefa tem também um ranking de clubes, que é usado para definir os cabeças de chave dos torneios europeus. É por causa desse ranking, por exemplo, que o Manchester City não seria cabeça de chave na preliminar da Liga dos Campeões e poderia enfrentar times como o Bayern Munique. Como conseguiu ficar em terceiro lugar, o Arsenal, quarto lugar, por ter um ranking alto, não enfrentará os alemães, que também têm boa posição na classificação. Ambos serão cabeças de chave na preliminar.

O cálculo para a pontuação de um clube é simples. A pontuação total do time é somada a 20% do coeficiente do país. Como exemplo, vejamos o caso do Manchester United, clube que mais pontuou na temporada. O clube alcançou 33 pontos, que somados a 20% do coeficiente da Inglaterra (3,6714), chega a 36,6714, seu coeficiente da temporada. O Barcelona, segundo colocado no ano, somou os mesmos 33 pontos, que adicionados a 20% do coeficiente da Espanha (3,6428), totaliza 36,6428.

Isso significa que o clube está atrelado ao desempenho dos outros times do seu país. Um desempenho ruim das outras equipes conterrâneas pode fazer com que alguém que tenha boa campanha acabe sentindo as consequências na próxima temporada.

Foi o que aconteceu com a Rússia recentemente. Antes do início da última temporada, o país do Leste Europeu era sexto colocado no ranking da Uefa. Viu Portugal, que teve desempenho espetacular, passá-lo e assumir a sexta colocação – os portugueses começaram a temporada apenas em nono lugar.

A queda de uma posição no ranking representa a perda de uma vaga na Liga dos Campeões. Antes, o time mandava três clubes para a principal competição do continente, sendo dois deles diretamente para a fase de grupos. Com a queda, quem passa a ter esse direito é Portugal. A Rússia passa a enviar apenas dois representantes para a LC, sendo um deles para a fase de grupos e outro para a fase preliminar. O desempenho de Benfica, Braga e principalmente do Porto foi fundamental para que todos tenham mais chances de chegar à competição a partir desta temporada, 2011/12, quando começa a valer a nova classificação.

Explicado isso, voltamos ao início. A Itália estava muito perto de perder o terceiro posto para a Alemanha no ranking. Antes da final, sabia-se que caso a Inter não conseguisse vencer o jogo, os alemães passariam a Itália. Mesmo que os nerazzurri empatassem no tempo normal e na prorrogação e fossem campeões nos pênaltis, os alemães passariam à frente dos italianos.

A vitória da Inter por 2 a 0 contra o Bayern Munique naquele 22 de maio fez com que a Itália terminasse com coeficiente 15,428, o quarto na temporada, com a Inter liderando o país, com 31 pontos. O ranking italiano chegou a 64.338, contra 64.207 da Alemanha, país que mais fez pontos naquela temporada. Uma diferença mínima.

Era, portanto, compreensível que não apenas Adriano Galliani, mas toda a Itália estivesse torcendo por uma vitória da Inter em Madri. Não por simpatia aos nerazzurri, mas por uma questão de sobrevivência. Com o coeficiente da Uefa, o desempenho coletivo conta para todos. Só não conseguiu segurar os alemães por mais tempo.

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Equipe Trivela

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