Sem categoria

Um papo com Walter Salles

Como já fica claro pelo título, o futebol ocupa grande parte de “Linha de Passe”, novo filme de Walter Salles. Escrito e dirigido em parceria com a cineasta Daniela Thomas, o longa conta a história de uma família pobre da periferia de São Paulo. Mãe solteira de quatro filhos e torcedora fanática do Corinthians, Cleuza sofre tanto com a difícil fase de seu time (prestes a ser rebaixado do Brasileiro 2007), quanto com a de seus filhos, que têm que se virar na vida.

O mais angustiado deles tenta ser jogador profissional de futebol, mas vê suas chances ficarem mais escassas a cada peneira. O problema de Dario não é a falta de talento, mas, como para milhares de garotos brasileiros, a falta de dinheiro para comprar um lugar no time. Com essa trama, o longa teve críticas positivas e chegou a dar a Sandra Corveloni, atriz que interpreta Cleuza, o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes.

Para falar sobre “Linha de Passe”, a presença (escassa) do esporte no cinema brasileiro e os cuidados tomados para filmar cenas de futebol, a Trivela conversou com o diretor Walter Salles. A reportagem completa sobre o filme e filmes de futebol foi publicada na edição nº 31 (setembro) da revista Trivela.

Qual é a importância do futebol na trama de “Linha de Passe”?
O futebol é uma das vertentes principais do filme. Não só o ritual apaixonante dos estádios, mas também o futebol como uma meta para dezenas de milhares de jovens quebrarem as barreiras sociais no Brasil. O José Miguel Wisnik diz isso de uma forma brilhante no livro “Veneno Remédio – o futebol e o Brasil”: o futebol é aquilo que nos define, nos confere uma possibilidade de pertencimento.

Quais são as maiores dificuldades para filmar cenas de futebol?
As dificuldades não são poucas. São vinte e dois jogadores em campo, mais os treinadores e os bancos de reserva. Como dar conta de tantos elementos num curto espaço de tempo? Essa é a maior dificuldade. O boxe, por outro lado, é feito para o cinema: você tem apenas o protagonista e o antagonista lutando num território limitado pelas cordas. Para filmar futebol, não é possível simplesmente armar uma jogada e filmar, acaba ficando mecânico. Tem que haver improvisação, surpresa. É como se você ensaiasse uma cena, mas pedisse para o ator improvisar na hora em que a câmera estiver rodando.

Houve alguma preocupação para fazer um filme “futebolisticamente correto”?
Boa pergunta. Um ex-jogador profissional foi de enorme importância para o projeto: o Raí. Dentro e fora do campo, ele é um cara de uma sensibilidade e inteligência fora do comum, um craque… Foi o Raí quem nos ajudou a abrir as portas do São Paulo e também contatou jogadores que foram fundamentais para o filme, como Rogério Ceni. Também fomos ajudados por craques que olham e analisam o futebol fora do campo, como Juca Kfouri. Tudo isso foi propiciando um entendimento cada vez mais aprofundado da matéria.

Algum outro filme serviu de inspiração para a parte “futebolística” de “Linha de Passe”?
Sim, uma série documental do meu irmão João e do Arthur Fontes sobre futebol que foi ao ar no GNT. Foi a primeira vez que vi o futebol filmado de dentro.

O Vinicius de Oliveira contou ter praticado durante algum tempo na escola do Zico. Foi uma sugestão de vocês?
Foi mais do que algum tempo… Foram mais de quatro anos para que lá ele desenvolvesse o talento natural que tinha, a tal ponto que a crítica francesa não o elogiou somente como ator, mas também como jogador de futebol. Esse esforço me pareceu necessário para que ele estivesse realmente preparado para jogar com os juvenis de times grandes como o Palmeiras, que fizeram parte da filmagem. Claro que é brincadeira, mas, se o Dunga tivesse convocado o Vinicius para o time nas Olimpíadas, talvez não tivéssemos dado aquele vexame contra a Argentina.

O personagem do Vinicius teve inspiração em algum jogador específico?
Na verdade, o personagem de Dario é o resultado de uma soma de observações que fizemos ao longo da preparação do filme. Várias histórias que aconteceram com meninos diferentes que tentaram a sorte nos juvenis de times diversos chegaram até nós. E o nome Dario não foi pensado como uma homenagem ao Dadá Maravilha, mas bem que poderia ter sido – afinal, um cara que diz “não sei fazer duas coisas: jogar futebol e perder gol” tem algo de genial.

Nos últimos anos apareceram mais filmes brasileiros com alguma menção a futebol do que o normal. É uma tendência ou coincidência mesmo?
Bem, isso estava fazendo falta. Afinal, o futebol tem uma importância fundamental na vida brasileira, e o cinema nada mais é do que o retrato dos nossos desejos, das nossas angústias, o reflexo de quem somos. É natural que o futebol seja retratado no cinema. Estranho era o fato de que ele não tenha sido até bem pouco tempo.

Entrevista concedida a Fernando Martins. Colaborou Pedro Teixeira (redação)

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo