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Um gringo com jeitinho brasileiro

Pablo Escobar foi contratado pela Ponte Preta para a disputa da Série B do Campeonato Brasileiro. Aos 31 anos, e há três no Brasil, esse atacante paraguaio, naturalizado boliviano, tem muita história para contar.

A começar pelo famoso nome, que já lhe rendeu alguns questionamentos na Colômbia quando foi jogar lá. Mas é nos gramados que o habilidoso e descontraído jogador paraguaio se destacou no cenário sul-americano e foi convidado a se naturalizar e defender a seleção da Bolívia. Hoje, quer recuperar o espaço perdido na equipe e sonha com a Copa América de 2011.

Nesta entrevista exclusiva ao Joga Campinas, Pablo Escobar falou sobre sua contratação pela Ponte e a carreira no Paraguai, Argentina, Bolívia e Brasil. E também falou sobre o preconceito de algumas pessoas com o jogador estrangeiro.

Você chegou ao futebol brasileiro em 2008 e a Ponte é seu quarto clube. Está totalmente adaptado ao futebol brasileiro?
Dá para falar que sim, porque joguei dois anos a Série A, agora estou jogando a Série B. Estou conhecendo cada dia melhor, mas estou bem adaptado ao Brasil. O idioma também ajuda.

Como foram as passagens por Ipatinga e Santo André?
Foram passagens bem distintas. No Ipatinga foi uma passagem boa, mas também complicada. Eu cheguei em setembro, o time já estava quase rebaixado, mas para mim era uma experiência nova e boa jogar no Brasil. Minha ideia era que as pessoas me conhecessem no país, para abrir outra porta. Fiz alguns gols no Ipatinga e graças a Deus deu certo, porque abriu uma porta no Santo André. Lá fiz um Paulista muito bom, vários gols, tanto o time como eu fomos bem. Já no Brasileirão foi um pouco mais difícil. Comecei muito bem, tive a oportunidade de ir para o Flamengo, mas o Santo André não liberou. Aí eu senti um pouco, porque era um time grande e seria importante na minha carreira. Era o que eu procurava no Brasil, atuar por um time grande. Essa possibilidade que não deu certo me fez sentir um pouco, e acabei muito irregular.

E como foi parar no Mirassol?
As pessoas já conheciam o que eu tinha feito no Santo André e o Mirassol entrou em contato com meu procurador, e eu gostei da ideia de jogar o Campeonato Paulista de novo, que é o melhor estadual do Brasil. Sabia também que o Paulista era muito observado por todos os times. Demorei a jogar, porque minha documentação não estava pronta, perdi muitos jogos, mas depois deu tudo certo, comecei a jogar e a marcar gols. E marquei um contra a Ponte aqui em Campinas, que acho que abriu a porta para a minha chegada.

Já teve tempo para conhecer Campinas? Gostou da cidade?
Já, com a família saímos um pouco. Gostamos muito da cidade, muito tranqüila, boa para morar, mas ainda estamos conhecendo. Faz apenas um mês que estamos aqui, e todos têm nos recebido muito bem.

Falando um pouco sobre sua carreira, como foi o começo no Olimpia, onde você foi campeão paraguaio?
Fiz toda a base no Olimpia. Quando eu era criança, sempre fui torcedor do Olimpia, que tem a camisa preta e branca como a Ponte Preta. Na minha estreia pelo profissional fomos campeões, em 99, e daí passei para o Nacional, do Paraguai.

E a passagem pela Argentina, no Gimnasia y Esgrima La Plata?
No Nacional fui vendido para o Gimnasia y Esgrima. Fiquei três anos e meio na Argentina. Foi muito bom. Futebolisticamente cresci muito lá. O trabalho feito é ótimo, muito parecido com o Brasil. De maneira profissional foi muito bom, mas no sucesso do futebol não. O time não era grande, não brigava por grandes posições. E foi quando surgiu a possibilidade de ir para a Bolívia.

Isso foi já em 2004. Você defendeu inicialmente o San José e depois o The Strongest. Lá você se tornou ídolo, como foi esse período?
Havia um procurador no San José que viu um jogo meu e me propôs ir para a Bolívia. Aí eu pensei: “ah, vamos mudar um pouco o ambiente, ver o que acontece por lá”. Fui bem, artilheiro do time e o The Strongest me comprou. Jogamos Libertadores e Sul-Americana no ano seguinte, fiz gols nos dois torneios. Fui muito bem, graças a Deus.

Depois ainda voltou para o Paraguai, para jogar no Cerro Porteño. Como foi esse retorno?
Foi complicado na minha cabeça, porque Cerro Porteño e Olimpia são como Guarani e Ponte Preta. Eu não tinha dúvida de voltar para o Paraguai, porque é o país onde eu nasci e toda minha família está lá. Mas a temporada não foi das melhores pra mim, apesar de termos conquistado o título. Fui muito irregular ao longo do ano. Daí como tinha ido muito bem no The Strongest, surgiu o convite do presidente para retornar.

Quando você teve sua melhor temporada.
Sim, foi minha melhor temporada. Fui muito bem. O The Strongest é um time que, comigo, caiu muito bem. Sempre que fui lá me dei bem.

E nessa época surgiu o convite para se naturalizar boliviano?
O presidente do time veio falar comigo sobre essa possibilidade. Disse que ia pensar, conversar com minha família, mas aí ligou o treinador da seleção da Bolívia, o Erwin Sánchez. Ele me perguntou o que eu achava, se eu gostaria. E vindo dele, o convite ficou ainda melhor. Aí comecei a tirar a documentação, que levou uns 30, 40 dias e me naturalizei. Em uma sexta fui naturalizado e na segunda fui convocado. Daí fui para todas as convocatórias, disputei 12 jogos. E no momento em que eu me naturalizei, foi quase a mesma data da contratação pelo Ipatinga. Era um jogo contra o Brasil, inclusive, se me recordo bem.

Acha que poderia ter tido mais chances na seleção da Bolívia?
Desde que eu me naturalizei, fui sempre convocado. Com certeza gostaria de ter jogado mais. O que eu acho que atrapalhou, pelo menos o que eu vejo, já que tem muita história que a gente não sabe, é que naquele momento que o treinador me ligou e propôs aquilo, eu jogava na altitude de La Paz. Estava muito bem adaptado para jogar lá, vinha qualquer time e sentia. Fiz um jogo e vim para o Brasil. Eu, geralmente, meus jogos de titular, era fora da Bolívia. Na altitude, eu ficava no banco, e jogavam 80{4e6004d4b2dec836d33dc5172bfddf26d3363bd8dda1f1bebd6a41477248514f} dos jogadores que atuavam na altitude. Por isso acho que o sucesso não foi melhor, mas eu estou muito agradecido. As pessoas de lá gostam muito de mim e eu também deles, só tenho agradecimentos e não me arrependo de nada.

Sonha ainda em ser convocado?
Ano que vem tem Copa América! Se eu manter um bom nível aqui… tudo depende de mim e do treinador que estiver na hora. Mas independente de ser convocado ou não, estou muito agradecido e feliz com a decisão. Uma decisão que tomei com o coração.

Pretende ficar no Brasil por muito tempo ainda?
Sempre que a porta estiver aberta para eu ficar, gostaria de permanecer. Aqui no Brasil a organização, o respeito pelo jogador é importante. Pra mim o maior tempo possível que eu puder ficar no Brasil é muito bom, só se não tiver uma proposta muito melhor de outro país.

Para o jogador sul-americano, vir jogar no Brasil é um passo importante antes de sonhar com a Europa?
Com certeza. Eu vim da base do Paraguai, mas joguei muitos anos na Bolívia. Vir para o Brasil, que tem o melhor futebol do mundo, com certeza é um passo bem grande. Por isso eu gostaria de ficar muito tempo mais.

Acha que o jogador estrangeiro no Brasil sofre um pouco de preconceito de torcedores e imprensa? Normalmente é muito mais cobrado do que um brasileiro?
Eu acho que, pelo meu caráter especial, não sinto muito esse preconceito, mas também posso falar que eu vi mais preconceito com outros jogadores do que comigo. Porque eu sou mais rodado, cheguei no Brasil com 29 anos já, sei como lidar com isso. Mas eu vi esse preconceito com outros estrangeiros, tanto da imprensa como dos companheiros. Mas no mundo do futebol há muita inveja e preconceito. Dentro de campo já me falaram estrangeiro de merda. Não vou falar quem, nem qual time ou jogador, mas foi contra time grande, Série A do Brasileiro. Mas isso aí foi um cara, e conheço 300 que são parceiros meus e são todos brasileiros. Tanto que aqui vêm falar “o paraguaio”, eu digo “não, meu nome é Pablo”. Eu não falo para você “o brasileiro”! E também eu já joguei no Paraguai, na Argentina, na Bolívia e esse preconceito também existe lá. Pode ser um pouco menor? Sim, é um pouco menor, mas existe. Quando chega um estrangeiro, pensam que ele está ocupando o lugar. Mas isso também é só nos primeiros dias, porque aí você conhece a pessoa e esquece a nacionalidade.

E entre todos os campeonatos nacionais que você disputou, qual é o mais difícil?
Argentino. Não difícil de ser campeão, mas difícil no geral, para jogar. Tem o Brasileiro e o Argentino, mas acho que o de lá é mais difícil porque o brasileiro respeita muito o futebol, o jeito de jogar. No Argentino é muita pegada, muito físico, tem momentos em que até esquece o futebol.

Você também disputou a segunda divisão argentina?
A segunda não dá nem para falar! Muita pegada, sem espaço para jogar. E lá os caras têm na cabeça que tem que ganhar, não importa como. Não tem comparação com a segunda divisão brasileira.

E a coincidência do seu nome com o famoso traficante colombiano, já lhe causou algum constrangimento?
Sim, quando eu falo Pablo Escobar as pessoas abrem o olho! E tive até uma experiência, quando fui jogar a Libertadores na Colômbia, que na imigração, antes de entrar no país, olharam o meu nome, me perguntaram se eu tinha algum parente lá, se era a primeira vez que eu ia na Colômbia. Até um diretor do Cerro Porteño, que era o meu time na época, foi lá ajudar, mas ficou só nisso.

E na Copa do Mundo, vai torcer para o Paraguai?
Vou torcer primeiro para o Paraguai, porque é o meu país, e depois para o Brasil, que é o país que me acolhe hoje. E minha esposa é argentina, mas vou torcer para o Brasil! Todos falam que é o melhor time do Paraguai em todos os tempos, e que pode fazer história nesse campeonato, ir longe. Está nessa expectativa. Agora o Brasil é sinônimo de final pra mim, e na final pode acontecer qualquer coisa.

(Entrevista feita por Gustavo Hofman, da redação do Joga Campinas)

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Equipe Trivela

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