“Um dia volto e risco rebaixamento da história do Palmeiras”

Atual artilheiro da Ligue 1, o brasileiro Nenê do Monaco acabou se tornando em seu retorno ao clube francês um dos principais jogadores da equipe. Porém, o meia-atacante admite que “não esperava isso”. “Minha função é dar o passe para o gol”, afirmou o jogador.
Em sua carreira, ganhou destaque no Palmeiras do rebaixamento em 2002, e no Santos vice-campeão da Copa Libertadores de 2003, tendo perdido para o Boca Juniors na final. Depois de se transferir para a Europa alternou passagem pelo Monaco, sob o comando de Ricardo Gomes, com clubes espanhóis, até que voltou para a França, onde vive, segundo ele, a melhor fase de sua carreira.
Na rodada do Campeonato Francês do final de semana, Nenê marcou dois gols na vitória por 3 a 1 do Monaco sobre o Boulogne, o que garantiu a vice-liderança para a equipe. Em entrevista concedida à Trivela após a partida, o jogador falou sobre sua atual fase, a esperança de voltar a ser convocado para a Seleção Brasileira, e do desejo de retornar ao Brasil para defender Santos ou Palmeiras outra vez.
Esperava ser artilheiro, já que nunca foi jogador de fazer muitos gols?
Realmente eu não esperava isso. Sou meia, minha função é dar o passe para o gol, para o atacante. Mas minhas finalizações, minhas cobranças de falta têm sido muito boas. Estou aproveitando as chances que tenho, mas é mesmo uma surpresa ser artilheiro. No último jogo (3 a 1 contra o Boulougne fora de casa), marquei dois gols quase iguais de falta, muito bonitos. Não lembro da última vez que alguém marcou duas vezes de falta em um jogo. Foi ótimo, ajudei o time a ganhar, já que perdíamos.
O Monaco está fazendo uma campanha excelente, e você está numa das melhores fase da sua carreira. Ao que atribui isso?
Eu estou numa ótima fase, realmente. Creio que a experiência que já adquiri – estou com 28 anos -, além da experiência na Europa ajudaram; vim para França e depois voltei. Agora sei aproveitar melhor as chances, sei me concentrar melhor, sei me posicionar bem em campo, sair da marcação, estar no melhor lugar pra receber a bola. Fisicamente também estou muito bem. Treinei forte na pré-temporada e, neste ano, eu já conhecia o grupo, o estilo de futebol francês.. foi uma conjunção de fatores que me ajudaram a estar bem, vivo minha melhor fase.
Você atuou ao lado de Ricardo Gomes no Monaco, numa fase que não foi tão boa tanto pra você, nem para o time. A melhora da equipe nesta temporada pode ser atribuída também à troca de treinador, agora com o Guy Lacombe, ou não?
Bem, tivemos mudanças em vários aspectos, inclusive neste. Trocar de técnico foi bom, mas não foi só esse o motivo. A forma de trabalhar com os jogadores é diferente, o grupo também é outro, quase metade dos jogadores mudou; o treinador atual é mais exigente. Os jogadores aqui relaxam fácil, então é bom ele ser assim. O Monaco é um dos grandes da França, mas não temos ido bem nos últimos anos, pelo o nome que o clube tem. Não que isso diminua o clube, mas saiu um pouco da mídia.
O que você tem achado do trabalho de Ricardo Gomes no São Paulo atualmente?
Acho que ele está muito bem. Está com um estilo um pouco diferente, ele costumava jogar com um 4-3-3 ou 4-4-2 antes. No São Paulo, creio que ele já aproveitou o estilo de jogo do time e está usando um 3-5-2. Acho que depende do time que ele trabalha, mas está dando certo, né? O São Paulo está aí, brigando pelo título, entre os primeiros. Ele é um treinador muito sério, entende de futebol.
Quais as expectativas reais do time? Você acha que tem condições de levar o título, e desbancar o Lyon, Bordeaux, PSG ou Olympique? Ou focarão em vaga europeia?
Bem, ainda é muito cedo pra falar. Mas creio que a intenção no início é voltar a disputar um campeonato europeu. Claro, de preferência a Liga dos Campeões, ou pelo menos uma Uefa (Liga Europa). Agora, o foco é nos mantermos entre os primeiros, não deixar baixar o nível, e, mais pra frente, voltar a pensar em títulos.
Como você compara sua primeira passagem no Monaco, e depois a volta do empréstimo?
Na minha primeira passagem aqui, eu passei por um processo de adaptação, foi bem difícil. O futebol francês é totalmente diferente do espanhol. É mais físico, duro, se corre mais. E a língua também é mais difícil de aprender. Mas, os números foram bons, eu dei 10 assistências na temporada, mas faltava muita técnica, hábito com as táticas daqui e com a exigência física, e eu demorei também pra me encaixar no grupo, pra pegar o ritmo. Mas, foi um ano bom, até. Agora, já estou adaptado, e já conheço tudo, Ficou bem mais fácil.
Como é a torcida do Monaco?
É… um pouco “particular” (risos). Aqui não tem muita torcida. Não sei se tem nem 10 mil torcedores monegascos, por ser um local de paraíso fiscal, pelo glamour que tem. A maioria das pessoas daqui é de fora. Não tem paixão pelo futebol. Querem mais é saber dos iates deles, de seu dinheiro (risos). Mas por certo lado é bom, pois não tem pressão, como por exemplo, o Olympique de Marselha, ou Bordeaux e Lyon.
Qual a torcida mais apaixonada que você já viu, dentre os clubes que defendeu?
As do Brasil são as mais apaixonadas, com certeza, o Palmeiras e o Santos. As espanholas também cantam bastante e incentivam.
O que falta ao futebol francês pra despontar na Europa, uma vez que, dentre os grandes países, é tido como o mais fraco?
Penso que é a maneira de trabalhar dos franceses. Aqui se valoriza muito a força, e menos a técnica. Em português claro, é o futebol retranca. O Bordeaux acho que é um clube que tem mais técnica. Na Espanha, Inglaterra, Itália, se valoriza a técnica também, e acho que isso faz falta aqui. Claro que o físico é importante, mas falta isso.
Como é morar em Mônaco?
É um luxo. O nível de violência é quase zero, tem ótima estabilidade pra família, a cidade é boa pra tudo. Na parte cultural, tem muitas coisas para se fazer, muitos parques, muitas opções de lugares pra comer.
E a questão do investimento? Os clubes franceses gastam muito menos que os espanhóis ou ingleses, por exemplo.
Sim, concordo. O que o Real Madrid e o Barcelona gastam é na verdade um absurdo. Os clubes franceses são mais realistas. Se não gastam muito é porque não podem. Aqui é um dos melhores países pra se receber, por exemplo. Nunca atrasam salários, é ótimo. Eles não se arriscam, e isso é bom. O que eles fazem muito é trazer muitos africanos, formá-los e vendê-los caro; são bons vendedores, mas são mal compradores.
Qual seu relacionamento com o técnico Guy Lacombe?
É muito bom. Ele tem caráter forte, de vencedor. É bem parecido comigo, não gosto de perder nem em par ou ímpar, por isso acho que nos damos bem. Às vezes ele é meio chato, por ser exigente, mas assim ele faz os caras jogarem, tira o melhor de cada um. Faz o jogador render.
Você já teve oportunidade de atuar no Brasil, na Espanha e na França. Qual a diferença entre as ligas?
Bem, a Espanha é bem parecida com o Brasil, mas é um estilo de futebol mais rápido, mais técnico; você tem que pensar muito rápido, senão complica, e perde a bola fácil. O francês é bem mais físico, truncado, mas é mais rápido que o brasileiro também, os caras correm o tempo todo. Se você pega a bola, já tem três em cima de você; é mais forte também, você não pode estar magro, senão os caras te derrubam (risos). O Brasil é pura técnica.
Como foi disputar a Libertadores pelo Santos, chegando até a final, e perdendo para o Boca Juniors?
Foi excelente. Quando o brasileiro começa a jogar, as etapas são buscar ser profissional, depois chegar a um clube grande, depois Libertadores e Europa. Ter participado da Libertadores foi a realização de um sonho. Fizemos uma excelente campanha, eu marquei gols importantes, mas, infelizmente, perdemos na final.
O que você acha que faltou para o time de Emerson Leão levar aquele título?
Quase nada. Perdemos chances de marcar na Argentina e levar o título lá. Tomamos gols que não poderíamos ter tomado e, no Brasil, eles vieram fechadíssimos. O treinador na época era o (Carlos) Bianchi, um excelente treinador. No fim, perdemos o título naquele jogo lá na Argentina. O grupo era excelente.
Você já disputou Copa Uefa e Libertadores. Qual a diferença de nível? Qual a sensação de jogar em cada uma?
É praticamente a mesma coisa. A Libertadores tem os melhores da América do Sul, a Copa Uefa tem alguns dos melhores da Europa. E os clubes europeus estão um pouco acima, só isso. Mas na América tem muito mais clubes que não chegam ao nível dos europeus. Na América tem só Brasil e Argentina com vários times de alto nível, o resto não chega a ter quatro ou cinco times bons, enquanto na Uefa todos os países têm.
Você viveu um momento tenso e triste na história palmeirense, que foi o rebaixamento. Como foi fazer parte do time?
Foi realmente muito triste, mas tive momentos felizes. Com o Palmeiras eu tive meu primeiro impulso na carreira, consegui chegar à Seleção Brasileira. Não sei o que aconteceu, nada dava certo no time. Mas quem sabe um dia eu volto para o Brasil e jogo um ou dois anos, para riscar o rebaixamento da história do Palmeiras, e do meu coração. Foi um ano muito duro, aprendi muita coisa.
Qual era o clima na torcida e no elenco?
Não era um clima ruim. Até o último jogo, a torcida estava do nosso lado, até o jogo em que ainda tínhamos chance de escapar do rebaixamento. Mas, depois do rebaixamento, a torcida estava decepcionada, e com razão. Mas eles sempre nos apoiaram. Até hoje tenho carinho pelo torcedor palmeirense.
Como é trabalhar com o Luxemburgo?
É muito bom, ele é inteligentíssimo, sabe muito de futebol. É um dos melhores técnicos com quem já trabalhei. Também sempre soube tirar o melhor das minhas características; minha melhor fase no Palmeiras foi com ele, tanto que fui chamado pra Seleção.
Você comentou que voltaria para o Brasil. Tem intenção ainda de encerrar sua carreira aqui?
Sim, tenho planos de voltar. Voltaria tranquilamente para o Palmeiras ou o Santos, se eu pudesse escolher. Mas não tenho preferência nenhuma. Mas uma coisa que eu gostaria é encerrar a carreira no Paulista, onde eu cresci. Mas eu queria, antes disso, jogar também na Itália. Acho que lá eles têm um bom estilo de jogo, bem técnico. Quem sabe um dia, também queria voltar pra Seleção, e depois, para o Brasil, daqui a uns dois ou três anos. Tudo depende de como eu estiver.


