Titular e Feliz

Existe uma máxima no futebol que diz: “vida de goleiro não é fácil”. E não é mesmo. Que o diga Júlio Sérgio Bertagnoli, arqueiro de 31 anos, que passou por muitos times brasileiros sem tanto destaque até ser visto pela Roma, em 2006. Na bota, sua trajetória também não foi simples. Júlio Sérgio precisou ter paciência e muita força de vontade para, depois de passar três anos como terceiro goleiro dos giallorossi, assumir a titularidade e virar ídolo dos torcedores de Roma. Júlio Sérgio não só conquistou a vaga, como deixou no banco de reservas Doni, goleiro da seleção de Dunga. E Júlio Sérgio contou um pouco da sua carreira, da sua vida na Itália e da expectativa da Roma para o resto da temporada nesse bate-papo interessante com a Trivela .
Como está a contusão?
Estou melhorando já. To bem, sem dor. Agora é só esperar o tempo para voltar a treinar. Amanhã (quarta-feira, 24) ou depois de amanhã (quinta-feira, 25) já começo a correr um pouco. Para estar treinando com bola até sábado, o mais tardar semana que vem.
E o que você está esperando para o jogo decisivo entre Roma e Panathinaikos pela Liga Europa?
A gente tem um time bom, até com um pouco mais de qualidade do que o time deles. Não vai ser fácil, mas com certeza dá para passar. Se ganharmos de 1 a 0 já conseguimos a classificação. Vamos ver se tudo vai bem e a gente consegue passar.
Está com expectativa de conquistar o título europeu?
É o segundo título mais importante da Europa, né? Então para nós seria muito importante. Temos essa decisão contra o Panathinaikos e vamos torcer para que tudo dê certo. Se a gente conseguir passar, será fantástico. Temos um time de qualidade, que pode alcançar o título.
Vamos falar um pouco de sua carreira. Como foi sua trajetória até chegar no Santos, em 2002?
Comecei a treinar no time profissional do Botafogo de Ribeirão Preto, em 1994. Conseguimos o acesso para a série A do Brasileiro (em 98 o Botafogo-SP foi vice-campeão da Série B e conquistou o acesso para a divisão principal. No ano seguinte, foi rebaixado). Fiquei lá até 99. Aí rodei um pouco pelo interior em 2000 e 2001. Até 2002, quando voltei para o Comercial, de Ribeirão Preto. Lá conheci o Pedro Santilli. Na época ele trabalhava com o Leão, era treinador de goleiros do Santos. Ele também conhecia o presidente do Comercial, que falou para o Santilli sobre mim. Ele disse “olha, vem dar uma olhada que a gente tem um goleiro que pode te interessar”. Aí ele me viu treinar e me convidou para fazer uma semana de testes em Santos, eles gostaram de mim e fiquei lá. .
Em Santos, você esteve tanto no time campeão de 2002 quanto no de 2004. Como eram esses times?
Em 2002 eu joguei muito mais. Naquele time era todo mundo moleque, bem garoto. Era um grupo legal, descontraído, em que todo mundo queria aparecer, ganhar seu espaço.
Foi um grupo que surpreendeu todo mundo com aquele título Brasileiro…
É, todo mundo na época tinha o mesmo interesse. Não tinha nenhum jogador muito mais conhecido. O mais experiente era o Léo, que hoje está de volta ao Santos. Então era bacana, a gente se dava muito bem e, claro, a gente surpreendeu porque tinham muitos jogadores de bastante qualidade. Afinal de contas, quase todos os jogadores daquele time conseguiram criar uma carreira bem sucedida.
E depois do Santos?
Eu fiquei lá até 2004, e depois fui para o Juventude. Mas me machuquei, tive uma lesão de ligamento cruzado em 2005, logo no começo do ano, e quase não joguei em 2005. Fiquei cuidando da lesão. Em 2006 voltei a jogar e o Antônio Carlos — hoje técnico do Palmeiras — que tinha jogado comigo em Caxias, me falou que o pessoal da Roma tinha me visto jogar e queriam que eu fosse para lá. Para eles darem uma olhada.
E como foi o período de testes na Itália?
Eu cheguei em Roma em abril, e era para ficar duas semanas, mas acabei ficando até o fim do campeonato. Ou seja, fiquei um mês treinando junto com o grupo. Depois já me apresentei normalmente para o início da temporada.
A adaptação ao país foi tranquila?
Em seis meses eu já estava adaptado. Com a língua demora um pouquinho mais, mas hoje já não tenho nenhum problema com a língua e morar em Roma não é muito difícil. É uma cidade maravilhosa, tranquila, onde se come muito bem. Então eu, minha esposa e meu filho estamos todos muito bem adaptados.
A partir de 2006, mesmo estando no time, você jogava pouco. Como foi esse período na reserva?
É difícil ficar sem jogar. Mas eu tinha feito a escolha de vir para cá tentar conquistar meu espaço no futebol europeu e estava realmente em busca disso. Mas é claro que pensei algumas vezes em voltar para o Brasil ou sair da Roma, porque é realmente difícil. Mas como era a Roma, um grande clube, e minha família se adaptou muito bem na cidade, fiz a escolha de ficar aqui.
E como era para buscar a motivação de ficar treinando todos os dias e não jogar?
Não é fácil. Eu tenho sorte de ter uma família muito presente, tanto meus pais, quanto minha esposa e também meus amigos. Eu queria ter a oportunidade de aparecer no Campeonato Italiano, de fazer algumas partidas e mostrar meu trabalho. Na verdade, mesmo no banco de reservas eu fiquei poucas vezes. Em três anos, devo ter ficado cerca de 30 vezes só no banco, no resto eu assistia ao jogo das tribunas. E realmente era difícil. Mas eu não desisti, encarei isso de uma forma positiva e aprendi muito, inclusive como homem. Porque isso é uma coisa que te faz crescer como pessoa também. Acho que estou até conseguindo colocar em prática aquilo que eu aprendi quando eu não jogava, como ficar mais tranquilo, esperar as coisas acontecerem. E acho que isso me ajuda muito.
Um dos momentos mais decisivos para você virar titular foi quando o Cláudio Ranieri assumiu, certo?
Eu cheguei a jogar no último jogo do (Luciano) Spalletti. A gente perdeu de 3 a 1 da Juventus. Mas aí o Ranieri chegou e me deu uma sequência boa, com oportunidades para jogar. Foi quando me firmei aqui, ganhei a confiança dele e de todo o grupo. O respeito deles. E desde então a relação tem sido muito boa.
Hoje você não só é titular de um grande clube da Itália, como conquistou a vaga deixando no banco de reservas um goleiro de seleção brasileira. Como é isso?
Aqui não tem só um goleiro de seleção, tem dois. O (Bogdan) Lobont é goleiro da seleção romena. Então eu me sinto muito contente, porque mostra que estou fazendo um belo trabalho. Eu acho que tem de haver respeito com todo mundo, todos com o mesmo objetivo para o clube e cada um buscar o seu espaço. Procurar crescer tecnicamente.
E o que você pensa com relação a seleção brasileira? Você tem a expectativa de ser convocado?
Eu acho que futebol é feito de momento e você tem de aproveitar as oportunidades certas. Acho que todo mundo quer ir pra seleção e eu não sou diferente, mas antes tenho de fazer as coisas bem-feitas aqui. Para que depois, quando der, eu esteja mais preparado ainda para esse tipo de desafio.
Você também tem passaporte italiano. Já pensou em algum momento em defender a seleção da Itália?
Não, não. Até hoje nunca tinha passado pela minha cabeça.
E como o time está encarando a ótima recuperação no Campeonato Italiano? Agora, apenas a cinco pontos atrás da Inter, dá para pensar em título?
É lógico que a gente pensa em ganhar o título. Desde que o Ranieri chegou, a gente tem procurado fazer uma coisa de cada vez. A gente tava lá na parte debaixo da tabela e veio numa recuperação realmente incrível. O primeiro objetivo era a gente classificar para a Liga Europa. E quando chegamos na zona da Liga Europa, veio o objetivo de chegar na Liga dos Campeões. Hoje já estamos nessa zona e o objetivo passa a ser o título. Mas tem de ser gradativo. Para que a gente não perca aquilo que já conquistou. Vamos ver, quem sabe nas rodadas finais a gente consiga estar na frente ou bem próximo do líder para que possa brigar pelo título, porque é algo super importante para todo mundo. Roma é uma cidade que vive intensamente o time e faríamos história se ganhássemos o Scudetto.
Como é a relação da torcida italiana, de Roma, com os jogadores?
Eu acho que eles vivem aqui até mais intensamente o futebol se comparado ao Brasil. Porque eles estão sempre no estádio, tem meios de contato como o Roma Channel, o canal do clube, que quase todos os torcedores têm. Eles te cobram, falam o que viram, são bem apaixonados. São bem intensos. Aqui tem uma coisa diferente de todos os outros lugares em que já joguei.
Em ano de Copa, impossível não perguntar. Quais são os favoritos para o título? Como está o clima na Itália?
Todo mundo fala da Copa por aqui, ainda mais chegando perto das convocações finais. E vários jogadores que vão para o Mundial sempre comentam alguma coisa. Com relação aos favoritos, acho que Brasil, Espanha e Itália são sempre favoritas. Acho que tem alguns jogadores que podem fazer a diferença e vamos torcer para que o Brasil possa chegar bem nas semifinais e finais. A gente torce muito para que o Brasil seja campeão. Seria muito importante para o país, para todos os profissionais que trabalham no meio do futebol e para a Copa que acontecerá no Brasil em 2014. É um trabalho que está sendo bem-feito, um projeto em longo prazo muito importante.
Você pensa em voltar a jogar no Brasil?
Eu penso, mas não agora. Eu vejo aí no Brasil muitos goleiros atuando até mais tarde, o Clemer que jogou até os 41 anos, por exemplo. E outros goleiros que estão conseguindo manter uma excelente forma física até bem tarde. Aqui na Itália também temos ótimos exemplos. O Peruzzi é um (o arqueiro italiano atuou até os 37 anos). Eu vou procurar me cuidar, estou com 31 anos e espero fazer mais um contrato aqui na Roma. Depois eu não sei. Eu quero voltar a jogar no Brasil e quem sabe depois de 2014. Durante a preparação o futebol deve mudar aí, com estádios novos. Muita coisa deve mudar e eu acho legal depois da Copa do Mundo estar vivendo isso como jogador aí no Brasil.
E de estrutura, quais as principais diferenças que você sente entre Brasil e Itália?
Algumas coisas que existem aqui não têm em outro lugar. Principalmente a segurança que você tem com seu contrato. Se o clube não te pagar, ele não pode inscrever jogadores no próximo campeonato. Você tem de assinar um documento confirmando que o clube te pagou. Senão a Federação não libera as inscrições para o próximo ano. De estrutura física, alguns clubes têm uma estrutura muito boa. Mas os estádios são até parecidos com o do Brasil, alguns deles. Mas estamos chegando perto e a gente torce para que o Brasil consiga evoluir nesse sentido, porque tem condições de fazer até melhor do que o que é feito na Europa.


