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“Tem que querer ser jogador”

Na última Copa Uefa, o Zilina surpreendeu a todos e quase conseguiu avançar da fase de grupos, em uma chave que tinha Hamburg, Aston Villa e Ajax. No final da temporada,m acabou com o vice-campeonato eslovaco e agora retorna à competição, batizada de Liga Europa. No time, um dos maiores destaques é o atacante brasileiro Adauto, de 29 anos, que fez fama no país jogando pelo Atlético Paranaense.

A Trivela conversou com o jogador, que se diz totalmente adaptado à vida no Leste Europeu. Adauto criticou brasileiros que vão para lá pensando só em ganhar dinheiro. Além disso, projeta uma boa participação na Liga Europa.

Qual sua expectativa para esta temporada com o Zilina?
Estamos ansiosos principalmente para a largada da Liga Europa. Depois da boa campanha que fizemos na última temporada, quando quase nos classificamos no grupo que tinha Hamburg, Aston Villa e Ajax. Permaneceram muitos atletas, mas temos ainda muitos jogadores em avaliação e o treinador está procurando as peças necessárias para nossas posições carentes.

Acha que o clube pode sonhar com algo nas competições europeias?
No ano passado tinha a certeza que nos classificaríamos para a fase de grupos da Copa Uefa. Nesta temporada acredito que vamos de novo. Pela boa campanha que realizamos, aumentamos nosso coeficiente, então não vamos enfrentar os adversários mais difíceis. Nós ganhamos do Aston Villa, na Inglaterra, quando eles estavam na quarta posição da Premier League. Não passamos de fase por dois pontos, por causa de um empate em casa com o Slavia Praga. Agora vamos pegar times teoricamente mais fracos. Temos pela frente o Dacia, da Moldova. Não conhecemos a equipe, mas já vimos dois jogos deles nesta pré-temporada. É um time rápido, que joga todo atrás, só com os dois atacantes na frente.

O futebol eslovaco é muito diferente do brasileiro?
É um futebol como o europeu, muito rápido e de contato físico. Quem mais se destaca aqui são os iugoslavos, que têm muita habilidade. No Zilina temos o Admir Vladavic, camisa 25, um meia bósnio que é sempre chamado para a seleção. Ele foi eleito o melhor jogador do último campeonato eslovaco, faz a diferença aqui. Além dele tem o Róbert Jez também, um meia eslovaco que já atuou no futebol tcheco.

Você citou a República Tcheca. Lá você teve uma passagem muito boa pelo Slavia Praga. Como foi?
É um clube que tenho muito carinho, foi minha segunda equipe europeia. Tive uma boa adaptação ao país e ao clube, tenho boas recordações de lá. A única lembrança ruim é uma lesão que tive no tendão de aquiles, que me deixou nove meses fora. Fora isso foi tudo muito bom. Mantenho contato até hoje com os jogadores, os treinadores que eu tive. Deixei o clube pela porta da frente.

E como foi protagonizar aquela campanha organizada pelo Governo tcheco contra o racismo? Sofreu demais com esse problema?
Nunca houve racismo comigo. Isso é quando alguém é impedido de entrar em um lugar, por exemplo, por causa da cor da pele. Agora, preconceito existe em todo lugar do mundo. Acho até que no Brasil seja maior do que em outros lugares. Aqui, os europeus não estavam acostumados, principalmente na época do comunismo. A campanha contra o racismo foi bem legal, era uma campanha ampla, contra qualquer tipo de preconceito.

Por que decidiu sair? Você acabou retornando ao Brasil, para jogar pela Ponte Preta e depois Santa Cruz.
Saí porque queria estar mais próximo da minha família. Já estava na Europa há quatro anos. Além disso, eu estava ficando escondido para o futebol brasileiro. No final, optei por voltar ao Brasil, mas não foi a melhor opção. Fiquei quase dois meses parado, procurando um clube. Foi quando meu procurador, o Juan Figer, encontrou a Ponte Preta. Lá eu tive uma boa estreia, marquei contra o Mogi Mirim. O técnico nessa época era o Vadão, mas depois ele saiu e chegou o Marco Aurélio. Ele me disse que não me conhecia e me colocou para treinar separado. Não podia ficar daquela maneira. E o time da Ponte era muito bom, com grande concorrência no ataque. Eu teria que estar voando para disputar posição, tive pouco tempo para me adaptar. Aí fiquei mais dois meses parado, quando o Santa Cruz foi atrás do meu procurador para contratar um atacante e ele me indicou. Lá também não fui bem. Foi um ano para esquecer, fiquei muito decepcionado com 2006. Com meu rendimento e as derrotas no aspecto profissional.

E apareceu a proposta do Zilina.
Decidi voltar para a Europa. Recebi a proposta do Zilina e não tive dúvidas. Já conhecia o estilo de jogo e não teria problemas com a língua.

Pretende retornar ao futebol brasileiro?
Não, não pretendo. Almejo algo melhor aqui, se fosse para retornar ao Brasil só se fosse para jogar no Santo André, que foi o clube que me revelou. E o Barueri também, que é um clube que eu estive visitando, não tem tantas polêmicas, oferece boas condições para trabalhar.

Como foi seu início de carreira no Santo André?
Eu sou de Santo André, fui formado nas categorias de base do clube. Moro a cinco minutos do estádio Bruno José Daniel. A avenida do estádio acaba na minha casa. Quando era criança, estudava em frente a ele, conheço tudo lá muito bem. Quem me descobriu foi o Tulica, um dos maiores atacantes da história do clube.

Você despontou na Copa SP de 2000. Como foi a negociação com o exterior?
Fui artilheiro dessa Copa São Paulo. Aí, antes mesmo da competição terminar, o Central Espanhol, clube do Juan Figer, me comprou. Quando o torneio acabou, assinei um contrato de sete anos com o Bayer Leverkusen e fui emprestado para o Atlético Paranaense. O time estava na Libertadores, e tinha montado dois times. Eu atuava no reserva e fui artilheiro do Campeonato Paranaense. Daí o Christopher Daum, técnico do Leverkusen, veio me ver. Ele me disse que era o melhor momento da minha carreira e que eu tinha que ser emprestado para o futebol europeu. Eles tinham uma boa parceria com o Sporting de Gijón e fui para lá.

O que deu errado na Espanha?
Assinei um contrato de dois anos, mas só fiquei um. Hoje eu digo para os jogadores mais jovens, que se eu tivesse a cabeça que tenho atualmente, teria ficado quietinho esses dois anos, me adaptando ao futebol europeu. Mas na época eu tinha só 18 anos, era muito jovem, e o Sporting tinha dois jogadores da seleção russa no ataque. Era bem complicado também.

De volta ao Brasil, conseguiu reerguer a carreira no Atlético Paranaense?
Não dá para dizer que eu reergui, porque o Atlético Paranaense foi o pontapé inicial da minha carreira. O Santo André foi a base, o Atlético a televisão. Lá fui campeão brasileiro em 2001. Hoje, tenho certeza que se você fizer uma pesquisa com os atleticanos, todos se lembram muito bem de mim.

Hoje em dia você auxilia o Zilina na contratação de atletas brasileiros?
Eles sempre pegam informações comigo. Quando algum empresário oferece um jogador, eles me consultam para saber quem é. Hoje o mais importante é o caráter do jogador. Muitos vêm aqui, assinam um contrato e seis meses depois vão embora. Pegam o dinheiro das luvas e vão. Para vir ao Leste Europeu tem que querer ser jogador, não só ganhar dinheiro. Ver o Leste Europeu como um pontapé para um grande centro europeu. O Zilina, por exemplo, investe muito na base, e recentemente o diretor geral viajou comigo ao Brasil e fomos conhecer a estrutura do São Paulo. A diretoria sãopaulina nos permitiu ver os atletas que não estavam sendo utilizados nos profissionais e fazermos propostas. Escolhemos dois, mas ofereceram um valor e não chegaram a um acordo. Até disseram para mim que jogador brasileiro quer primeiro ganhar dinheiro e depois jogar futebol. Respondi que não é assim. Quando você vai no São Paulo, um clube que paga bem até para garotos, tem que saber que a qualidade dos atletas é outra.

Como tem sido viver na Eslováquia?
Estou bem adaptado. Eu morava em Praga, uma cidade com um milhão e meio de habitantes. Zilina tem 100 mil no total. É pequena, tranquila. O único problema hoje é que tenho uma filha adotada no Brasil e estou aguardando a liberação de um juiz de Santo André para ela viajar com minha esposa. Então estou sozinho há alguns meses já. Me disseram que esse processo levaria de dois a três meses, mas já faz três meses que estou no aguardo. Tenho que esperar, assim como qualquer cidadão comum.

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Equipe Trivela

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