Tcheco: “O time era uma interrogação”

Os primeiros meses de 2008 foram bastante atribulados na Azenha. O Grêmio demitiu um técnico que não perdeu jogo algum. Depois, foi eliminado do Campeonato Gaúcho diante do Juventude e caiu nos pênaltis diante do Atlético-GO na Copa do Brasil. Nem parecia que, no final do ano, esse time chegaria à última rodada com chances de conquistar o terceiro título brasileiro de sua história.
A desconfiança era justificada. Até o capitão gremista e responsável por levantar a taça, Tcheco, admite isso. “O primeiro semestre do Grêmio foi ruim, então o time era mesmo uma interrogação”, analisa em entrevista à Trivela. O meia até foge do discurso rancoroso que normalmente os jogadores de um time em alta têm com os críticos. “É normal haver esses comentários negativos. Isso não menosprezava os jogadores que estão aqui, porque não era uma crítica maldosa”.
O curitibano não esconde nem que o time caiu de produção no segundo turno, o que provavelmente custou o título. “Tivemos lesões e não conseguimos repetir a mesma equipe como fizemos no primeiro turno. Além disso, também é natural uma equipe não ter o mesmo padrão no campeonato todo porque é uma competição muito equilibrada”.
Ter essa autocrítica só é possível pelo status que Tcheco alcançou no elenco tricolor, mesmo tendo chegado no meio do ano com a responsabilidade de substituir Roger. Em um elenco de garotos como Léo, Thiego, Anderson Pico, Rafael Carioca, William Magrão e Douglas Costa, o meia de 32 anos usou a experiência e o fato de já ter defendido o Grêmio com sucesso para se tornar um líder. Por isso, ninguém melhor para comentar a campanha do Tricolor, vice-campeão brasileiro de 2008.
Você chegou ao time com o Campeonato Brasileiro iniciado, mas conquistou rapidamente a liderança dentro do grupo. Como foi a sua adaptação, sobretudo com o Celso Roth?
Para conquistar o respeito, principalmente dos treinadores, tem de ser na base do trabalho: treinando sério, procurando jogar da melhor forma possível. Confiança se conquista, não se compra.
É muito diferente trabalhar com o Roth e com o Mano Menezes?
Ambos trabalham muito e têm personalidade parecida. Gostam de trabalhar o grupo, são muito francos com os jogadores, procuram tranqüilizar os atletas e serem coerentes o máximo que podem. A maior diferença entre eles é o estilo de ser. O Roth é mais fechado, mais durão, enquanto o Mano é mais tranqüilão.
Você voltou ao clube num momento em que o time ficou órfão do Roger, que vinha fazendo um campeonato bastante elogiado. Houve pressão por isso?
Quando o Roger saiu, ficou tudo sobrecarregado para mim. Não a responsabilidade de levar a equipe para a frente, mas a missão de substituir um grande jogador, porque acabei entrando com a camisa dez, no lugar dele. Mas, com o passar dos jogos, fui absorvendo as coisas e acabei encaixando na equipe. Nosso primeiro turno foi impecável. Tanto que é o primeiro turno que nos manteve em condições de brigar pelo título até o final.
Apesar de o time ter liderado o Campeonato Brasileiro por muitas rodadas, boa parte da imprensa não apostava no Grêmio campeão. A que você atribui essa desconfiança?
Primeiro, porque é uma equipe jovem. Segundo, porque não era, no início do campeonato, uma equipe muito conhecida individualmente. Assim, é normal quem for analisar de fora chegar a esse tipo de conclusão. Porque, queira ou não queira, o primeiro semestre do Grêmio foi ruim, então o time era mesmo uma interrogação.
Para os jogadores também havia essa interrogação?
Eu não estava aqui no começo, mas quando cheguei, senti a equipe muito tranqüila a respeito disso, levando jogo a jogo. Quando a gente viu, já estava na liderança. Acho que é comum ter esses comentários negativos. Isso não menosprezava os jogadores que estão aqui, porque não era uma crítica maldosa. Às vezes a cobrança é muito grande nesse sentido, mas ninguém pára para pensar nisso: a equipe que o Grêmio tem, formada por jovens, já está disputando o título.
Por que o Grêmio perdeu força no segundo turno?
Um pouco foram as lesões, sobretudo porque não conseguimos repetir a mesma equipe como fizemos no primeiro turno. Apesar do STJD ter nos complicado em alguns julgamentos, acho que somente eu fui suspenso, com dois jogos. Além disso, também é natural uma equipe não ter o mesmo padrão no campeonato todo porque é uma competição muito equilibrada.
Qual foi o momento mais delicado do time no campeonato?
Foi quando a equipe não conseguiu mais repetir uma escalação consecutiva, como no primeiro turno. E aí a equipe começou a oscilar um pouquinho.
Na goleada sofrida contra o Inter, você se envolveu numa confusão com o Edinho e acabou expulso. Ficou com a sensação de ter prejudicado o time?
Esse fato aí foi lamentável. Eu fui muito prejudicado. Quando levei o pisão, o Edinho quase quebrou minha perna. Na hora, lógico, ninguém tem sangue de barata, fui tomar satisfação com ele. Mas não o agredi fisicamente, nem o agredi verbalmente! Só fui tomar satisfação. Lembro que falei: “Você está louco? Quer quebrar minha perna?”. Mas aí os jogadores começaram a se envolver num empurra-empurra. Acabei não fazendo nada e fui expulso junto com o Edinho. Como ele também saiu, não tive essa sensação de ter atrapalhado o time.
Outro momento complicado do Grêmio foi a derrota por 3 a 0 para o Cruzeiro, sobretudo por tomar um gol com 14 segundos. Faltou concentração nesse jogo?
Concentração não faltou. Foi uma fatalidade, um acidente de trabalho que infelizmente nos custou caro. O problema é que, quando começa o jogo e toma-se um gol assim, temos que mudar o esquema tático que planejamos durante a semana. Isso aí nos atrapalhou porque tínhamos um planejamento tático bem definido.
Em que momento ficou a sensação de que o time era candidato ao título?
Eu tive uma sensação de que iríamos brigar até o final quando abrimos seis pontos de diferença [a partir do empate com o Fluminense na 24ª rodada, quando o Grêmio chegou a 49 pontos, contra 43 de Palmeiras e Cruzeiro]. Ali, pensei comigo: “Agora, com certeza, estamos na briga pelo título diretamente”. Como faltavam muitas rodadas, não dava para ter certeza de que o título viria, mas tive a convicção de que estávamos no caminho certo.
No episódio da invasão da torcida no treino, após o empate por 1 a 1 com o Figueirense, você defendeu os torcedores. Qual foi o tom das cobranças e o saldo dessa conversa?
Eu defendi a torcida porque ela veio sem violência. Esse é o primeiro ponto. Aconteceu nesse ano de ter bomba, no Flamengo. Isso aí não leva a nada, não vai somar nada. Agora, o torcedor do Grêmio chegou pedindo para os diretores para ter uma conversa sincera com a gente. Fui a favor porque isso já ocorreu no ano passado e é bom também para o jogador enxergar o lado dos torcedores, saber o que eles pensam. Eles falaram que iriam nos apoiar até o final. Que era para a gente “suar sangue”, como se diz aqui no Sul, que certamente os resultados viriam e voltaríamos a ser líderes. Foi uma conversa até boa.
No ano passado, você passou por vários problemas musculares, o que não se repetiu nesta temporada. Foi feito algum trabalho especial em relação à parte física?
Todo dia, antes do treinamento, faço um tratamento preventivo à lesão, com um pouco de reforço muscular. Às vezes, quando tenho uma dorzinha – e é normal o jogador conviver com dor – trato para que não se agrave. E esse cuidado está funcionando, graças a Deus. Desde que fui para a Arábia, não tive lesão nenhuma. Às vezes o jogador mais novo não tem essa sensibilidade porque a recuperação é muito mais rápida. Mas eu, já com 32 anos, tenho que ter cuidado, com bastante alongamento, fisioterapia. Está dando resultado.
O contrato que você fez com o Al Ittihad em 2007 foi de apenas seis meses. Você já planejava voltar ao Grêmio neste ano?
A minha intenção era voltar para o futebol brasileiro. Não tinha, como não tenho mais, intenção de sair. Mas no futebol é tudo muito dinâmico. Na época que fui à Arábia, ficou apalavrado que eu daria preferência ao Grêmio em caso de retorno. Gosto muito daqui, e acabou dando certo novamente.
Como foram suas duas passagens pelo futebol saudita?
Conquistamos dois campeonatos continentais e vários nacionais. Ter sido bicampeão consecutivo foi algo inédito. Quando você passa por uma equipe e deixa um currículo bom, com títulos assim, acaba vindo o reconhecimento. E eu fiz uma história muito boa lá, até porque chegamos ao Mundial, que foi o auge do clube.
Mas você não disputou o Mundial.
Eu retornei para o Santos. Meus diretos eram dos árabes ainda, mas eu pedi para vir para o Brasil porque estava muito difícil ficar direto lá. Fiquei seis meses no Santos, e depois retornei ao Al Ittihad para terminar o contrato. Daí fui para o Grêmio, fiquei dois anos, e acabei retornando de novo porque fizeram uma proposta que era muito boa financeiramente.
Se você tivesse ficado no Brasil em 2005, acha que teria ido para a Europa?
Em 2005, não tenho tanta certeza. Mas na primeira vez em que fui para a Ásia, em 2003, eu vinha jogando muito bem no Coritiba. Nessa época, certamente eu teria ido para a Europa. Mas, dentro do futebol, a gente tem que as oportunidades quando aparecem e, naquele momento, a proposta que surgiu foi da Arábia. Não pensei duas vezes.


