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Steve Darby: O Sul da Ásia visto por um inglês

O treinador inglês Steve Darby é um conhecedor profundo do futebol no sudeste asiático. Aventureiro e de mente aberta, este amante do cricket, aos 52 anos, é casado com uma vietnamita e já passou por Austrália, Vietnã, Cingapura e atualmente dirige o Perak, da Malásia. Neste contato, Mister Darby compartilha com a Trivela suas vivências e visões acerca do futebol asiático, além de declarações surpreendentes, como afirmar que o desconhecido brasileiro Egmar, ídolo em Cingapura, tem nível para jogar no futebol inglês. Confira!

Por qual motivo escolheu o mercado asiático para trabalhar?
Resposta simples… dinheiro! Foi na época que eu estava no Sydney Olympic (1998), na Liga Australiana de Futebol, e o Johor (Malásia) ofereceu três vezes mais do que eu ganhava. Naquela época, o futebol na Ásia era mais profissional do que na Austrália. Logo, aprendi a apreciar o clima e a paixão do público daqui pelo futebol… que é como no Brasil!

Como foi trabalhar com os brasileiros Peres e Egmar, no Home United, de Cingapura, onde, juntos, vocês ganharam muitos títulos?
Peres era um jogador brilhante… se ele tivesse ritmo e mais velocidade, jogaria facilmente na Europa. Sua técnica e visão de jogo eram fora-de-série. Egmar poderia facilmente ter jogado na segunda divisão inglesa. Ele é mais inglês do que brasileiro, tem grande resistência e força. Eu trabalhei no Sheffield Wednesday. Por isso, eu sei que ele jogaria porque era muito forte e tecnicamente superior a muitos jogadores na Inglaterra. Ambos foram modelos de profissionais e deram muito crédito ao Brasil. Eles sempre mostraram muito orgulho de serem brasileiros. Eu indiquei os dois para a direção do Perak, mas eles passaram da idade limite para entrar no futebol malaio.

Que lembranças você tem daquela conquista do titulo cingapureano 2003, pelo Home United?
Eu me lembro de um jogo em que estávamos com três jogadores a menos e a outra equipe estava vindo pra cima. Os sete jogadores de linha da nossa equipe correndo para se defender, inclusive Peres… Eu sabia que era uma equipe com verdadeiro espírito e desejo de ganhar tudo. Eles agiram como homens, num grande pacto de autodisciplina e automotivação.

Quais as diferenças entre o futebol em Cingapura e na Malásia?
Grandes multidões! Aqui, nos jogos da minha equipe, o Perak, colocamos cerca de 30 mil pessoas no estádio. Quando trabalhava no Home United, em média, apenas 2 mil pessoas assistiam aos jogos. A liga malaia também é mais forte. Aqui, os árbitros deixam você roubar a bola do adversário em jogadas ríspidas e dão menos cartões amarelos. Egmar ia adorar esse futebol de choque, já o Peres seria chutado o tempo todo…

Quais as ambições do Perak na Super League, da Malásia? É a equipe favorita ao título junto com o Selangor?
Nesta temporada, o Selangor está com um time fraco, sem estrangeiros e apenas com jovens locais. Perak, Perlis e Pahang são os favoritos.

As contratações do Perak para esta temporada foram Khalid Jamlus, Che Lah, Nanthakumar e Wing Hoong. São jogadores de ponta na Malásia?
Sim. Esses foram os jogadores que eu consegui trazer para o clube. Khalid, ‘Nantha’ e o meu capitão, Ahmad Sharul, jogaram contra o Brasil num amistoso. Foi o grande momento da carreira deles.

Keita Mandjou (Guiné), Kukoc (Croácia), Mohd Nasril e Traore Abdelaye (Burkina Fasso) são os melhores jogadores da sua equipe?
Provavelmente sim, são os mais consistentes. O capitão Ahmad Sharul também é um grande jogador, mas precisa superar sua lentidão. Têm o ‘Nantha’ (Nanthakumar), que é como Gilberto Silva: não é muito assediado pelos fãs, mas é precioso para o treinador e companheiro dos jogadores dentro do grupo.

Cingapura é um território minúsculo anexado à Malásia, tem um futebol que se profissionalizou há apenas 10 anos, ambos são países com a mesma composição étnica e, como o senhor disse, Cingapura tem uma população menos interessada em futebol em relação à Malásia. Por que a seleção de Cingapura é superior à seleção malaia?
Uma boa questão! Malásia deveria ser superior… mas algumas políticas e coberturas negativas da imprensa daqui fazem com que muitos jogadores não queiram atuar pela seleção malaia.

Você trabalhou no futebol vietnamita, que é conhecido pela corrupção fora de campo. Como é o futebol naquele país?
Vietnã tem um grande futuro… São 80 milhões de pessoas, fanáticas por futebol, mas também há muitas favelas. É um povo muito pobre que ama o futebol. O problema é exatamente a corrupção e os jogos de resultados armados.

Muitos treinadores consagrados disseram que um dos obstáculos para o futebol no Leste Asiático evoluir é a fragilidade física e a baixa estatura dos jogadores. Você compartilha essa opinião?
Não! Essa é uma afirmação ingênua. A Coréia do Sul na Copa de 2002 derrubou esse mito. O preparo físico não tem esse peso todo que as pessoas imaginam dentro do futebol. Cafu, por exemplo, tem uma resistência tremenda, mas não é um jogador mais interessante do que o Romário.

Como você vê a evolução do futebol no Sul da Ásia para o futuro?
Em comparação com Japão, Coréia e China, essa região precisa melhorar muito, oferecendo melhores condições de treino e melhor administração, com dirigentes profissionais e não amadores. Aqui há grandes jogadores e grandes multidões. Vejo que a falta de melhores condições de treino e bons dirigentes está atrapalhando o progresso.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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