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Seis títulos, um esquema

Com um novo técnico (inclusive nos aspectos da duração da carreira e da idade) e um elenco renovado, esperava-se para ver o que o Barcelona poderia fazer, na temporada 2008/09. O começo foi irregular, mostrando até uma derrota para o Numancia, logo na primeira rodada do Campeonato Espanhol, e um empate com o Racing Santander, na segunda rodada.

Tudo começou a mudar a partir da sexta rodada. O time treinado por Josep Guardiola enfrentaria um adversário que conseguira bons reforços, o Atlético de Madrid. E destroçou os Colchoneros, goleando-os por 5 a 1. Foi o primeiro sinal de que o Barcelona encontrara o caminho a ser seguido. E ele foi seguido, resultando na temporada mais vencedora da história dos Blaugranas: seis troféus nas seis competições disputadas na temporada 2008/09, feito coroado com a vitória no Mundial de Clubes, contra o Estudiantes.

Surpreendentemente, a equipe não teve muitas variações em seu esquema tático, ao longo da temporada. O 4-3-3 foi o esquema predominante na equipe de Guardiola. Predominante mesmo, daqueles esquemas nos quais a equipe joga partidas a fio. Quando muito, o time ia a campo num 4-1-2-3. Talvez, a chave do “Barça das seis Copas” esteja num ponto que tornou conhecido, enquanto jogador, Johan Cruyff, o ideólogo maior do modo com que o Barça joga: o tal do “Futebol Total”, a alta rotatividade, a troca frenética de posições em campo.

Rodando, rodando…

Evidentemente, nada disso seria possível sem a capacidade dos jogadores barcelonistas. Mas, ainda assim, continua sendo impressionante o modo como eles trocaram de posição, num estilo altamente fluido em campo. São poucos os atletas que passaram a temporada jogando numa mesma posição, ininterruptamente. Além de, obviamente, Valdés, há Piqué, na quarta-zaga; Daniel Alves, na lateral direita; Abidal, na lateral esquerda; houve Eto'o, no meio do ataque; e fica-se por aí.

Há exemplos e exemplos de como os jogadores variavam de posição. Pegue-se, por exemplo, Seydou Keita. O volante malinês estreou na Liga dos Campeões 2008/09, contra o Sporting, jogando como o único meio-campista mais recuado, num 4-1-2-3, com Xavi e Iniesta cuidando da marcação, à frente. Para, no jogo seguinte, contra o Shakhtar Donetsk, ir fazer parte da dupla armadora, pela esquerda, com Xavi, deixando a marcação a cargo de Yaya Touré.

No mesmo jogo, por sua vez, Iniesta foi atuar na ponta-esquerda do ataque da equipe. Mas ele também podia atuar na ponta-direita, como fez no jogo de volta das oitavas-de-final da Copa do Rei, contra o Atlético de Madrid. E, evidentemente, na meia-esquerda, fazendo uma dupla de alta qualidade com Xavi, que jogava predominantemente pela direita.

E havia ainda Henry, que atuava predominantemente pela esquerda do ataque, mas bem podia jogar no meio, em lugar de Eto'o – bem como Bojan, um dos reservas constantemente utilizados por Guardiola. E Messi, que podia atuar pelos dois lados do ataque, quando não chegava pelo meio.

Além dos fatores técnicos, tal alternância de posições fazia com que Guardiola tivesse variações táticas que lhe salvassem em momentos de dificuldade. Como, por exemplo, naquela que foi, talvez, a época do ápice barcelonista: a fase final da Liga dos Campeões. Tudo começou no jogo de ida das semifinais, contra o Chelsea. Rafa Marquez lesionou o joelho e não poderia mais jogar na temporada. Na volta, no Stamford Bridge, coube a Yaya Touré (que já jogara na zaga algumas vezes) ocupar a lacuna. Porém, veio a suspensão de Daniel Alves para a final, pelo terceiro cartão amarelo, e a de Abidal, pela expulsão.

A histórica classificação não conseguia eclipsar o fato de que Guardiola tinha um seríssimo problema para resolver. Diante do que se viu, na final contra o Manchester United, o problema foi otimamente resolvido. Afinal de contas, Puyol, que tinha capacidade de jogar nas duas laterais, foi ocupar a vaga de Daniel Alves. Yaya Touré jogou novamente na zaga. E Sylvinho foi para a lateral esquerda. E todas essas variáveis já haviam sido vistas em partidas anteriores – fato para o qual poucos atentaram.

Com a vaga aberta no meio-campo, coube a Sergio Busquets ocupar a posição mais marcadora, originalmente feita por Yaya Touré. Espaço livre para que Iniesta e Xavi fossem a chave do domínio barcelonista, tocando a bola com o já famoso talento para trocar passes a fio, sem errar um, e impondo rapidez na saída de bola – como visto no gol de Eto'o que abriu o placar dos 2 a 0 em Roma.

Os méritos de Guardiola

Mas havia ainda os talentos de Guardiola, que às vezes também são pouco notados. Um deles, a qualidade de saber trocar rapidamente os jogadores em campo, em casos de adversidade. Um deles viu-se na partida de volta da semifinal da Copa do Rei, contra o Mallorca. O Barça, que ganhara o jogo de ida por 2 a 0, perdia por 1 a 0, já tivera um pênalti contrário (defendido por Pinto) e ainda viu a expulsão de Martin Cáceres, improvisado na lateral esquerda, aos seis minutos do segundo tempo.

Bastaram três minutos para que Guardiola tirasse Iniesta de campo, substituindo-o por Rafa Marquez, que foi para o miolo de zaga, enquanto Puyol mandou-se para a lateral esquerda. Mais quatro minutos, e Bojan saiu para a entrada de Messi – autor do gol que empatou o jogo e colocou o Barcelona na rota da final, que venceria.

Além disso, Guardiola tinha talento para colocar um meio-campo mais leve e ofensivo em campo, com Keita, Xavi e Iniesta. E, dependendo do decorrer do jogo, fortalecer a marcação, colocando Busquets no lugar de um dos três. E até mesmo improvisando Gudjohnsen no meio-campo, aumentando o porte físico da equipe.

O islandês, aliás, não deixa de ser um dos exemplos de outro talento de Guardiola. Discretamente, o nativo de Santpedor sabe retirar do elenco aqueles atletas que acabam não satisfazendo a necessidade de alternância de posições – enquanto fortalece aqueles que a satisfazem.

Aos primeiros, restou sair do clube (caso de Gudjohnsen, que não saiu-se bem no meio) ou serem emprestados (caso de Hleb, que só conseguiu jogar pelos dois lados do ataque, e Cáceres, que foi ruim quando saiu do miolo de zaga, sua origem). E mesmo a saída de Eto'o deveu-se a isso: o camaronês é primordialmente um finalizador. E foi substituído por Ibrahimovic, mais técnico, o que possibilita colocá-lo pelos flancos. Enquanto isso, Pedro, que pode jogar pelos dois lados, no meio-campo e no ataque, ganhou força e virou uma espécie de “curinga” barcelonista.

Foi assim, alternando posições, que o Barcelona conseguiu tornar-se o Barça das Seis Copas. E não precisou nem sair do 4-3-3.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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