Se ela ainda existisse, daria um trabalho…
No futebol, existem algumas máximas e rótulos que permanecem, independentemente do tempo transcorrido após o acontecimento. Assim, a seleção do Brasil de 1982 tornou-se uma das maiores da história, mesmo sem conquistar a Copa daquele ano; a Holanda, bi-finalista de mundiais, figura como a maior injustiçada na história da competição; a Alemanha sempre foi competitiva e dona de um futebol pragmático, e por isso chegou a tantas finais; e a União Soviética, sádica devoradora de criancinhas nas horas vagas e nos bastidores políticos, impunha medo nos gramados pela sua condição de superpotência militar e pela preparação física dos seus atletas, mas não chegava às conquistas.
Partindo deste mundo de mitos futebolíticos, e propondo um mergulho na história, que tal aceitar o desafio de provar que a URSS foi sim vencedora no futebol, e por méritos próprios? E, sendo ainda mais ousado, por que não demonstrar que os soviéticos foram mais vítimas que algozes cruéis, corruptos e corruptores ao longo de sua curta, mas rica história no maior esporte mundial?
Sendo assim, parte-se da premissa básica de que a extinta seleção vermelha era semelhante a uma outra equipe que joga de vermelho, a brasileiríssima Portuguesa de Desportos (com todo o respeito): nadava muito, mas sempre morria na praia. E assim, propõe-se a brincadeira abaixo, dividida em duas partes.
A União Soviética, no futebol, não é de nada!
Esta suposta certeza fundamenta-se no desempenho, digamos, pífio de suas seleções em Copas do Mundo. Muitos se admiram que o nome da SSSR (sigla que, no alfabeto cirílico, torna-se CCCP, presente na camisa da equipe vermelha) não conste no rol das melhores do torneio. Vários estranham também como um time com uma preparação física tão rígida, comparável a treinamentos militares, não conseguiu ir muito longe em mundiais. Bem, o futebol não é só Copa do Mundo: pegue-se a Eurocopa, por exemplo. A primeira edição da competição continental de seleções do Velho Mundo aconteceu em 1960. Um doce para quem adivinhar o vencedor. Os soviéticos foram à França, onde a fase final da competição foi disputada. Atropelaram a Tchecoslováquia nas semifinais por 3 x 0. Vale lembrar que esse adversário seria somente o vice-campeão mundial dois anos depois, no Chile. Na final, o time vermelho passou pela sempre difícil seleção da Iugoslávia por 2 a 1, e levantou o primeiro caneco da Eurocopa.
Nas três edições seguintes do torneio, a União Soviética conquistou dois vices (1964 e 1972) e um quarto lugar (1968). Nesse ano, a equipe só não chegou à outra final por um fato inusitado. A semifinal contra a Itália terminou com um empate por 0 a 0. O critério de desempate mais justo e criativo que a competição européia adotara foi… o cara e coroa. E na moedinha, a Azzurra avançou à final.
A performance mais modesta na Eurocopa nos anos seguintes poderia ser até munição para quem tacha a URSS de ineficiente. A equipe ficou pelas quartas em 1976, e não se classificou para as edições de 1980 e 1984. Em 1988, em plena decadência vertiginosa do império vermelho, no plano político, a URSS chegou a mais uma final do torneio. Na decisão, qualquer time que tivesse enfrentado aquela Holanda de Gullit e Van Basten teria sucumbido. Placar final: 2 a 0 para a Oranje.
Os arautos da teoria de uma URSS pipoqueira poderiam alegar: a sua força é regional, só se dava bem em Eurocopas. Vamos falar dos Jogos Olímpicos então. Os soviéticos foram a Melbourne, na Austrália, em 1956, na sua segunda disputa olímpica no futebol. A primeira havia acontecido quatro anos antes, em Helsinque, na Finlândia, quando os soviéticos ficaram contra a Iugoslávia, nas oitavas.
Quatro anos depois, os soviéticos estavam em uma final olímpica. Como adversária, a mesma Iugoslávia. Na revanche, os soviéticos levaram a melhor (1 a 0) e conquistaram o primeiro ouro. O segundo veio em 1988, quando derrotou o Brasil na prorrogação por 2 a 1. A seleção ainda conta com três bronzes em seu histórico (1972, 1976 e 1980).
Enfim, a lista de títulos, embora não comparável a de seleções mais tradicionais, e com mais anos de história no futebol, como Argentina, Alemanha e Itália, é extensa e deve ser respeitada.
A União Soviética, no futebol, não é de nada! (Parte 2)
Esta suposta certeza fundamenta-se no desempenho, digamos, pífio de suas seleções em Copas do Mundo. Você já deve ter lido esta afirmação antes, não? Não há como negar que, em Copas, a URSS só conseguiu, no máximo, um quarto lugar em 1966. Vale lembrar que os húngaros ajudaram a eliminar o Brasil na primeira etapa daquela Copa, mas os soviéticos derrubaram os rivais por 2 a 1. Depois, perdendo por 2 a 1 para Alemanha e Portugal, não chegou a final e não triunfou na decisão do terceiro lugar diante de Eusébio e de seus companheiros portugueses.
Em 1958, primeira Copa disputada pelo país, dois times de amarelo foram seus algozes. Primeiro, o Brasil, na primeira fase: derrota por 2 a 0, o que obrigou o time a derrotar a Inglaterra em um jogo-desempate (1 a 0) que o classificou para a fase seguinte. A alegria, no entanto, durou pouco, e a derrota por 2 a 0 para a Suécia mandou-o de volta para casa mais cedo. Começava aí a fama de fracassados de luxo da potência socialista.
É fato, a força da URSS nunca se concretizou em Copas. Entretanto, analisando a fundo alguns jogos dos comunistas em mundiais, tem-se um dos reais motivos que atrapalharam a caminhada da potência no torneio: a arbitragem. Em 62, a seleção vencia a Colômbia, equipe mais fraca da chave, por 4 a 1. O árbitro João Etzel Filho, por um acaso, brasileiro, entra em ação e a partida termina 4 a 4, após intervenções no mínimo duvidosas do brasileiro. O próprio juiz reconheceu que manipulou o resultado final da partida, em reação à invasão soviética na Hungria seis anos antes. Os pais do árbitro eram húngaros.
Em 1970, os ex-socialistas chegaram às quartas, e colidiram com um difícil Uruguai. Em partida dura, o 0 a 0 manteve-se quase até o final, quando Cubillas aproveitou uma bola que sobrou na linha de fundo e cruzou para Esparrago marcar de cabeça, a um minuto do fim da prorrogação. O lance é duvidoso, pois não se sabe se a bola que Cubillas centrou na área havia ultrapassado a linha de fundo. Os soviéticos juram que sim.
Em 1982, a sorte soviética poderia ter sido melhor se na sua estréia, diante do Brasil, o árbitro tivesse andado na linha. Após fazer 1 a 0, em falha clamorosa do goleiro Valdir Perez, os vermelhos reclamaram, com razão, de dois pênaltis sofridos e não assinalados. O Brasil virou, e os soviéticos ficaram com o segundo lugar no grupo, classificando-se para uma chave que abrigava Bélgica e Polônia nas quartas. Basta dizer que os poloneses foram os terceiros colocados do mundial da Espanha, e num empate em 0 a 0 diante da seleção polonesa, a URSS não conseguiu chegar às semifinais.
No México, quatro anos depois, os problemas vieram na segunda fase, contra a Bélgica. Os Diabos Vermelhos eram medianos, venceram com dificuldade o Iraque por 2 a 1 na primeira fase e vinham de um empate em dois gols com os paraguaios. Assim, a arbitragem decidiu equilibrar um pouco as coisas para o lado belga, e numa disputa finalizada na prorrogação, foram validados dois gols irregulares dos belgas.
A pior Copa de todas, a da Itália em 1990, não conta para a URSS. Em franco processo de desmantelamento político, o time não soube separar a geografia dos gramados, e o time saiu na primeira fase, perdendo para Argentina e Romênia pelo mesmo placar (2 a 0), e fazendo a sua última partida em Mundias com o nome de União das Repúblicas Socialistas Soviéticas contra Camarões, encerrando com chave de ouro a sua participação em competições mundiais batendo os africanos por 4 a 0.


