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“Se afastam da linha de frente”

O preparador físico José Lummertz tem larga experiência em equipes do interior da Arábia Saudita e seu último trabalho foi no Al-Tai, recém rebaixado na Liga Saudita. Franco nas respostas, o gaúcho de 41 anos (foto) fala das dificuldades de se trabalhar num clube com mentalidade pouco profissional e jogadores indisciplinados.
“Fumam muito, dormem pouco e não se cuidam. Quando precisam se superar, se afastam da linha de frente”.

O Al Tai caiu para 2ª divisão na Arábia Saudita depois de 7 anos na elite. A falta de qualidade do plantel foi o único motivo?
Ficamos tristes, mas temos que saber que resultado de campo ocorre em conseqüência de uma série de fatores. No Futebol da Arábia Saudita, a Liga tem 12 clubes, existem 5 grandes, mais 2 ou 3 médios, e os outros, incluindo o Al Tai, ficam sempre brigando para permanecer porque caem dois.

Vocês também tiveram muitos problemas, não?
Na Arábia, com exceção dos clubes ricos, o grupo de atletas é quase permanente por vários anos, não há muita rotatividade no elenco, e o que faz a diferença são os três estrangeiros que são contratados. No inicio o Al Tai contratou um técnico e um atleta da Franca, e mais um senegalês e um marroquino, não se preocuparam em levar um Preparador Físico que cuidasse do condicionamento. Chegamos em novembro, para fazer a 7ª rodada, com o atleta francês, de bom nível, com problemas de relacionamento. Ele acabou indo embora, o marroquino era zagueiro e o senegalês, um atacante rápido, mas sem habilidade foram os que sobraram.

Uma avalanche de problemas.
E como precisávamos lutar para pontuar, a dificuldade encontrada foi enorme, trabalhamos muito, mas os resultados não ocorreram e os duelos com equipes maiores foram sempre desfavoráveis, ocasionando uma situação irreversível. Do que se conclui que a falta de qualidade foi um dos motivos, mas a falta de planejamento do clube, na minha opinião, foi o principal.

Quais as principais dificuldades para se trabalhar numa equipe pequena da Arábia Saudita?
O maior problema é ficar longe da família porque no interior da Arábia Saudita a religião Islâmica é mais rígida e impõe dificuldades maiores para quem leva a esposa e filhos. No mais, embora equipes menores, sem grandes dificuldades no dia a dia.

Foi difícil implantar seus métodos na preparação física dos jogadores árabes? Eles assimilam bem?
Foi minha quarta temporada lá, a primeira na condição de auxiliar técnico e de preparação, o técnico foi o Fernando Soares. Eles não tem um biótipo físico muito forte, tem costumes que prejudicam o condicionamento físico, fumam muito, dormem tarde, e o futebol não é profissional ao extremo. Mas os atletas assimilam sem maiores problemas as cargas de treinamentos, ate porque existe sempre um cuidado com a individualidade do atleta, e isso se aplica em qualquer lugar do mundo.

O ataque foi um dos dois piores do campeonato também. O nivel dos atacantes era tão ruim assim?
O senegalês e o atacante Salmam fizeram 5 gols, tivemos enormes problemas com os atacantes. O senegalês ficou muito tempo no Departamento Médico, quando chegamos ele já estava em tratamento para uma distensão muscular na posterior da coxa, ele ajudou pouco, o saudita Salmam, também ficou alguns jogos fora, e os outros eram mais jovens e sem muita experiência. Na minha opinião, o poder de enfrentar problemas é baixo para o jogador saudita, quando perceberam as dificuldades de resgatar o clube para uma situação melhor, foram se afastando da linha de frente.

Sabemos que Al Ittihad, Al Hilal e Al Shabab tem ‘Sheikhs’ milionários. No caso do Al Tai, que é um clube modesto, como é administrado? Os dirigentes tem mentalidade profissional?
O futebol saudita é bancado pelo governo através da Federação, que é chefiada por um Príncipe. Há uma verba que é liberada para os clubes, mais cotas de televisão, propagandas, mas lógico que o reforço financeiro destas equipes das grandes cidades é enorme e os times menores não tem como competir. Os dirigentes são amadores, eleitos ou nomeados, e os diretores são remunerados, mas só nos grandes clubes. Nos pequenos, pegam algum ex-atleta, amigo do clube e botam lá para que a sorte ajude.

Quais os jogadores que mais te impressionam nesta temporada no futebol saudita?
Jogadores sauditas há o Yasser Al-Qahtani, que sem dúvida é um jovem atacante do Al Hilal com boa qualidade de finalização, é a grande esperança para a seleção. Um atacante do Al Ahli, muito bom, Malik Moad, já com mais experiência, rápido, atacante também, mas de flanco direito. Entre os estrangeiros o Magno Alves, atacante brasileiro que esta no Al Ittihad foi muito bem, o Camacho, ex-Botafogo, que esta no Al Shabab, o Marcelo Tavares, zagueiro, ex-Avaí e que já esta há quatro temporadas no Al Hilal. Tem um líbio no Al Hilal, meio-campista, Tarik, muito bom, jogaria em qualquer clube no Brasil.

O Al-Deayea, maior goleiro do país, foi revelado no Al Tai. Ainda se fala dele no clube?
Sim, ele faturou mais um titulo pelo Al Hilal, ganhou o Campeonato, apesar dos 40 anos, ainda esta a frente dos outros goleiros do país. Ele foi formado no Al Tai, tem familiares lá, o goleiro Yasser que joga no Al Tai é primo dele, e ele ainda tem um sobrinho jogando na Sub-21 do Al Hilal, Mohammed Deayea. Ele virou uma espécie de lenda no Al Tai, falam muito nele sim.

O que achou do trabalho de base no país?
O trabalho de base até onde conheço, equipes médias e pequenas, é deficiente, e não por falta de instrutores, mas pela falta de cultura. Eles começam tarde, vão para clubes treinar já com 13 ou 14 anos, não se preocupam muito com tática e fundamentos técnicos, acabam assimilando desde a base um futebol de muita disposição física, correm muito, mas jogam pouco. Tem um vasto campo de trabalho na base, mas pagam relativamente pouco e estão optando por levar técnicos tunisianos e egípcios, alguns até bons, mas a maioria de conhecimentos ineficientes.

Os estádios estão sempre cheios na liga saudita e não ouvimos falar de violência. Qual é o perfil do torcedor saudita?
O torcedor saudita é apaixonado por futebol, nas equipes grandes, sem duvida, a torcida comparece em numero bem maior e sempre nos grandes jogos há estádios cheios. A violência é muito reprimida, até pela situação de governo que se apresenta lá, não há muita tolerância, e todos atos violentos são coibidos com duras penas impostas pelo regime. Eventualmente existem alguns torcedores que se excedem um pouco, mas longe de comparar com os nossos aqui do Brasil.

Pela sua experiência em equipes do interior do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Goiás, ignorando questões de adaptação, algum jogador do Al Tai teria condições de jogar nas equipes modestas desses estados?
Em minha três temporadas anteriores trabalhei na 2ª divisão saudita (Al-Raed), lá trabalhei com alguns que talvez poderiam atuar em equipes menores daqui, mas nesta última temporada no Al Tai não havia nenhum com qualidade e perfil para jogar no Brasil, mesmo em níveis menores. Por exemplo, trabalhei no Esportivo de Bagé no ano passado e montamos um grupo que pra mim com certeza brigaria pelo titulo na liga saudita…

A cidade de Ha´il é puramente agrícola. Você conseguiu achar boas opções de lazer por lá? O que tem de especial para se conhecer na cidade?
É uma cidade que fica há 600Km da capital Riad, e há 450Km da fronteira do Iraque, deve ter lá mais ou menos 150 mil habitantes. Lazer, não há muito o que fazer, no máximo jantar em um restaurante árabe ou ir a uma casa de Xixa Narguile só para passar tempo, tirar alguma foto de Camelo ou passear no deserto. Fora isso, trabalho e internet para ficar em contato com a família no Brasil.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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