Reação com riscos

29 de agosto de 2009. Segunda rodada do Campeonato Italiano. Alvo de grandes desconfianças desde o início da temporada, por vários fatores – a perda de Kaká, a aposta arriscada em Leonardo como substituto de Carlo Ancelotti, a timidez excessiva nas idas ao mercado de transferências, a já criticada falta de renovação no elenco -, o Milan via os piores temores de uma campanha ruim no Campeonato Italiano parecerem confirmados, com uma goleada por 4 a 0. Pior: o algoz era justamente a arquirrival Internazionale.
Embora a dura derrota no Derby della Madonnina fosse, por si só, alarmante, o pior era o modo apático como o time de Leonardo se deixara superar pelos interistas, no San Siro. Porém, o alarme definitivo de que algo realmente precisava ser mudado veio na segunda rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões. Mesmo que o placar não fosse tão acachapante quanto no clássico de Milão (1 a 0), a derrota era para o Zürich, da Suíça. Em pleno San Siro. Novamente, sem demonstrar condições para mudar o resultado do jogo, por mais que tentasse. Ficava a pergunta: qual a razão do desempenho tão desanimador do Milan?
Aos poucos, foi-se chegando a uma resposta satisfatória. O 4-3-1-2, esquema que tantas alegrias deu na época de Ancelotti – mais precisamente, no título da LC 2006/07 -, já não cabia mais no Milan. Primeiramente, porque Pirlo e Gattuso, até pela idade, já não formavam uma dupla tão voluntariosa na marcação (responsabilidade de “Rino”) e eficiente na saída de bola (quesito em que o camisa 21 milanista sempre foi ótimo). Mas, acima de tudo, porque Kaká, o elemento de ligação entre meio-campo e ataque, já não estava mais lá. E Ronaldinho, o substituto do compatriota em tal papel, claramente encontrava dificuldades para carregar a bola até a dupla de atacantes.
O dia final do 4-3-1-2, no Milan de Leonardo, chegou em 27 de setembro. Pela sexta rodada da Serie A do Calcio, um empate sofrível contra o Bari, no San Siro. 0 a 0. Para piorar, em vários momentos, os Galletti é que estiveram mais próximos da vitória. Era a hora definitiva da mudança. Que já veio na rodada seguinte, contra a Atalanta: Leonardo já escalava o time num 4-4-2. No meio-campo, Flamini, Pirlo, Gattuso e Seedorf formavam a linha de quatro, enquanto Alexandre Pato e Huntelaar ficavam responsáveis pela finalização.
Foi difícil, mas, por sorte, Ronaldinho entrou bem no jogo e conseguiu marcar o gol que definiu o empate, por 1 a 1. No jogo seguinte, o Milan enfrentaria a Roma (outro grande que estava em relativa dificuldade). Começou perdendo com um gol rápido, em falha de recuo de Thiago Silva. Porém, Pato e Ronaldinho, os atacantes da vez, se esfalfaram no ataque, para aproveitar as chances. Foram premiados: cada um marcou um gol, na virada por 2 a 1.
O renascimento em Madri
Contudo, a marca do renascimento milanista na temporada veio, indubitavelmente, no dia 21 de outubro. Após os jogos usados como ajuste, os Rossoneri foram ao Santiago Bernabéu, enfrentar o Real Madrid, pela terceira rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões, com o 4-3-3 que seria sua formação tática, dali por diante. Sem Gattuso, contundido, Ambrosini se encarregaria de dividir o trabalho de combate e saída de bola, junto de Pirlo. E Seedorf seria, mesmo fazendo parte de uma linha de três, o principal armador a auxiliar o trio formado por Pato, Inzaghi e Ronaldinho.
Por uma falha de Dida, novo titular do gol após a lesão de Storari, o Real abriu o placar. Golpe fatal? Não. Até porque, no segundo tempo, Pato, Pirlo e Seedorf formaram a trinca que levaria o Milan a uma reação honrosa e notável, resultando nas duas surpreendentes viradas, que levaram a equipe à vitória, por 3 a 2. O caminho estava encontrado, o ânimo estava recobrado.
Desde então, foi com o 4-3-3 que o Milan foi até onde está hoje: na vice-liderança da Serie A, e com a classificação para as oitavas de final da LC. Reação mais do que justa. Afinal, finalmente Ronaldinho achou uma posição onde rende melhor, pela esquerda do ataque. Do lado oposto, Pato também exibe ótimas atuações. E, na armação, Seedorf voltou a ocupar o papel de protagonista. Além disso, Dida, apontado como decadente, parece ter voltado a um bom nível. Justamente após a falha cômica no gol de Raúl, naquele 3 a 2 contra o Real Madrid.
Porém, não é por ter calado aqueles que já previam um futuro catastrófico que o Milan já é um time pronto para voltar a reinar na Europa. Não é. Em primeiro lugar, porque as duas laterais ainda sofrem com a falta de gente confiável. Oddo e Zambrotta já não têm grande vigor físico, enquanto falta mais técnica a Abate e Luca Antonini. Com isso, a boa dupla do miolo, formada por Nesta e Thiago Silva, fica sobrecarregada, ainda que tenha atuações satisfatórias (principalmente o brasileiro). No meio-campo, Pirlo e Ambrosini não exibem a mesma força defensiva de Gattuso, ainda que tentem – e Flamini não melhora a situação.
Finalmente, no ataque, ainda não existe um finalizador confiável. Huntelaar mostra claras dificuldades de adaptação ao futebol italiano, ao passo que Inzaghi já não tem mais pique para aguentar uma sequência de jogos completos. Resta Borriello, que até tem correspondido, mas sem tanta freqüência. Fica a esperança na contratação de um novo atacante, na próxima janela de transferências.
Enfim, o Milan melhorou, e afastou, pelo menos por ora, o temor de passar vergonha. Mas ainda não é um time seguro. O desafio é o de manter o esforço no ataque – sem enfraquecer a já frágil defesa. É o que os adversários tentarão, daqui para a frente.


