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Quem deixará o melhor legado em 2018 e 2022?

 

Melhoria na infraestrutura, criação de empregos, projeção internacional, turismo, autoestima da população, inclusão social por meio do esporte. Quando se fala em candidatura para receber Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, fala-se muito em legado e como o evento pode melhorar a vida do país-sede. Também se fala no lado obscuro, como uso de força política, dinheiro por baixo do pano e troca de favores para convencer os eleitores.

No final das contas, raramente muda o enredo. Deve ser assim neste dia 2, quando a Fifa anunciará as sedes das Copas de 2018 e 2022. A escolha deve se dar pelo lado “obscuro” e o discurso oficial vai na linha do legado social. Mas que impacto o torneio pode ter no futebol de cada país? Aumentará sua popularidade? Motivará a construção de grandes estádios? Criará novas potências internacionais? Será mais um país a contratar os melhores jogadores brasileiros?

Deixando de lado as coisas que mais deveriam importar e menos importam – o legado social – e as que menos deveriam importar e mais importam – as manobras políticas -, vamos analisar o que a Copa do Mundo de 2018 e 2022 podem fazer pelo futebol dos países candidatos.

Obs.: como a briga pela Copa de 2018 envolve países do mesmo continente, foram colocados itens continentais na ficha técnica.

 

COPA DE 2018

 

BÉLGICA / HOLANDA

FUTEBOL LOCAL
Ranking Fifa: 2º (Holanda) e 62º (Bélgica)
Estádios 5 estrelas Uefa: 2
Ranking Uefa (de ligas nacionais): 9º (Holanda) e 13º (Bélgica)
Liga nacional: 16 (Bélgica) e 18 times (Holanda)
Atual campeão: Anderlecht (Bélgica) e Twente (Holanda)

CANDIDATURA
Sedes: Amsterdã, Antuérpia, Brugges, Bruxelas, Charleroi, Eindhoven, Enschede, Genk, Ghent, Heerenveen, Liége e Roterdã
Estádios novos ou com reformas profundas: 5
Maior estádio: Niewe Kuip (Roterdã), 82.800 lugares
Sedes sem time na 1ª divisão: 0 (Bélgica e Holanda)

Belgas e holandeses já sediaram em conjunto uma Eurocopa (2000), com sucesso. O evento serviu para a modernização de diversos estádios, além do “eixo” Amsterdã-Roterdã-Bruxelas. A Copa do Mundo teria efeito parecido. Em países cujo futebol se concentra em poucas cidades, a oportunidade de levar grandes jogos para centros menores distribuiria melhor o ânimo pelo esporte no interior. Um fator importante em um momento em que as ligas nacionais da Europa se medem pela força de seus mercados e os times grandes dependem da força dos médios e pequenos para enriquecerem. Ainda assim, pela cultura futebolística das duas nações, o efeito não deve ser tão forte ou duradouro.

ESPANHA / PORTUGAL

FUTEBOL LOCAL
Estádios 5 estrelas Uefa: 7
Ranking Fifa: 1º (Espanha) e 8º (Portugal)
Ranking Uefa (de ligas nacionais): 2º (Espanha) e 6º (Portugal)
Liga nacional: 20 (Espanha) e 18 times (Portugal)
Atual campeão: Barcelona (Espanha) e Benfica (Portugal)

CANDIDATURA
Sedes: A Coruña, Alicante, Badajoz, Barcelona, Bilbao, Gijón, Lisboa, Madri, Málaga, Múrcia, Porto, San Sebastián, Santander, Sevilha, Valência, Valladolid, Vigo e Zaragoza
Estádios novos ou com reformas profundas: 6
Maior estádio: Camp Nou (Barcelona), 100.000 lugares
Sedes sem time na 1ª divisão: 3 (Espanha) e 0 (Portugal)

É a candidatura europeia com mais estádios 5 estrelas. Mesmo assim, o principal impulso que a Copa daria ao futebol ibérico seria nas arenas. Portugal não teria alterações, pois entraria com apenas duas sedes, ambas bem servidas. A Espanha, porém, não tem infraestrutura compatível com a força de sua liga. Estádios em cidades importantes como Bilbao, Valência, A Coruña e até Barcelona precisam de melhorias. Alguns projetos já estão em andamento ou na prancheta, mas o Mundial aceleraria o processo de reforma.

INGLATERRA

FUTEBOL LOCAL
Estádios 5 estrelas Uefa: 2
Ranking Fifa: 6º (Inglaterra)
Ranking Uefa (de ligas nacionais):
Liga nacional: 20 times
Atual campeão: Chelsea

CANDIDATURA
Sedes: Birmingham, Bristol, Leeds, Liverpool, Londres, Manchester, Milton Keynes, Newcastle, Nottingham, Plymouth, Sheffield e Sunderland
Estádios novos ou com reformas profundas: 3 ou 4
Maior estádio: Wembley (Londres), 90.000 lugares
Sedes sem time na 1ª divisão: 6

O efeito seria mais simbólico. Em relação a estádios, força econômica da liga nacional e paixão pelo jogo, os ingleses disputam com os alemães o posto de líder mundial, mas vencem em projeção internacional. Realizar a Copa ajudaria a reforçar a posição da Inglaterra como maior centro do futebol mundial e da Premier League como campeonato nacional mais importante do planeta. Em um país cujos clubes já têm presença forte no exterior, esse fator deve ser considerado.

RÚSSIA

FUTEBOL LOCAL
Estádios 5 estrelas Uefa: 1
Ranking Fifa: 13º
Ranking Uefa (de ligas nacionais):
Liga nacional: 16
Atual campeão: Zenit

CANDIDATURA
Sedes: Ecaterimburgo, Kaliningrado, Kazan, Krasnodar, Moscou, Nijni Novgorod, Rostov, Samara, São Petersburgo, Saransk, Sochi, Volgogrado e Yaroslavl
Estádios novos ou com reformas profundas: 15
Maior estádio: Luzhniki (Moscou), 89.318 lugares
Sedes sem time na 1ª divisão: 7

Em relação a infraestrutura, seria mais ou menos como a Copa de 2014 no Brasil. Investimento pesado em estádios novos e modernos, alguns não tão necessários pela falta de clubes fortes para utilizá-los. Para o legado ser algo além de elefantes brancos, o futebol local precisa se estruturar para mobilizar a torcida em torno de seus times, transformando equipes de cidades médias em forças regionais relevantes.

 

COPA DE 2022

 

AUSTRÁLIA

FUTEBOL LOCAL
Ranking Fifa: 20º
Liga nacional: 11 times (um neozelandês)
Atual campeão: Sydney

CANDIDATURA
Sedes: Adelaide, Brisbane, Canberra, Geelong, Gold Coast, Melbourne, Newcastle, Perth, Sydney e Townsville
Estádios novos ou com reformas profundas: 6
Maior estádio: Melbourne Cricket Ground (Melbourne), 100.000 lugares
Sedes sem time na 1ª divisão: 2

Não aparece no noticiário todo dia, mas o futebol cresce bastante na Austrália. Jogos da seleção nacional lotam as arquibancadas com frequência e partidas da A-League têm cada vez mais atenção da população local, mesmo com concorrentes de peso como futebol australiano, rugby league, rugby union (o rúgbi mais conhecido) e críquete. Nenhum dos estádios previstos para a Copa teria o futebol como prioridade, mas só a realização do evento já mobilizaria os australianos em torno do esporte, consolidando como mais uma opção viável de lazer e projetando a liga local como uma das mais fortes da Ásia.

CATAR

FUTEBOL LOCAL
Ranking Fifa: 113º
Liga nacional: 12 times
Atual campeão: Al-Gharrafa

CANDIDATURA
Sedes: Al Khor, Al Rayyan, Al Wakrah, Ash-Shamal, Doha, Lusail e Umm Salal
Estádios novos ou com reformas profundas: 11
Maior estádio: Lusail National (Lusail), 86.000 lugares
Sedes sem time na 1ª divisão: 2

O futebol catariano é fraco e o país nem tem população suficiente para utilizar adequadamente tantas arenas modernas. Se a Copa de fato for para o país, o governo local teria de criar todo um movimento para levar ao Catar diversos eventos internacionais, sobretudo os que pudessem atrair turistas estrangeiros. Caso de Mundial de Clubes, Copa do Mundo de rúgbi, grandes eventos de atletismo, Fórmula 1, shows e festivais de música pop. Improvável.

COREIA DO SUL

FUTEBOL LOCAL
Ranking Fifa: 39º
Liga nacional: 15 times
Atual campeão: Jeonbuk

CANDIDATURA
Sedes: Busan, Cheonam, Daegu, Daejon, Goyang, Gwangju, Incheon, Jeju, Jeonju, Seul, Suwon e Ulsan
Estádios novos ou com reformas profundas: 1
Maior estádio: Sang Am (Seul), 83.000
Sedes sem time na 1ª divisão: 1

Quando se candidatou para receber a Copa de 2002, a Coreia do Sul queria consolidar sua posição como principal nação futebolística da Ásia e ganhar força como centro de porte médio no mundo. O resultado foi parcial. De fato, o envolvimento dos sul-coreanos com o futebol aumentou bastante e a seleção local teve melhores resultados internacionais. No entanto, o fato de dividir o Mundial com os rivais japoneses deixaram a sensação de que “faltou algo” e a liga local ainda não tem apelo suficiente entre os torcedores para ocupar devidamente os grandes – e caríssimos – estádios construídos há oito anos. A Copa de 2022 ajudaria a finalizar o trabalho.

ESTADOS UNIDOS

FUTEBOL LOCAL
Ranking Fifa: 24º
Liga nacional: 16 times (um canadense, expandirá para 18 – três canadenses – em 2012)
Atual campeão: Colorado Rapids

CANDIDATURA
Sedes: Atlanta, Baltimore, Boston, Dallas, Denver, Filadélfia, Houston, Indianápolis, Kansas City, Los Angeles, Miami, Nashville, Nova York, Phoenix, San Diego, Seattle, Tampa e Washington
Estádios novos ou com reformas profundas: 0 ou 1
Maior estádio: Rose Bowl (Los Angeles), 94.542 lugares
Sedes sem time na 1ª divisão: 8

Os norte-americanos ganham espaço no cenário futebolístico. A MLS já se expandiu a ponto de se tornar uma liga de porte relevante e a população local começa a entender que o futebol pode ser um esporte divertido. O objetivo é crescer até ser considerada uma das grandes ligas dos Estados Unidos (onde hoje só estão NFL, MLB, NBA e NHL) e, consequentemente, passar a ter um dos mais ricos – e melhores – campeonatos nacionais do mundo. A realização da Copa não é fundamental para isso ocorrer, tampouco daria a certeza absoluta que o sonho se concretizará. Mas a chance de sucesso seria muito maior, e o tempo poderia ser reduzido em mais de uma década.

JAPÃO

FUTEBOL LOCAL
Ranking Fifa: 30º
Liga nacional: 18 times
Atual campeão: Kashima Antlers

CANDIDATURA
Sedes: Kashima, Kobe, Niigata, Oita, Osaka, Saitama, Sapporo, Shizuoka, Tóquio, Toyota e Yokohama
Estádios novos ou com reformas profundas: 1
Maior estádio: Nissan (Yokohama), 72.327 lugares
Sedes sem time na 1ª divisão: 3

A situação do Japão pós-Copa de 2002 é parecida com a da Coreia do Sul. O evento deveria completar o trabalho da década de 1990, que colocou e solidificou o futebol como terceiro esporte do país (atrás de beisebol e sumô). O fato de dividir o Mundial com os sul-coreanos e de ficar atrás dos rivais na classificação final deixou um gosto amargo na boca dos japoneses. O futebol não perdeu popularidade, mas seu crescimento desacelerou. Pior, para mostrarem mais competência que os vizinhos, foram gastas fortunas na construção de arenas. O objetivo com a Copa de 2022 é reiniciar o processo e, claro, dar mais utilidade a estádios que nem sempre têm a ocupação necessária para se viabilizarem economicamente.

Texto originalmente publicado no Balípodo.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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