Quando o Nottingham foi gigante

Um dos objetivos do francês Michel Platini desde que assumiu a presidência da Uefa é o de dar mais espaço na Liga dos Campeões aos clubes considerados pequenos na Europa. A competição de clubes mais importante do mundo sempre foi dominada pelas equipes consideradas gigantes no continente, e poucas foram as vezes em que os ‘azarões’ conseguiram levantar a taça. A primeira delas aconteceu na temporada 1978/9, com o modesto Nottingham Forest, da Inglaterra.
O Nottingham, fundado em 1865, passou a primeira metade do século XX longe das disputas por títulos, e depois de um longo período disputando as diferentes divisões do país, o clube parecia destinado ao papel de figurante no futebol inglês.
A sorte da equipe começou a mudar em 1975, quando o técnico Brian Clough, que já havia levado o modesto Derby County às semifinais da Liga dos Campeões, assumiu o comando da equipe. O novo treinador, no entanto, não causou impacto em sua primeira temporada, quando o Nottingham terminou na modesta oitava posição da Segunda Divisão.
O trabalho de Clough começou a render frutos no ano seguinte, quando seus comandados conseguiram levar o Nottingham à elite do futebol nacional. Na temporada 1977/1978, o clube surpreendeu a Inglaterra ao conquistar o Campeonato Inglês, garantindo ainda sua participação na edição seguinte da Copa dos Campeões.
O Nottingham teve pela frente na primeira fase da competição européia o poderoso Liverpool, que era o atual bicampeão do torneio. Mesmo tendo vencido o Campeonato Inglês do ano anterior com uma vantagem de sete pontos sobre os Reds, a equipe de Clough era considerada a zebra do confronto, por causa da larga experiência dos rivais na competição.
Mas o que se viu em campo foi diferente. Fazendo a primeira partida em seu estádio, o City Ground, o Nottingham não se sentiu intimidado em sua estréia internacional e abriu o placar ainda no primeiro tempo, com o atacante Garry Birtles. O Liverpool voltou para a etapa complementar disposto a empatar a partida, mas a forte defesa do Nottingham não dava espaços e nas duas oportunidades que os Reds tiveram os chutes de Kenny Dalglish pararam nas mãos do goleiro Peter Shilton. No fim, os donos da casa ainda marcaram o segundo, garantindo uma boa vantagem para o jogo de volta.
As duas equipes voltaram a se encontrar em Anfield. O Liverpool não estava disposto a abrir mão do sonho do tricampeonato, e atacou o Nottingham Forest desde os minutos iniciais. No entanto, o sistema defensivo dos visitantes não deu qualquer chance aos Reds, e o empate sem gols garantiu Clough e seus comandados na rodada seguinte.
Depois de eliminar os campeões europeus no confronto doméstico, o Nottingham teria de encarar o AEK de Atenas na segunda fase da competição. As duas equipes já tinham se enfrentado em um amistoso de pré-temporada, que terminou em um empate por 1 a 1. Para a primeira partida, disputada na Grécia, os ingleses abriram mão da retranca adotada em Anfield e conseguiram uma importante vitória por 2 a 1.
O herói da partida foi o veterano Frank Clark, então com 35 anos, que marcou o primeiro do Nottingham de falta e fez o cruzamento para o meia Garry Birtles, contratado naquele mesmo ano por apenas 2 mil libras de uma equipe amadora, confirmar a vitória. Após o triunfo na Grécia, a classificação às quartas-de-final foi garantida com uma goleada por 5 a 1 no City Ground.
O sucesso na Copa dos Campeões era repetido nos campeonatos domésticos. Em dezembro de 1978, o Nottingham Forest alcançou o incrível recorde de 42 jogos sem derrota no Campeonato Inglês, que foi quebrado somente 26 anos depois pelo Arsenal.
O adversário das quartas-de-final seria o Grasshoppers, da Suíça, que na rodada anterior havia eliminado ninguém menos que o Real Madrid. No primeiro jogo, disputado no City Ground, os suíços abriram o placar com sua principal estrela, o atacante Claudio Sulser, mas o Nottingham conseguiu a virada com Birtles e o meia John Robertson. Na etapa complementar, Shilton salvou uma bola praticamente indefensável de Sulser, e nos minutos finais Archie Gemmill e Larry Lloyd deixaram o placar em 4 a 1, praticamente garantindo a classificação.
Antes de enfrentar o Grasshoppers no jogo de volta da Copa dos Campeões, o Nottingham encarou o Southampton pela final da Copa da Liga Inglesa. Com uma bela atuação de Garry Birtles, que marcou dois gols, Clough e seus comandados levaram mais um troféu para City Ground. De volta à competição européia, um empate em 1 a 1 na Suíça, com gols de Sulser e Martin O'Neill, garantiu a classificação.
O Nottingham encararia o Köln, da Alemanha, na semifinal, e o primeiro jogo seria no City Ground. Logo no começo da partida, os alemães calaram os mais de 40 mil torcedores presentes no estádio ao abrir 2 a 0 no placar. A reação começou com Birtles, que diminuiu de cabeça. Pouco depois, Bowyer empatou e John Robertson virou o placar. Os torcedores já comemoravam o triunfo quando o Köln empatou a partida em 3 a 3 e conseguiu uma bela vantagem para decidir a vaga na decisão em casa.
Até a temporada de 1978/9, nenhum clube tinha conseguido vencer fora de casa em uma semifinal da Copa dos Campeões, e o Köln estava tão confiante na classificação que chegou encomendar ingressos para a decisão e reservou um hotel em Munique, palco da final. No entanto, a eliminação não estava nos planos do Nottingham e, aos 20 min do segundo tempo, Bowyer marcou o gol que garantiu aos ingleses a vitória por 1 a 0 na Alemanha.
Apenas dois anos depois de voltar à elite do futebol inglês, o Nottingham estava na decisão da competição de clubes mais importante do mundo. O adversário seria o Malmö, da Suécia, que havia eliminado Monaco, da França, Dynamo Kiev, da Ucrânia, Wisla Cracóvia, da Polônia, e os austríacos do Austria Viena.
Os ingleses tinham uma arma poderosa para a decisão, no estádio Olímpico de Munique. Meses antes, Clough decidiu usar o dinheiro que o clube ganhou com a conquista do Campeonato Inglês e a classificação para a Copa dos Campeões na contratação do atacante Trevor Francis junto ao Birmingham pelo valor recorde de 1 milhão de libras. No entanto, por causa das regras da Uefa o jogador não pôde estrear até a final. Além disso, os ingleses pareciam estar com a sorte a seu lado, já que seis titulares do Malmö – incluindo os dois zagueiros – estavam machucados e não jogariam.
Como a decisão não reuniu nenhuma das principais equipes da Europa, o estádio não chegou a ter sua lotação esgotada na partida. Com um clima de estranheza vindo da arquibancada por conta dos improváveis finalistas, Nottingham e Malmö entraram em campo, no dia 30 de maio de 1979, para decidir o principal título europeu.
Sem poder contar com mais da metade de sua equipe para a decisão, o Malmö decidiu apenas se defender em Munique, e a partida se transformou em um jogo de ataque contra defesa. O Nottingham conseguiu criar boas chances no primeiro tempo, mas suas esperanças de abrir o placar acabavam sempre nas mãos do goleiro Jan Möller. A sorte dos ingleses mudou aos 45 min, quando Robertson pegou a bola pela esquerda, passou por dois defensores e cruzou para Trevor Francis completar de cabeça.
O Nottingham ainda criou algumas boas chances na etapa complementar, mas como o Malmö não demonstrava qualquer poder de reação, os ingleses tiveram apenas de esperar pelo apito final para escrever seus nomes na história do futebol mundial.


