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Quando a Inter foi Ambrosiana

24 de abril de 1938. Há 70 anos, com gols de Meazza e Frossi, a Ambrosiana derrotava o Bari por 2 a 0 e se sagrava campeã italiana, vencendo uma equilibrada disputa com Juventus e Milan que durou até a última rodada. Nunca ouviu falar da Ambrosiana? Você que pensa. Assim foi conhecida a Internazionale no período entre 1928 e 1945, por causa do governo fascista que dominava a Itália.

Por determinação do regime, as cidades teriam de limitar o número de clubes de futebol. Assim, houve diversas fusões que deram origem aos times como conhecemos hoje. Da união entre os rivais Palestra Ginnastica Fiorentina Libertas e Club Sportivo Firenze, surgiu a Associazione Calcio Fiorentina. Na capital, a Associazione Sportiva Roma nasceu de três clubes – Alba Audace, Roman e Fortitudo Pro Roma.

No final da temporada 1927/28, o prefeito de Milão, Ernesto Torrusio, decidiu impor a fusão entre o clube que dirigia, a Unione Sportiva Milanese, e a Inter. Medida conveniente para Torrusio, que ascendia à primeira divisão, e para a Fiumana, de Fiume (atual Rijeka, na Croácia), que ganharia um lugar na segundona. Era mais uma forma artificial de tentar atribuir sentimento nacionalista a uma cidade que não pertencia à Itália poucos anos antes.

A política fascista de combate aos estrangeirismos impôs ainda que fosse abandonado o nome “Internazionale”, não apenas pelo motivo óbvio, mas também por remeter à Internacional Comunista. O clube foi, então, batizado como Società Sportiva Ambrosiana, em homenagem a Santo Ambrósio, padroeiro de Milão. Um ano depois, virou Associazione Sportiva Ambrosiana.

O uniforme 'nerazzurro' deu lugar a um branco, com a cruz vermelha símbolo da cidade (reproduzida na atual segunda camisa da Inter) e, no centro, o “fascio littorio”, símbolo fascista. A experiência durou apenas alguns meses, e logo, por pressão popular, voltaram as cores originais.

A primeira temporada da Ambrosiana foi um desastre. O time terminou em sexto lugar no grupo B (a disputa ainda era regionalizada), e a situação financeira era problemática. Torrusio recorreu a Oreste Simonotti, ex-presidente do Casale, que tomou as rédeas e recolocou o clube nos trilhos.

Em 1929/30, quando o campeonato foi disputado pela primeira vez em grupo único, sem divisões regionais, veio o terceiro scudetto da equipe, o primeiro como Ambrosiana. O jovem Giuseppe Meazza, de 19 anos, marcou nada menos que 31 gols, marca nunca igualada por um estreante na Série A.

O time-base tinha Degani; Gianfardoni, Allemandi; Rivolta, Viani, Castellazzi; Visentin, Serantoni, Meazza, Blasevich, Conti e era dirigido pelo húngaro Arpad Veisz – que morreria em 1944 no campo de extermínio de Auschwitz.

Na mesma temporada, a Ambrosiana alcançou as semifinais da Copa Mitropa, que reunia equipes da Europa central (Itália, Áustria, Hungria, Romênia, Iugoslávia e Tchecoslováquia), mas foi eliminada pelo Sparta Praga com uma veemente goleada de 6 a 1 no jogo de volta.

Para a campanha seguinte, o time carregaria o 'scudetto' nas camisas. A única lembrança da U.S. Milanese ficou nas golas, quadriculadas. O time não conseguiu repetir o bom desempenho e acabou apenas em quinto lugar. Seguiu-se nova mudança na presidência: saiu Simonotti, entrou Ferdinando Pozzani, o “General Po”, como ficou conhecido por seus modos de comando. Os resultados em campo não vieram imediatamente, e a temporada 1931/32 acabou com a sexta colocação na tabela.

O time podia se chamar Ambrosiana, mas o grito de incentivo da torcida era sempre “Forza Inter”. Em 1932, a federação italiana autorizou o time a incluir uma referência ao nome “antigo”. Na temporada 1932/33, já como Ambrosiana-Inter, a equipe voltou a se credenciar como candidata ao título e terminou em segundo lugar, atrás apenas da Juventus, que alcançava o terceiro de uma série de cinco títulos. Um dos principais jogadores da Ambrosiana era o uruguaio naturalizado italiano Francesco Frione II, cujo desempenho convenceu Veisz – de volta ao clube após uma temporada no Bari – a barrar Umberto Visentin, um dos ídolos do título de 1930. O time chegou à sua primeira final na Copa Mitropa, mas perdeu para o Austria Viena por 3 a 1 depois de vencer o primeiro jogo, em casa, por 2 a 1.

O 'scudetto' de 1933/34 parecia muito próximo, especialmente depois de uma vitória por 3 a 2 no confronto direto sobre a Juventus, na Arena Cívica (o time só passou a dividir San Siro com o Milan no fim dos anos 40). No entanto, derrotas para Fiorentina e Torino nas últimas rodadas custaram o título, que foi novamente para a Vecchia Signora.

Na temporada 1934/35, a Ambrosiana sofreu um duro golpe em fevereiro, quando Frione, aos 23 anos, morreu de uma doença grave. Os 'nerazzurri' ainda chegaram à última rodada empatados em pontos com a Juve, mas perderam por 4 a 2 para a Lazio e viram a equipe de Turim se sagrar campeã com uma vitória sobre a Fiorentina. Coincidentemente, em 2002, a Inter perdeu aquele que seria seu primeiro 'scudetto' em 13 anos com uma derrota por 4 a 2 para a Lazio – e, tal como em 1935, a Juventus se beneficiou.

Após três vice-campeonatos consecutivos, vieram duas temporadas modestas: quarto lugar em 1936, com o técnico Albino Carraro, e sétimo em 1937, com Armando Castellazzi. Apesar do mau resultado, a direção manteve Castellazzi, volante campeão em 1930, à frente da equipe, e os frutos vieram com a montagem do time que conquistou o 'scudetto' de 1937/38, comandado em campo por um Meazza no auge, prestes a levar a Azzurra ao bicampeonato. A escalação mais utilizada tinha Peruchetti; Buonocore, Setti; Locatelli, Olmi, Antona; Frossi, Ferrara, Meazza, Ferrari, Ferraris II.

Castellazzi se aposentou após o título e foi substituído por Tony Cargnelli, técnico austríaco que promoveu uma revolução tática na equipe e prezou por uma defesa consistente. Durante a temporada 1938/39, o time sofreu a baixa de Meazza, com um problema de oclusão dos vasos sanguíneos dos pés, e acabou em terceiro lugar, atrás de Bologna e Torino. Cargnelli levou o clube a seu primeiro título na Copa da Itália, na final contra o Novara.

O Bologna seria rival da Ambrosiana na disputa pelo título de 1939/40. Os dois times chegaram ao confronto direito da última rodada separados por apenas um ponto – vantagem para a equipe de Milão. No jogo disputado em San Siro, que tinha maior capacidade que a Arena Civica, bastava o empate à Ambrosiana, mas Ferraris II marcou o gol da vitória por 1 a 0 que valeu o quinto 'scudetto'. O time-base: Peruchetti; Poli, Setti; Locatelli, Olmi, Campatelli; Frossi, Demaria, Guarneri, Candiani, Ferraris II.

Cargnelli saiu para o Torino, e o goleiro Giuseppe Peruchetti assumiu a direção do time, em parceria com Italo Zamberletti. A dupla abriu mão de contar com Meazza, recuperado do problema no pé, e o maior jogador do clube na década anterior se transferiu para o rival Milan. No reencontro com a Ambrosiana, marcou o gol do empate por 2 a 2, mostrando ao ex-time que ainda tinha condições de render em alto nível. No final, o Bologna deu o troco e foi campeão com quatro pontos de vantagem.

Em 1941/42, com Ivo Fiorentini, a Ambrosiana teve uma queda drástica de rendimento e acabou em 12º lugar. Pozzani deixou a presidência depois de dez anos, substituído por Carlo Masseroni. Giovanni Ferrari, bicampeão mundial como jogador, assumiu o time, mas não passou de um quarto lugar em 1942/43, antes da suspensão das atividades esportivas pela federação em função da II Guerra Mundial, o que limitou o futebol no país a competições regionais.

Com a queda do regime fascista, em outubro de 1945, Masseroni anunciou que o clube voltaria a se chamar Internazionale. Era o começo do domínio do “Grande Torino”, que conquistaria todos os 'scudetti' até ser dizimado pela tragédia de Superga, em 1949. A Inter se sagraria campeã em 1953 e 1954, em suas últimas glórias antes da venda para Angelo Moratti, em 1955, quando o clube passou às mãos da dinastia que se mantém até hoje.

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Equipe Trivela

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