Qual o preço de uma ofensa racial?
O racismo se instaurou definitivamente no futebol mundial. Hoje conhecemos casos em toda parte do continente europeu, em especial na Espanha, Alemanha e Portugal. Na América do Sul, Brasil e Argentina possuem diversos problemas de discriminações raciais.
A Fifa estipula multas na maioria das vezes simbólicas perto do poder financeiro que clubes e jogadores possuem na atualidade. Mas essas simples punições são capazes de abrandar a humilhação sofrida pelos atletas negros?
Evidentemente não. Um jogador que é alvo de preconceitos raciais se sente inferiorizado em relação aos demais. A ofensa, em grande parte das vezes, foge do campo de jogo. O atleta e a família dele são alvo de chacotas na rua, ou os filhos dele são ridicularizados na escola. Todo esse sofrimento naturalmente não é pago com uma quantia em dinheiro. É uma honra destruída.
A entidade máxima do futebol parece querer transformar a honra e a dignidade em algo que as cifras compensem. Para começar, o dinheiro arrecadado não vai ao atleta agredido. Essa multa é apenas para inibir futuras manifestações raciais por parte de torcedores e jogadores. Mas o que são alguns milhares de euros para clubes que gastam milhões anualmente em salários e contratações? Nem mesmo outras medidas parecem inibir o preconceito racial.
Em Portugal, a federação local tenta combater a discriminação racial da seguinte forma: qualquer ato racista de torcedor, dirigente ou atleta recairá sobre o clube ao qual pertencem. O time perderá três pontos e, em caso de reincidência, seis pontos serão retirados. Numa eventual terceira vez, a equipe será rebaixada automaticamente.
Porém, o racismo não é menor em gramados lusitanos. O lateral Janício, do Vitória de Setúbal, relata que a discriminação é generalizada em todo o país, sendo mais freqüente ao norte. Ele e alguns colegas já foram alvos de preconceito.
Tentando aproximar o leitor da questão, vale a pergunta: como você se sentiria se fosse alvo de racismo no seu trabalho por seu chefe ou por algum colega? No caso do futebol, as conseqüências são ainda mais graves, já que o atleta é uma pessoa pública e que muitas vezes é obrigado a ver a humilhação sofrida virar notícia.
Por conta dessa exposição, muitos atletas são xingados e ofendidos, mas preferem se calar a passar por tal constrangimento.
Vale ressaltar que essa questão está enraizada no futebol desde que ele foi criado. A diferença é que, antigamente, chamar um jogador adversário de ´macaco´, ´negrito´ ou coisas parecidas era normal. Tinha-se a idéia de que dentro do campo de jogo qualquer xingamento ou ofensa eram válidos para desestabilizar o rival.
Outro fato interessante a se dizer é que os maiores ídolos de todos os tempos no esporte são negros. O maior jogador da história e o melhor da atualidade são negros.
Na verdade, o mais importante não são as punições, mas sim as prevenções. Isso se faz com a conscientização dos atletas de que todos são iguais, independentemente de cor ou raça. Desse pensamento, compartilha o secretário-geral da FIFPro, Theo van Seggelen:
– Temos que ser duros contra o racismo. Mas, para combatê-lo, a prevenção é mais importante do que a punição. Os jogadores são exemplos importantes. Gostaria que a Fifa desse destaque a esses projetos, porque todos concordam que não pode haver racismo no futebol.
O fato é que medidas precisam ser adotados em prol do jogador discriminado, pois não é uma irrisória multa que vai apagar uma atitude tão recriminável. Cabe à Fifa e às federações locais estudar formas de erradicar o problema.


