Polônia e Ucrânia: situações distintas para Euro 2012

Já faz pouco mais de dez anos. Mas foi numa Eurocopa que o futebol mundial teve um dos primeiros exemplos de uma sede conjunta entre países. E deu certo, já que Bélgica e Holanda sediaram sem muitos problemas o torneio de 2000, considerado um dos melhores da história da competição – no aspecto técnico e no bom ambiente proporcionado pelas duas nações.
Pois bem. Finalizada a Copa de 2010, o Velho Continente já começa a se mobilizar para testemunhar mais uma Euro, a última com 16 equipes. E, novamente, dois países terão a missão de realizar o torneio em conjunto. A escolha das duas sedes, realizada em 2007, apontou uma mudança de paradigma em direção ao Leste Europeu: Polônia e Ucrânia tinham cinco anos para se prepararem rumo ao torneio, resultado da força política que Michel Platini ganhou em sua eleição, oriunda dessa região.
Três anos depois, a situação é mista. Mesmo que os boatos de transferência de sede do evento tenham diminuído, as duas nações vivem situações distintas. Até agora, somente a Polônia já se mostra adiantada na realização das obras de infra-estrutura necessárias para sediar o evento. Já a Ucrânia só começa a melhorar sua situação recentemente, com os preparativos sendo mais acompanhados pela Uefa, preocupada com a situação.
Se os caminhos seguidos são diferentes, a origem deles era parecida. Das oito cidades indicadas para sediarem as partidas da Euro (quatro em cada país), apenas Donetsk e Kharkiv, na Ucrânia, não são pontos turísticos visitados constantemente. No entanto, os outros seis municípios (pelo lado polonês, Varsóvia, Gdansk, Wroclaw e Poznan; e Kiev e Lviv, pelo ucraniano), que supostamente teriam uma estrutura melhor, foram alvos de muitas dúvidas. A realidade deles mostrou-se bem distinta da teoria.
Com isso, fez-se o questionamento para todas cidades: conseguiriam levantar uma estrutura suficiente para acomodar vários turistas durante os 23 dias de competição, e isso considerando não só estádios, mas também transporte e rede hoteleira?
Aspectos diferentes
Do lado polonês, não ficou muita dúvida em relação à resposta positiva para a pergunta. Já em 2008, Michel Platini, presidente da Uefa, reuniu-se com o primeiro-ministro do país, Donald Tusk, e o então presidente Lech Kaczynski, e já então disse: “Todas as atividades na Polônia parecem estar no bom caminho. Recebemos garantias por parte do Governo polaco de que a construção do Estádio Nacional em Varsóvia estará terminada no tempo devido, tal como as infraestruturas de transporte necessárias”.
E houveram duas turbulências capazes de perturbar o caminho polonês rumo à Euro: a suspensão da federação, em 2008, que causou o envio de cartas por Fifa e Uefa à entidade, advertindo e prevendo a possibilidade de perda dos direitos de sediar o torneio, e a morte do presidente Kaczynski em desastre de avião, em 2009. No entanto, as preparações continuaram intactas, o que resultou na confirmação de Varsóvia, Gdansk, Wroclaw e Poznan como cidades-sede, enquanto Cracóvia e Chorzow foram colocadas como sedes reservas, caso uma das cidades citadas não ficasse pronta a tempo.
A Uefa até alertou para “a enorme quantidade de trabalho que [os poloneses] ainda terão pela frente de forma a garantir a totalidade das implementações necessárias ao torneio”. E mais um obstáculo surgiu no início do ano: o inverno forte e as enchentes no país, que acabaram atrasando um pouco as obras. Porém, o presidente do comitê organizador polonês, Adam Olkowicz, fez questão de tranquilizar a todos. “Os trabalhos principais, contudo, como os recintos ou os aeroportos, não foram afetados. E, mesmo com o inverno extremamente rigoroso como tivemos este ano, não se verificaram quaisquer atrasos na edificação dos estádios.”
Já a Ucrânia até tentou ser otimista, no começo dos trabalhos. Em 2008, a primeira-ministra do país, Yulia Tymoshenko afirmou: “Estou completamente otimista que a preparação para a Euro 2008 será realizada dentro do prazo.” Palavras desmentidas por uma nota da federação ucraniana, naquele mesmo ano, segundo as quais o país poderia perder o status de país-sede, pelo atraso nas obras do Estádio Olímpico de Kiev. E ampliadas em 31 de outubro daquele ano, quando o presidente do comitê organizador ucraniano, Evhen Chermonenko, disse que a crise econômica que atingia o país, então, interrompera quase todo o cronograma de obras, atrasando a construção de hotéis, aeroportos e estádios.
E a Uefa mostrou que, realmente, a Ucrânia corria riscos: em maio de 2009, o comitê executivo da entidade realizou visitas e, no relatório subsequente, apontou que todas as quatro cidades estavam atrasadas com relação à infra-estrutura. Resultado: a única cidade que teve jogos confirmados foi Kiev – mas, ainda assim, sem ter ratificada a realização da final da Euro. Lviv, Donetsk e Kharkiv não foram consideradas sedes – bem como as cidades reservas, Dnipropetrovsk e Odessa. Michel Platini resumia a questão: “Há grandes problemas de infra-estrutura para serem resolvidos na Ucrânia”.
Somente com alarme de tal gravidade é que as coisas começaram a entrar nos eixos. As obras voltaram a ser realizadas – culminando na inauguração da moderna Donbass Arena, de Donetsk, em agosto de 2009. O avanço foi a tal ponto que, já em setembro, Platini finalmente fez elogios. “A situação mudou da água para o vinho. É uma excelente notícia. De repente, foram erguidos novos hotéis, do nada.” Em dezembro, a Uefa confirmou as quatro cidades-sede.
De acordo com o jornalista ucraniano Andrey Varchak – consultado por outro jornalista, o russo Grigoriy Telingater, do Sport-Express, entrevistado pela Trivela –, “não há mais perigo, tudo estará bem quando os jogos ocorrerem.” Avaliando as quatro cidades que sediarão o torneio, Varchak afirmou que Kiev é a que está em melhor situação: mesmo ainda com atraso nas obras do estádio (que deve ficar pronto em setembro de 2011), aeroportos e hotéis estão dentro da normalidade. Donetsk e Kharkiv têm estádios normais, mas sofrem com os aeroportos, enquanto a segunda vai melhor nos hotéis. E Lviv ainda pena com os atrasos na construção do aeroporto e do estádio.
E o clima, atualmente, é de otimismo controlado. Em carta aberta a Michel Platini, o presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, afirmou que o país se animou, após saber do atraso nas obras. Visitando o país, o secretário-geral da Uefa, Gianni Infantino, disse: “Ainda há muito a fazer, mas muitas pessoas estão trabalhando para garantir que tudo estará pronto. Estou otimista com o sucesso do torneio”.
E assim, a Ucrânia continua trabalhando para que a Euro 2012 possa florescer, como as flores que adornam seu logotipo.


