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Peres: O Maestro de Cingapura

Peres de Oliveira, 32 anos, meia do Tampines Rovers, da Cingapura, é um dos brasileiros com melhor reputação no futebol asiático nos últimos tempos. O ‘Maestro’, como é conhecido na ilha, conversou conosco sobre seu sucesso no país, sua temporada de estréia no Tampines Rovers depois de cinco anos defendendo o Home United e revelou exclusivamente à Trivela vários aspectos da S-League, a Liga Cingapureana de futebol. Confira abaixo este bate-papo que aconteceu no litoral do Espírito Santo, onde o jogador passa férias antes de se reapresentar aos “Stags”, em janeiro.

Como foi sua temporada de estréia no Tampines Rovers, que era o bicampeão cingapureano (2004 e 2005) e perdeu a hegemonia neste ano para o Singapore Armed Forces?
Foi boa, ficamos com o vice-campeonato da liga e conquistamos a Copa da Cingapura em cima do Chonburi, da Tailândia. Inclusive foi a primeira vez que um time convidado, de fora do país, chegou à final desse torneio. O grande problema neste ano foram as lesões do Mirko (Grabovac, atacante croata) e do Shah (Alam, uma das estrelas da seleção cingapureana), que ficaram boa parte do ano lesionados. Isso nos prejudicou muito porque tivemos uma maratona de jogos entre liga, Copa da Cingapura e AFC Cup.

O seu treinador, Vorawan Chitavanich, durante o ano todo, reclamou bastante desses desfalques e da maratona de jogos. Como ele lidou com isso?
O Vorawan fez de tudo para nos motivar, mas quando se perde jogadores importantes é sempre difícil. Teve partidas em que eu joguei de centroavante porque não tinha jogador para colocar naquela posição. Foi uma temporada de sacrifício, muito desgastante porque o time nunca estava completo. Às vezes eu pensava: “Caramba, daqui dois dias tem que jogar de novo”, ai batia um desânimo porque sabia das limitações de um elenco reduzido e, em Cingapura, só podem jogar quatro estrangeiros.

O título do Singapore Armed Forces na S-League foi merecido?
Eu pensei que o Young Lions venceria a liga. Eles abriram 12 pontos de vantagem em relação a nós e estavam jogando muito bem, mas perderam a liderança para o SAFFC, que vinha com uma formação boa, com uma base que está junta há algum tempo, e aí eles ganharam a Liga. Eliminamos eles (SAFFC) nas semifinais da Copa da Cingapura. Na liga, eles deram muita sorte, ganharam muitos jogos de 1 a 0, e nós tivemos problemas de lesões, o Young Lions caiu de produção, etc.

Nesta temporada, já atuando pelo Tampines Rovers, você enfrentou pela primeira vez seu ex-clube, o Home United, em um jogo muito quente que ficou conhecido no país como ‘A batalha de Bishan’. Qual foi o sentimento de enfrentar os Protectors, clube que você defendeu por cinco anos?
Eu confesso que senti muito. Foi estranho ver a torcida que me tratou com carinho durante cinco anos, os amigos que fiz no Home United, tanto jogadores quanto dirigentes. No Brasil, é diferente porque os jogadores aqui mudam constantemente de clube. Lá em Cingapura é fácil encontrar jogadores que estão identificados com um time, que vestem a mesma camisa por muitos anos. Eu tinha um carinho especial pelo Home United, mas sou profissional e tinha que defender o Tampines Rovers.

Nessas seis temporadas que você jogou em Cingapura, acha que o nível da S-League melhorou?
Acho que sim. A S-League está muito equilibrada e competitiva. A chegada dessas equipes convidadas como o Sinchi, da China, que jogou no ano passado, e o Sporting Afrique (com jogadores de várias partes da África), este ano, é muito boa também.

No meio do ano, as chegadas do zagueiro Aide Iskandar e do atacante Ahmad Latiff, que estavam no futebol malaio, ajudaram o Tampines Rovers?
Melhoraram a equipe sim. O Iskandar jogou comigo no Home United, fui eu que indiquei sua contratação. Ele jogou como zagueiro pela direita porque no miolo de zaga o Muratovic (Sead, sérvio) e o Promrut (Choketawee, tailandês) estavam muito bem. Já o Latiff veio mais pelas lesões do Shah e do Grabovac. O Indra (Sahdan, Home United) quase veio também, mas teve alguns problemas e acabou não acertando.

Esse atacante, Ahmad Latiff, seu companheiro de clube, tem fama de ‘bad boy’. Ele é um jogador difícil de se conviver no dia-a-dia?
Os problemas que ele teve foram com treinadores. Posso te garantir que dentro do grupo ele é tranqüilo. Falo com ele direto e os jogadores também.

Você e o capixaba Egmar, que acabou de deixar o Home United depois de 11 anos no clube, há muito tempo fazem sucesso na Cingapura. Não pintou aquela ambição de querer um desafio maior, jogar uma liga mais competitiva na Ásia?
Eu tive propostas de clubes da China, de Hong Kong e uma do Al Jaish (time com fortes vínculos com o exército), da Síria. Em 2003, joguei pelo Home United contra eles e fui muito bem. O treinador do Al Jaish me convidou para jantar e me fez uma proposta. Naquele ano (2003), eu fui o melhor jogador e artilheiro da S-League, mas eles (Al Jaish) queriam que eu me apresentasse em 10 dias e eu estava louco para entrar de férias porque era finzinho de ano. Aí eles ficavam ligando para cá (Nova Almeida-ES), mas não deu nada. Na verdade, eu já estava estabilizado na Cingapura, minha família já estava adaptada, meus filhos falando inglês muito bem, e isso pesou para eu ficar em Cingapura até hoje. Já o Egmar tem três propostas, uma de um clube da Indonésia. Ele estava querendo sair, não tinha mais motivação de continuar depois de tantos anos. Mas o Home United é um clube muito profissional, paga certinho, tem boa estrutura. O meu atual clube também: o Tampines é muito profissional, dá gosto de trabalhar. Tenho contrato com ele até o fim de 2007.

Você e o Egmar eram os únicos brasileiros em Cingapura até 2005. Em 2006, vocês ganharam a companhia do Carlos Alberto, um volante carioca que te substituiu no Home United. Como ele se saiu?
Ele se lesionou e ficou de molho um bom tempo. Fizeram uma pressão muito grande em cima dele porque ele herdou a camisa 10, que era minha. Só que ele é volante e não meia ofensivo. Nas partidas que ele jogou, ele foi bem.

Quais as diferenças, na forma de se trabalhar entre o seu técnico anterior no Home United, o inglês Steve Darby, e o seu atual treinador, o tailandês Vorawan Chitavanich?
São dois caras muito profissionais, gostam de diálogo e são amigos dos jogadores. Eles têm algumas diferenças: o Vorawan gosta de treino físico puxado, muita corrida e academia. O Steve gosta de treino técnico e tático, de futebol bem jogado.

Como é a relação entre os jogadores em Cingapura?
No Tampines, os caras que eu tenho mais contato são o Fahrudin (Mustafic, volante sérvio), o Mirko (Grabovac, centroavante croata), o Iskandar (Aide, zagueiro cingapureano) e o Latiff (Ahmad, atacante cingapureano). Tem o Santi Chaiyaphuak (médio-volante), um menino tailandês muito bom também. O que mais me impressiona lá é o nível de profissionalismo. Todos os jogadores se respeitam, não tem ‘trairagem’. Aqui no Brasil, tem muita ‘trairagem’ – aquela coisa de um chegar para outro e dizer “Fulano não deveria jogar, Cicrano é quem tinha que entrar jogando”. Esse tipo de coisa aqui no Brasil tem muito e lá eu nunca vi. Saímos com freqüência para tomar cerveja, conversar sobre o time, tem até uma churrascaria brasileira em Tampines. Aliás, gostei muito de trocar Bishan (cidade onde fica o Home United, seu ex-clube) por Tampines, porque estar no litoral, perto do mar, é muito bom. Aquela coisa dos jogadores ficarem separados da comissão técnica nos treinos também não existe. O treinador está sempre no meio dos jogadores conversando sem medo de perder a autoridade por causa disso.

Seu ex-parceiro de clube, o goleiro Lionel Lewis, do Home United, foi eleito o oitavo melhor jogador da Ásia neste ano. Conte um pouco sobre o perfil desse jogador.
É um grande goleiro, jovem (24 anos), tem boa técnica, muito reflexo. É o melhor goleiro do país e tem potencial para jogar na Europa.

O Tampines Rovers foi eliminado nas quartas-de-final da AFC Cup para o Al Wihdat, da Jordânia. Os árabes ganharam todas as edições da AFC Cup até aqui. Por que eles dominam essa competição?
O Al Wihdat é um time muito bom. Tecnicamente e fisicamente, os caras são muito bons. A AFC Cup é uma competição muito difícil, e os árabes, em geral, estão muito na frente.

Egmar, Grabovac, Agu Casmir, Ittimi Dickson e Fahrudin são vários jogadores que estão se naturalizando para defender a seleção de Cingapura. Ainda veremos Peres com a camisa da seleção cingapureana?
Eles queriam que eu me naturalizasse em 2003, quando fui campeão, ganhei prêmios de artilheiro e melhor jogador do país. O problema é que eles não aceitam você ter dupla nacionalidade, só a cingapureana. Aí eu não quero. Foi até o treinador da seleção atual, o Avramovic (sérvio) que conversou comigo e me pediu para me naturalizar, mas não aceitei.

O Radojko Avramovic, técnico de Cingapura, é bem falado entre os jogadores da seleção? Gostam do trabalho dele?
Sim, é um cara gente boa, conversei muito com ele já. Foi campeão da Tiger Cup, ano passado. Eles gostam dele. Implantou um esquema tático muito bom na seleção e faz um bom trabalho.

A maioria dos estádios na Cingapura é bastante acanhada, variando de 4 a 6 mil lugares. A exceção é o Estádio Nacional, que recebe a final dos jogos da Copa da Cingapura e os da seleção. Como é o clima nos jogos da S-League?
Os jogos são à noite. Lá é muito úmido e abafado, você transpira muito e geralmente eu, por exemplo, perco de 2 a 3 quilos por jogo.

Você formou um ataque arrasador no Home United ao lado do Egmar e do Indra Sahdan. Em 2006, pelo Tampines, você formou um dos trios ofensivos mais temidos do sudeste asiático, ao lado do Grabovac e do Alam Shah, que, juntos , já marcaram mais de 300 gols na S-League. Qual trio você escalaria na sua equipe: Peres-Egmar-Indra ou Peres-Grabovac-Shah?
(sem pensar muito) Com certeza Egmar e Indra! O Indra é um grande jogador, rápido, inteligente e faz gols. Muito bom jogar com ele. O Egmar é um jogador muito forte, protege bem a bola, é muito difícil tirar a bola dele quando ele está de costas para o marcador – além de ser um grande artilheiro. Já o Mirko (Grabovac) é um jogador muito técnico, faz muitos gols, porém lento. Você tem que jogar a bola no pé dele. Se jogar a bola num espaço vazio para ele correr ele não acompanha, até pela idade (35 anos). Mas é um artilheiro, um jogador perigoso. O Alam Shah é um jogador explosivo, mas não é inteligente. Nós jogamos muito pouco juntos porque eles tiveram muitas lesões. Ano que vem eu vou voltar a vestir a camisa 10 (foi o 11 este ano) porque o Mirko (Grabovac) gosta da 8 (risos).

Apenas o zagueiro Sead Muratovic e o meia Rafi Ali, do Tampines Rovers, foram escalados na Seleção da S-League 2006. A base foi do campeão, Singapore Armed Forces. O marroquino Laakkad, do Woodlands Wellington, estreou na competição este ano e já foi eleito o melhor jogador. Na sua visão, quais jogadores se destacaram nesta temporada?
O Muratovic vai se naturalizar cingapureano. Ele está há muitos anos no clube, é um zagueiro muito técnico. O Fahrudin (Tampines Rovers) é um jogador de pegada, marcação, joga pra equipe. Teve o Amri (Khairul, Young Lions) um atacante que começou muito bem, mas depois caiu de produção, eu não entendi. Gostei muito do Kyeong Joon (Home United), um atacante coreano muito inteligente, se coloca bem e dá para fazer “um-dois” fácil com ele. Um jogador muito inteligente. O Laakkad é um jogador técnico que finaliza bem, foi eleito o melhor jogador mais por ter sido artilheiro. Houve outros que jogaram muito mais do que ele.

Quais os maiores clássicos em Cingapura?
São os jogos entre Home United, Tampines Rovers e Singapore Armed Forces.

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Equipe Trivela

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