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“Perdi um título por causa de corrupção”

O zagueiro Rocha, de 32 anos, defendeu o Vasco e a Seleção Brasileira sub-17. O jogador bateu um agradável papo conosco sobre sua experiência no futebol do Vietnã, onde defendeu o Dong Tam e o TT Hue. O carioca era um dos raros brasileiros no país no início desta década, quando a liga local ainda estava se profissionalizando. E ele confirma a corrupção que assola os bastidores do futebol daquele país: “Fiquei escandalizado com o que vi!” O forte defensor, de 1,86 m de altura, ainda nos contou sobre o desenvolvimento do futebol vietnamita, a estrutura e, claro, fatos curiosos e inusitados do período que esteve por lá, como comer doce de feijão, carne de cobra, cachorro e até canguru!

Chegando ao Vietnã, em 2001, você notou que a mentalidade dos clubes ainda era bastante amadora?
Realmente, a mentalidade era de muito amadorismo, tanto dos jogadores como dos dirigentes e dos clubes. Mas, com a chegada dos estrangeiros no país, isso foi mudando. No meu time, o Dong Tam, por exemplo, havia três brasileiros, um argentino, e o treinador era português. Nós procurávamos passar nossos conhecimentos para estruturar o clube e, claro, também aperfeiçoar dentro de campo o que estava errado, juntamente com a postura profissional que estávamos acostumados nos nossos paises. Hoje, o futebol de lá já está bem mais desenvolvido, a tendência é crescer ainda mais e o intercâmbio é o principal fator dessa mudança.

Você chegou ao Dong Tam junto com o goleiro Fabio Santos, que é um dos ídolos da torcida e está lá até hoje. Por que você retornou ao Brasil?
Cheguei com ele e com o Lino. Joguei dois anos e meio no Dong Tam e depois me transferi para outro clube de lá (TT Hue). Acabei ficando três anos e meio no Vietnã. Voltei porque não entrei num acordo financeiro para renovação, acabei ficando no Brasil esperando eles aceitarem minha proposta, mas não houve acordo.

A principal estrela do Dong Tam é o camisa 10 Phan Van Tai Em. Ele foi seu companheiro durante o tempo que você jogou lá. É bom jogador?
Ele é muito bom jogador. Nosso treinador na época dava uma atenção especial a ele, daí o fato de ele ter evoluído muito, tanto tecnicamente quanto na parte profissional. O Henrique Calisto acabou se tornando o treinador da seleção do Vietnã e deu a primeira oportunidade a esse jogador.

Como é a estrutura dos clubes no Vietnã?
Existem ótimos estádios e outros nem tanto, varia muito de clube para clube. Existem clubes bem estruturados em relação a centro de treinamento. A comissão técnica ainda deixa um pouco a desejar, pois eles não contratam uma completa – trazem somente o treinador, que fica sobrecarregado trabalhando a parte técnica e física. Os profissionais de educação física de lá ainda são amadores. O material de trabalho é muito bom. Os fornecedores são de marcas conhecidas.

Muitos treinadores acham que a grande dificuldade para o futebol no sudeste da Ásia evoluir é a fragilidade física dos jogadores, que são baixos e têm pouca massa muscular. Você concorda ou acha que o problema é outro?
De tudo um pouco. Realmente, eles são fracos fisicamente. Por outro lado, eles têm muita velocidade! Na minha opinião, o grande problema é o complexo de inferioridade técnica que eles têm em relação aos outros centros.

Como você se virou para se comunicar no dia-a-dia, nos treinos e nos jogos? O que aprendeu da língua deles?
Aprendi a falar inglês, pois o treinador também era estrangeiro e contávamos com um interprete em inglês. Mas agente acabou aprendendo a falar um pouco de vietnamita, e a linguagem dentro de campo é universal. Realmente, às vezes tínhamos alguns problemas, por causa dessa dificuldade de comunicação. Tive que aprender a me comunicar em vietnamita para fazer compras e me virar em cidades do interior, onde as pessoas não tinham muito acesso a língua inglesa.

Como é o comportamento dos torcedores nos estádios? São barulhentos?
São muito animados, comparecem aos estádios, mas nada comparado com o que acontece aqui no Brasil. Não existe aquela rivalidade ferrenha como aqui. Eles curtem mais como espetáculo, aplaudem uma boa jogada independentemente do clube para que eles torçam!

Segundo dados da CBF, em 2002, apenas um brasileiro foi jogar no Vietnã. Desde então, foram 65 brazucas jogar lá. Esse espaço que os brasileiros ocupam no Vietnã é benéfico para os jogadores vietnamitas aprenderem e progredirem?
Em 2002, eu estava lá e tinham alguns brasileiros remanescentes, mas eram poucos. Com certeza, isso é importante para o desenvolvimento técnico deles, apesar de eles admirarem mais o futebol europeu do que o nosso.

O futebol do Vietnã também é conhecido por ser um dos mais corruptos da Ásia, com constantes fraudes e manipulação de resultados. Você viu muita coisa suspeita entre os dirigentes do país ou até mesmo conversas entre atletas?
Vi muito, isso é normal lá. Fiquei escandalizado na época, mas tive que me conformar e fazer meu trabalho. Perdi um titulo no TT Hue por causa de corrupção. Fiquei indignado, mas fazer o quê?

Quais foram os fatos mais curiosos e inusitados que você viu no comportamento dos jogadores nos treinos e nos jogos?
Eles não têm costume de usar vestiários, já chegam prontos para os jogos e os treinos. Além disso, comem de tudo antes das partidas, e os jogadores andam de moto! Cada jogador é responsável pelo seu material, não tem roupeiros como aqui: você mesmo cuida e lava.

Experimentou a comida do Vietnã? O que achou?
Experimentei muitas coisas exóticas, como cachorro, canguru, cobra, escorpião e outras coisas que não comemos aqui. Mas, no dia-a-dia, nós comíamos de tudo que tem aqui, com exceção do feijão, que lá eles fazem um tipo de doce. No Vietnã, tem tudo que tem aqui, só que é feito de maneira diferente. Comia muito bem lá.

Quais as principais lembranças que você carrega da sua experiência no futebol do Vietnã e também do país?
Boas lembranças, pois fui muito feliz lá! É um pais de uma cultura incrível, um povo sofrido, com muitas seqüelas da guerra. Cresci muito como ser humano vivendo naquele país e aprendendo um pouco da historia deles que é riquíssima!

FICHA

Arthur Rocha Bernardes

Data de nascimento: 7/setembro/1974
Local de nascimento: Rio de Janeiro-RJ
Clubes que defendeu:
1990: Portuguesa-RJ
1991: Vasco
1992: Vasco
1993: Vasco
1994: Vasco e Desportiva-ES
1995: Rio Branco-SP
1996: Internacional-SP e Ipiranga-MG
1997: Americano
1998: São Cristóvão
1999: Barreira
2000: CSA
2001: Rio Branco-ES
2002: Gach Dong Tam Long An
2003: Gach Dong Tam Long An
2004: TT Hue
2005: Mesquita
2006: Araxá

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Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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