Pedrinho: “Em Portugal, a chance de uma carreira bem sucedida é muito maior”

Para muitos brasileiros, o futebol português é, mais do que uma porta de entrada para a Europa, a possibilidade de uma mudança radical de vida. O país ibérico é o que mais recebe jogadores oriundos dos gramados daqui, conforme números da CBF. Muitos, inclusive, oriundo de clubes pequenos para outros também menores em Portugal. Apesar disso, é por meio desses “nanicos” que os atletas galgam seus primeiros passos no Velho Continente.
Vandinho, volante do Braga e capitão do time vice-campeão da Liga Europa, por exemplo, deixou o Grêmio Inhumense para se aventurar no Rio Ave, antes de chegar aos minhotos. Matheus, que também se destacou pelo Braga, durante a Liga dos Campeões, surgiu no Itabaiana e precisou ir ao pequeno Marco para chegar aos Arsenalistas. Sem contar, naturalmente, os conhecidos casos de Deco e Pepe, que deixaram o Corinthians-AL para explodir na terrinha.
O atacante Pedro Rafael Gomes Neto, conhecido como Pedrinho, é um dos tantos brasileiros que perseguem o caminho do sucesso no futebol europeu via Portugal. Chegou ao país em junho de 2008, vindo do Villa Nova-MG, para defender o Cesarense, da II Divisão (equivalente ao terceiro escalão). Em janeiro de 2009, o mineiro, natural de Belo Horizonte, rumou ao Oliveirense, da Liga de Honra, clube do qual é um dos destaques, mas que, em duas oportunidades (2009/10 e 2010/11) viu bater na trave a chance de disputar a primeira divisão portuguesa.
Confira a entrevista:
Você deixou o futebol mineiro diretamente para o português. Como se deu a mudança?
Foi uma mudança meio que ao natural. Esse é o meu trabalho. Mas a adaptação, admito, foi meio complicada. O futebol aqui é diferente, é um estilo mais direto, com mais contato físico. Porém, hoje estou completamente adaptado.
É cada vez mais comum brasileiros deixarem o futebol nacional antes mesmo de aparecerem, rumando, muitas vezes, para países pouco expressivos ou clubes menores de Portugal. Até que ponto vale a pena uma mudança como a sua, de um pequeno do Brasil para um também pequeno de Portugal? O que você, por exemplo, ponderou?
A oportunidade tem que ser agarrada. Aqui em Portugal a chance de ter uma carreira bem sucedida é muito maior. Sem contar a possibilidade de servir como trampolim para os grandes clubes. Ponderei que, jogando na Europa, a visibilidade e as oportunidades seriam maiores do que no pequeno time brasileiro.
Acredita ter vindo no momento ideal para buscar a carreira no futebol de Portugal?
Por todos os motivos que disse antes, sim. Foi uma grande oportunidade e procurei agarrá-la, acreditando que poderia ser o grande salto na minha carreira. Acho que acertei.
Como avalia o nível técnico da Liga de Honra, em comparação com a II Divisão, por onde jogou quando estava no Cesarense? A diferença técnica é grande?
São competições com níveis, principalmente técnico, diferentes. Mas a Liga de Honra é superior, realmente. As equipes têm mais elenco, são mais bem montadas, enfim.
E no que diz respeito à diferença estrutural? Pergunto, por exemplo, tendo em vista a própria estrutura do Oliveirense, cujo estádio é bastante pequeno, para cerca de 2.500 pessoas, menor que o do Cesarense, seu ex-clube.
São estruturas diferentes porque na segunda divisão as equipes são menos profissionais em questão de investimento, enquanto na Liga de Honra é tudo muito profissional, números maiores. Quanto ao estádio, é realmente menor, mas te digo que é uma de nossas armas. Qualquer adversário que chega aqui enfrenta bastante dificuldade”.
Projetando um acesso na próxima temporada, o que vê como necessário para que o Oliveirense repita, por exemplo, o que fez o Beira-Mar em 2010/11 e o Olhanense em 2009/10, que é conseguir a permanência? O que será necessário?
Tem que investir pesado. Acho necessário se estruturar bem, ter consciência de que tem que montar um grupo forte, e mesclar juventude com a experiência que não tivemos no passado, para enfrentar os momentos difíceis.
O técnico do clube, Pedro Miguel, é alguém bastante identificado com a equipe, sendo treinador do time desde a temporada 2004/05. O que ele representa no clube? E qual a importância dele nas campanhas da equipe?
Representa bastante. Essa identificação é fruto das excelentes campanhas que ele vem realizando por aqui, sem dúvidas. E a base que ele montou, o esquema que vem apostando vem dado certo, unindo e grupo e ajudando nessas boas temporadas.
Você enfrentou, nesta temporada, o Belenenses, um dos clubes mais tradicionais de Portugal. Como foram esses confrontos?
Foram dois confrontos importantes. Acredito que fomos melhores nas duas oportunidades. No segundo, em casa, tive a chance de atuar e fiquei bem contente.
Por aqui, é bastante comum que os times de cidades menores sejam apoiados por seus moradores, mas, via de regra, sejam apenas o “segundo time” do coração do torcedor. O adepto do Oliveirense, pelo que pôde observar, é fanático pelo clube? Ou é mais um apoiador que, no fundo, torce para o Porto ou Benfica?
Tem as duas modalidades de torcedor (risos). Tem os que são fanáticos, que torcem exclusivamente pelo Oliveirense, e outros que vibram de vez em quando, mas, na verdade, torcem mesmo pelos grandes.
A cidade de seu clube, Oliveira de Azeméis, fica próxima à cidade do Porto. Como o pessoal dessa região reagiu ao título nacional dos Dragões?
A maioria do pessoal aqui torce pelo Porto e, por isso, ficaram bastante felizes. No título do ano passado, que o Benfica levou, percebi muito menos festa.
Muito se comenta que para se ter sucesso em Portugal, é preciso adquirir certa experiência com o futebol do país. O vice-campeonato do Braga, para alguns especialistas, foi compreendido desta forma: um time que, se era tecnicamente inferior a Porto ou Benfica, tinha grande experiência no futebol local, sabendo como se portar diante de certos times, etc. Acredita que é isso mesmo?
Sim, concordo com a versão dos especialistas. Vi um Braga que aproveitou ao máximo suas chances durante os jogos, que não perdeu pontos contra os clubes de menor porte e, em boas atuações, conseguiu arrancar vitórias diante dos grandes.
Esse atacante que cai pelos lados com velocidade, o “extremo” é bastante valorizado em Portugal, haja vista que tanto o atual campeão, como a própria seleção, atuam em um esquema que coloca dois jogadores abertos à frente, apoiando um homem de frente. Acredita que isso é positivo para seu crescimento no país? Ou pensa que é uma posição mais “saturada”, e que o ideal seria crescer em outra função ofensiva, como meia-esquerda ou meia-armador?
Acredito que isso tudo só contribui. O fato do atual campeão e da seleção utilizarem os extremos valoriza as minhas características aqui. São jogadores que atuam pelas linhas, igual a mim: aproveitando a técnica e a velocidade para apoiar o homem de frente.
Você é um atacante canhoto, que tem nas jogadas de velocidade um de seus pontos fortes. Que exemplos busca seguir para aprimorar suas características?
Procuro me espelhar em que faz sucesso no futebol mundial. Gosto muito do Messi, claro, mas também vejo o Nani, o próprio Cristiano Ronaldo… São jogadores que atuam na mesma posição que eu, e dos quais procuro tirar o máximo de referência, para incluir no meu futebol.


