Os vários modos de se jogar futebol

O meu time não tem técnica. Reúne jogadores esforçados, que sabem tocar a bola, mas estão longe de ser craques. Nos esforçamos, portanto, na marcação. Jogamos duro, chegamos junto, estamos sempre “mordendo”, sempre lealmente. Forçamos o erro do adversário, para sair em velocidade em busca do gol. Se quiséssemos jogar como o Barcelona, ou simplesmente com a bola no pé o tempo todo, daríamos vexame e não venceríamos um jogo sequer. E jogamos futebol.
O exemplo dado acima é simples. Se refere a um time amador, de jornalistas, que quer vencer uma competição. Mas é um exemplo que pode ser aplicado a diversos times espalhados por todos os cantos do planeta.
Comecei o post dessa maneira, porque a vitória do Chelsea na Liga dos Campeões gerou no Brasil um enorme debate sobre meritocracia no futebol. Resumidamente, há uma vertente que defende a ideia de que os Blues não mereciam ser campeões e outra, da qual faço parte, que acredita na variedade de estilos de se jogar esse esporte chamado futebol. Este texto foi inspirado, também, pelo ótimo , defensor da primeira ideologia, onde ele aborda a forma de se analisar títulos.
Não concordo com a utilização do verbo “merecer” nesta discussão. Admito, e isso é uma obviedade, a preferência pelo futebol ofensivo. É natural alguém dizer “não gostei do Chelsea campeão, acho um estilo de jogo muito feio”. Perfeito! Gosto é gosto, faz parte de qualquer discussão sadia e democrática. No entanto, desmerecer uma conquista simplesmente porque é um “futebol feio” é exagero pra mim.
Há times que jogam com a bola nos pés, com toques de lado, pouca velocidade e vencem jogos – Corinthians é um exemplo. Outros preferem os lançamentos longos, a ligação direta, um futebol mais objetivo e dinâmico – Athletic Bilbao. Já alguns buscam exercer seu domínio com posse de bola, mas um ataque muito forte, sem tantos toques – Real Madrid. Enfim, poderia aqui descrever diversas equipes, mas o que quero mostrar é a diversidade de estilos de jogo.
Em países onde a técnica não é abundante, pelo contrário, é rara, o que fazer? Não jogar futebol? Simplesmente porque não conseguem praticar um jogo ofensivo, com toques rápidos, envolventes e muitas gingas? Recentemente falei sobre o Campeonato Tcheco, que sofre em termos técnicos há um bom tempo. Eles deveriam acabar com a competição? E quando o Viktoria Plzen enfrenta o Barcelona? Deve fazer o quê? Sair pro ataque para satisfazer o anseio de espetáculo do público em detrimento do resultado? Que bom se todos jogassem como o Barça, mas a realidade não é essa. E que me perdoem os românticos, mas no mundo profissional do esporte o importante é vencer.
Analisando especificamente o Chelsea, muitos vão argumentar: mas os Blues têm uma equipe talentosa, com jogadores como Juan Mata, Didier Drogba, Frank Lampard, entre outros, que poderiam muito bem jogar de maneira ofensiva. Sim, e atuavam assim com André Villas-Boas! Só que, sob o comando do português, que pregava um estilo cadenciado, com muita posse de bola e ritmo lento, o time não andou. O que fez Roberto di Matteo? Mudou totalmente a cara do Chelsea.
Privilegiou o sistema defensivo, reforçou a marcação para pressionar o erro do adversário, aumentou a velocidade dos passes e ganhou uma Liga dos Campeões. De maneira legítima, sem roubar ou prejudicar alguém. Buscou a vitória sim, mas de outra maneira, bem diferente do Bayern, que atacou o tempo todos e criou as melhores chances, mas vacilou na defesa em um lance. E defender faz parte desse jogo. Isso é importante: futebol não é só ataque. Logo, se a violência não impera, não existe anti-futebol. E eu vejo qualidades em um time que marca demais.
Trata-se de um esporte e, logo, está longe de ser uma ciência exata. Quando analisamos uma partida, um campeonato, observamos diversos fatores além dos vistos em campo. A sorte é um deles. Cria uma linha tênue entre o sucesso e o desastre. Faz parte do jogo, de qualquer jogo.
O mais importante de tudo isso é discutir o futebol de maneira educada, sem querer impor verdades absolutas. Assim como existem diversas maneiras de se jogar, temos tantas outras na forma de se analisar o mesmo fato, o mesmo jogo, o mesmo time. Discussão que eu tive com o Gian Oddi na redação. Sadia, equilibrada e sabendo ouvir. Mas querendo também convencer o outro! Se não, nem discutiríamos. E assim espero que aconteça nos comentários.


