Os muitos erros da Conmebol

Se você acompanha futebol sul-americano e europeu, dificilmente já não comparou a organização das duas entidades que regem o esporte desses continentes. E não são necessárias análises minuciosas para detectar a fragilidade da Conmebol, Confederação Sul-americana de Futebol.
Argumentos não faltam. O confuso calendário é quase uma marca registrada. Por exemplo, a incoerente periodicidade da Copa América, principal competição entre nações do Mercosul. Edições em 1999, 2001 (2 anos), depois 2004 e 2007 (3 anos) e agora em 2011 e 2015 (4 anos). Na agenda dos clubes, Copa Libertadores e Copa Sul-americana, acontecem em semestres diferentes. Mesmo com a divisão, alguns absurdos acontecem. Em 2010, no mesmo dia em que Internacional e Chivas disputavam o último jogo da Libertadores, jogos da seletiva para a Sul-americana eram realizados.
Além disso, as inúmeras e recentes mudanças que a Conmebol fez contribuem para a queda de credibilidade. Nos anos 90, nos acostumamos a ver diversos campeonatos criados e extintos. Copa Conmebol, SuperCopa, Copa Mercosul, Recopa. Com critérios técnicos duvidosos na seleção dos clubes – como a Mercosul que era patrocinada pela Traffic encarregada dos convidados – essas fórmulas pouco desenvolveram o futebol do continente.
A Copa Libertadores, torneio que reúne os principais das Américas, tem alguns problemas crônicos e inexplicáveis. A começar pelo sorteio das chaves, realizado antes mesmo da definição de todos os participantes, gerando aberrações como a divulgação de grupos com 'Cerro Porteño, Estudiantes, Equador 2 e Colômbia 3'. Difícil saber qual o propósito de divulgar antes, se nem as viagens podem ser planejadas – afinal, são revelados os países, mas não as cidades.
E no que isso implica? A falta de planejamento a médio-longo prazo inibe patrocinadores de ações duradouras e parcerias lucrativas. Falhas como pouca promoção do evento, baixo número de produtos licenciados (se é que existem) ou atrativos para os torcedores na internet, deixam o campeonato sobrevivendo da rivalidade e da importância que ganhou através dos tempos.
Comparações com a confederação europeia, a Uefa, são cruéis. A Eurocopa de nações é sempre disputada de 4 em 4 anos e sua divulgação começa muito tempo antes. Logotipo, identidade visual, produtos licenciados e eventos criam um envolvimento com o público bem antes da bola rolar. O clima de festa durante o torneio lembra o de uma Copa do Mundo.
A Liga dos Campeões, campeonato que reúne grandes clubes do continente, é uma marca difundida no mundo todo. Transformou os estádios em palcos para reunir o que de melhor acontece no futebol mundial, e virou objetivo de grande jogadores. Para a final, a Uefa organiza uma série de ações na cidade-sede, chamado Champions Festival, criando uma experiência de marca fabulosa entre torneio, público e patrocinadores. Mas isso é assunto para outra coluna.
Também não devemos comparar fora do contexto. As realidades europeias e sul-americanas são diferentes em muitos aspectos. Econômicos e geográficos, para citar alguns exemplos. Mesmo assim, cabe a adaptação ao continente e propiciar, com os recursos disponíveis, torneios organizados, rentáveis e principalmente: atrativos esportivamente.
É verdade que há algumas melhorias de uns anos para cá. O novo site da Conmebol, apesar de carente de informações, tem um formato mais acessível e bonito (se você acessava o antigo site sabe do que estou falando). Os 'fantasy games', coqueluche até no Brasil com o Cartola FC, também chegaram à Libertadores. Além de vídeos institucionais mostrando a relação dos torcedores com o time são exibidos pela BandSports.
Mas há muito a ser feito. Urgentemente, um calendário bem estipulado para os próximos cinco anos e novas estratégias de divulgação são necessárias. Também seria interessante contar com o apoio das confederações nacionais e dos próprios clubes nesse processo.
Adaptar-se à realidade do continente não é achar charmoso que os jogos descambem para a violência ou que pedras sejam arremessadas perto da bandeirinha de escanteio. Isso não é marketing. Nem futebol.
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