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Os mitos de La Plata

Juan Sebastián Verón foi o símbolo do título do Estudiantes, na última Copa Libertadores da América, em cima do Cruzeiro. Não somente porque “La Brujita” foi o líder indubitável dos Pincharratas em campo, mas, principalmente, pela vontade que o meio-campista tinha de retomar uma velha mística do clube alvirrubro. Recusando propostas do exterior para retornar a La Plata, Verón aparentava ser o símbolo do desejo que o Estudiantes tinha de voltar a ser respeitado no continente.

Grande parte desse respeito conquistado pelo clube platense veio de uma equipe histórica na América do Sul, talvez no mundo. Um time que até hoje causa divisões apaixonadas de opinião. Seus defensores dizem que lançou as bases de como se deve jogar uma Libertadores, com uma mistura de (alguma) técnica e (muita) raça. Os detratores afirmam que era sinônimo de atitudes anti-desportivas.

O Estudiantes tricampeão da Libertadores, entre 1968 e 1970, não só fez o clube dar um salto em sua história, mas também trouxe nomes até hoje lembrados, como Bilardo, Pachamé, Malbernat, Madero e… Juán Ramón Verón, o pai do Verón que iniciou este texto. Fora o comandante da equipe, Oswaldo Zubeldía. Aqui será contada a história de um dos grandes times da história do futebol sul-americano.

Das trevas fez-se a luz

Como em muitos casos na história do futebol, o maior time da história do Estudiantes começou a nascer numa fase difícil do clube. No fim da década de 1950 – e início da de 1960 -, o time permanecia na divisão de elite do futebol argentino, mas a duras penas. Volta e meia, o time se salvava do rebaixamento nas últimas rodadas (como em 1955, 1956 e 1960), ou mesmo na última rodada propriamente dita, como em 1961.

Até que, em 1963, o time encerrou o Campeonato Argentino na última posição. Mas não foi rebaixado, já que a AFA declarou que o sistema de acesso e descenso estaria suspenso por três anos, antes do início da edição de 1964. Foi esta medida que fez com que o então presidente do clube, Mariano Mangano, começasse a fazer o trabalho que daria frutos no fim da década.

Basicamente, Mangano deu força à formação de jogadores nas categorias de base, controladas por Miguel Ignomiriello. Além disso, chegou ao clube o preparador físico Jorge Kistenmacher. Nenhuma aquisição, no entanto, foi tão fundamental quando a feita em 1964, quando chegou a La Plata um técnico, vindo do Atlanta, clube do subúrbio de Buenos Aires, que já fazia sucesso com um método de trabalho que dava bastante ênfase na força física, com treinos diários, em dois turnos. Seu nome: Oswaldo Juan Zubeldía.

Zubeldía, então, começou a montar o seu time. Grande parte dos pilares saiu da base comandada por Ignomiriello: os meio-campistas Juán Ramón Verón e Carlos Pachamé, o zagueiro Oscar “Cacho” Malbernat e o atacante Eduardo Flores. A esses, somariam-se reforços escolhidos a dedo pelo técnico, como o goleiro Alberto Poletti, o defensor Raúl Madero e, principalmente, um certo meio-campista, alto e de nariz proeminente, que surgira no San Lorenzo, de nome Carlos Salvador Bilardo.

Estava formada a geração que ficaria conhecida como “La Tercera que Mata”. No primeiro ano em que aquela base jogou junta, 1965, o time chegou em sexto lugar. Mas não demoraria muito para a situação mudar.

Dominando a Argentina, e depois a América

Em 1966, a AFA realizou mais uma mudança no Campeonato Argentino. A partir daquele ano, a disputa do torneio seria dividida entre os campeonatos Metropolitano, que contava apenas com times da região de Buenos Aires, e Nacional, com times de todas as regiões argentinas. A mudança permitiu que as equipes do interior da Argentina se preparassem melhor, para competir pelo título.

Já com um preparo físico invejável, aliado a um esquema de jogo bastante moderno para a época (Zubeldía implementou maior marcação no meio-campo, o uso da linha de impedimento e as cobranças de escanteio na primeira trave), o Estudiantes chegava bem para o Metropolitano de 1967. E não deu outra: após vencer o Racing por 3 a 0, no dia 6 de agosto, na final disputada no Velho Gasômetro, o time de La Plata tornou-se campeão metropolitano da Argentina.

Mais do que isso, era o primeiro clube argentino a vencer um torneio na era profissional do futebol do país. Sem contar que foi o primeiro clube, desde 1931, a romper o círculo dos “cinco grandes”, que se revezavam no título nacional: Boca Juniors, River Plate, San Lorenzo, Racing e Independiente. No Campeonato Nacional, “La Tercera que Mata” conseguiria outro recorde, intacto na Argentina: o time perdeu a final para o Independiente, mas terminou invicto, com nove vitórias e seis empates. E, assim, ganhou a classificação para a Copa Libertadores de 1968.

Os Pincharratas caíram no grupo 1, onde, junto do Independiente, enfrentariam as equipes da Colômbia – no caso, Deportivo Cali e Millonarios. A campanha foi quase perfeita: apenas dois pontos perdidos, e a primeira posição da chave, com 11 pontos. Na segunda fase, um triangular, com Independiente e o Universitario, do Peru, para decidir um lugar na semifinal. E novo desempenho bom: com três vitórias em quatro jogos, novamente a equpe ficou na liderança do grupo 1, indo fazer a semifinal, contra o Racing.

Contra o então campeão sul-americano, que buscava o bi, os Pincharratas venceram o jogo de ida, por 3 a 0. Porém, com a derrota por 2 a 0 na volta, restou a necessidade de um jogo-desempate. Que terminou empatado: 1 a 1. Mas, por terem maior diferença de gols nos dois primeiros jogos, os alvirrubros chegaram à tão sonhada final, contra o Palmeiras.

No primeiro jogo, em La Plata, a 2 de maio de 1968, o Palmeiras abriu o placar logo aos sete minutos do primeiro tempo, com Servílio. E o Estudiantes demorou para conseguir uma vitória: Verón e Eduardo Flores só viraram para 2 a 1, respectivamente, aos 38 e 42 minutos do segundo tempo. Na volta, disputada no Pacaembu, não houve jeito: com dois gols de Tupãzinho e um de Reinaldo, o Palmeiras abriu 3 a 0. Verón diminuiu, mas haveria a necessidade de um jogo desempate, em campo neutro.

No Centenário, em Montevidéu, em 16 de maio, o trabalho iniciado por Mariano Mangano chegou a mais um título. Aos 13 minutos do primeiro tempo, o atacante Felipe Ribaudo abriu o placar. A oito minutos do fim do jogo, Verón fez 2 a 0. Pronto: o Estudiantes ganhava o seu primeiro título internacional, o título de campeão da Libertadores. Nada mal, para uma equipe antes pequena, em La Plata.

O dono do mundo

Não bastasse o título continental, a equipe chegou também à final do Metropolitano, ainda em 1968. Mesmo perdendo para o San Lorenzo, o time vendeu caro a derrota, só caindo na prorrogação. De mais a mais, o que interessava era a final do Mundial Interclubes, contra o Manchester United de Bobby Charlton e George Best, campeão da Europa.

As duas partidas que definiram o título mundial foram históricas. No jogo de ida, 1 a 0 para os Pinchas, em La Bombonera, com gol de Conigliaro – e expulsão de Norbert “Nobby” Stiles. Já na segunda, no Old Trafford, as duas equipes jogaram de modo bastante violento. Mas os sul-americanos abriram o placar aos sete minutos de jogo, com Verón.

Só no fim do segundo tempo a conquista correu perigo. Aos 43 minutos, após briga entre ambos, José Hugo Medina e George Best foram expulsos. Dois minutos depois, Willie Morgan empatou para os Red Devils. Contudo, não adiantou. O Estudiantes era campeão mundial interclubes, em 16 de outubro de 1968.

Virilidade ou anti-futebol?

1969 começou com mais uma conquista, a da Copa Interamericana. Jogando contra o campeão da Concacaf, o Toluca, do México, o Estudiantes venceu por 2 a 1, no estádio Azteca. Mas perdeu, em La Plata, pelo mesmo placar. Com a necessidade de jogo extra, em 21 de fevereiro, o time não decepcionou e, com gols de Conigliaro e Flores, venceu por 2 a 0 e ficou com o título.

Diante da dificuldade vista na Copa Interamericana, a participação do time na Libertadores pareceu até fácil. Como campeões, os Pinchas só entraram nas semifinais. E mal tomaram conhecimento da Universidad Católica, o adversário: com duas vitórias por 3 a 1, em La Plata e Santiago, o time de Zubeldía garantiu a vaga na final. E, decidindo contra o Nacional, do Uruguai, novo domínio.

No jogo de ida, em pleno Centenário de Montevidéu, o cenário do primeiro título da Libertadores, Eduardo Flores fez o único gol do jogo, aos 21 do segundo tempo. Na volta, em La Plata, a conquista foi definida ainda na etapa inicial: aos 22 minutos, Flores abriu o placar, e Conigliaro ampliou quinze minutos depois. O 2 a 0 bastou para que a torcida comemorasse o bicampeonato sul-americano.

Porém, àquela altura, o time de Zubeldía já começava a sofrer com as acusações de atitudes anti-desportivas, em pleno gramado. Se Verón era o comandante do ataque, sempre perigoso nas finalizações, e Bilardo era o gênio tático da equipe, Madero, Malbernat e Poletti ficaram pessimamente conhecidos pela fama de perturbarem os adversários com ofensas. Essa suposta política de “vencer a qualquer custo” chegou a criar histórias, como as de que Bilardo jogava com palitos de dente, para espetar os adversários. Nenhuma confirmada.

Esse lado do Estudiantes seria apresentado na final do Mundial Interclubes, contra o Milan. No San Siro, os Rossoneri dominaram o jogo e fizeram 3 a 0, com dois gols do brasileiro Sormani e um de Nestor Combin. O jogo de volta, em 22 de outubro, na Bombonera, foi cheio de polêmicas. Tudo começou quando Gianni Rivera abriu para os milanistas, treinados por Nereo Rocco.

Foi a senha para uma grande confusão. Poletti, Eduardo Luján Manera e Aguirre Suárez deram início a uma confusão generalizada entre jogadores das duas equipes, estendida para as arquibancadas. Ânimos mais serenados, Aguirre Suárez e Conigliaro até conseguiram virar o placar para 2 a 1. Porém, mesmo com a vitória no estádio do Boca Juniors, os Pinchas não conseguiram realizar o sonho do bicampeonato mundial. A taça era do Milan.

E as consequências das brigas ocorridas durante os 90 minutos não pararam com o apito final. Após o jogo, o presidente da Argentina, Juan Carlos Onganía, ordenou que todo o time do Estudiantes fosse detido, na prisão de Devoto, em Buenos Aires. Os jogadores foram liberados, mas Poletti chegou a ser banido do futebol – punição depois revogada.

O domínio acabou, não a fama

Mesmo com a confusa perda do título mundial, o Estudiantes confirmaria sua superioridade na América do Sul em 1970. Entrando mais uma vez nas semifinais da Libertadores, como atual campeão, a equipe de Zubeldía passou facilmente pelo River Plate, fazendo 1 a 0 e 3 a 1, nas duas partidas da semifinal, e decidindo o torneio continental contra o Peñarol.

A conquista do tricampeonato seria mais sofrida. No jogo de ida, em La Plata, Nestor Togneri fez o único gol, e a vantagem dos Pinchas foi levada para a volta, em Montevidéu. E os visitantes seguraram a pressão dos Manyas, evitando o gol e mantendo o placar sem gols nos 90 minutos. Era a conquista do tricampeonato sul-americano – e a confirmação de que Zubeldía, Bilardo e Verón virariam figuras quase santificadas em La Plata.

Todavia, a final do Mundial Interclubes, desta vez contra o Feyenoord, campeão da Copa dos Campeões 1969/70, novamente trouxe frustração ao Estudiantes. No jogo de ida, novamente na Bombonera, Echecopar e Verón chegaram a abrir 2 a 0 para os anfitriões, mas o time holandês conseguiu arrancar um empate, com Van Hanegem e Ove Kindvall.

O motivo que deixou famoso o jogo de volta nem foi o resultado – com a vitória por 1 a 0, em casa, no De Kuip de Roterdã, o Feyenoord conquistou o título mundial. Mas, sim, outra prova do comportamento polêmico dos jogadores do Estudiantes. Após marcar o gol do título, o atacante Joop van Daele teve seus óculos (sim, Van Daele jogava de óculos) arrancados por Malbernat, que passou-os a Carlos Pachamé. Enquanto Pachamé os pisoteava, Malbernat disse a Van Daele: “Você não pode jogar de óculos. Pelo menos, não na América do Sul.”

Único tricampeão consecutivo da Libertadores, o Estudiantes quase chegou ao tetra em 1971. Nas semifinais, conseguiu superar um triangular com Barcelona, do Equador, e Union Española, do Chile, para chegar à final, contra o mesmo Nacional que vencera em 1969. No jogo de ida, Romeo fez 1 a 0. Mas, na volta, o time uruguaio fez o mesmo placar, em casa, e garantiu o título continental com um 2 a 0, no Estádio Nacional de Lima, no Peru.

Era o fim. Oswaldo Zubeldía já deixara o clube, rumo ao Huracán. Bilardo e Raúl Madero, ambos tendo apenas 31 anos, haviam abandonado a carreira para estudar medicina. De todo modo, a ligação entre os integrantes daquele time segue forte. Basta dizer que, quando comandou a seleção da Argentina, Bilardo tinha Carlos Pachamé como seu auxiliar (Pachamé chegou até a treinar a equipe olímpica, nos Jogos de Seul, em 1988) e Raúl Madero como médico.

Para finalizar, uma declaração de Juan Sebastián Verón, o filho, feita após a vitória na Libertadores 2009, mostra como a imagem de “La Tercera que Mata” é, e sempre será, a grande memória do Estudiantes: “O que conquistou aquela equipe foi quase um milagre, porque não se tratava de um clube com grandes recursos. E, por isso, repetir era meu sonho, e dos torcedores do Estudiantes que não puderam viver essa época. Era a estrela que buscávamos, a que senti falta em toda a minha vida. Quando entramos em campo, na final, não pensávamos em outra coisa que não fosse na glória e em estar ao lado de lendas vivas como Bilardo.”  

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Equipe Trivela

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