Sem categoria

“Opção profissional e pessoal contou mais”

Ewerthon deixou o Corinthians com apenas 20 anos. Era ídolo da Fiel e vinha cavando um lugar na Seleção Brasileira. Foi para o Borussia Dortmund, onde conquistou a Bundesliga logo em sua primeira temporada. Após quatro bons anos na Alemanha, foi negociado pela equipe, que precisava gerar dinheiro para cobrir suas dívidas. Foi para o Zaragoza, da Espanha, e desde então não voltou a brilhar em nível mundial.

Passou a temporada passada emprestado a Stuttgart e Espanyol, mas retornou ao Zaragoza, mesmo com a equipe rebaixada para a segunda divisão espanhola. E afirmou à Trivela que essa opção é melhor do que retornar ao Brasil, por exemplo. “As propostas que vieram eram boas, mas não superiores ao que tenho aqui no Zaragoza. Sei que seria complicado jogar uma segunda divisão, mas é um clube que tem um projeto para retornar à primeira já na próxima temporada”. Atualmente, o Zaragoza está entre os líderes da segunda divisão e Ewerthon é o artilheiro da equipe.

Você está tendo uma ótima temporada pelo Zaragoza. Como você avalia seu momento?
Estou tendo uma temporada saisfatória, marcando gols e com um bom número de jogos. Então está sendo uma temporada muito boa.

Como foi tomar a decisão de continuar no clube na segunda divisão?
Foi difícil, porque tive muitas propostas para sair daqui. Já tinha vivenciado uma experiência de empréstimo, primeiro para o Stuttgart e depois para o Espanyol, quando foi um ano bem complicado. Além disso, as propostas que vieram eram boas, mas não superiores ao que tenho aqui no Zaragoza. Sei que seria complicado jogar uma segunda divisão, mas é um clube que tem um projeto para retornar à primeira já na próxima temporada. Como já conheço o clube, a cidade, tudo aqui, preferi jogar uma segunda divisão, mesmo sabendo que é difícil. Mas dentro das dificuldades estou me saindo muito bem, e no final da temporada vamos levar o Zaragoza para a primeira divisão, que é onde ele tem que estar.

E quais são as maiores dificuldades da segunda divisão espanhola?
Segunda divisão é sempre complicado, difícil. Como o Corinthians aí no Brasil. São campos ruins, adversários que jogam, principalmente contra o Zaragoza, que é um time grande, como a equipe a se bater, todos recuados, mas são dificuldades da profissão. Sou um profissional, decidi ficar nesse projeto, que foi bem aceito por mim, e estou feliz, tranqüilo, fazendo um bom trabalho e me destacando.

Você está em Zaragoza há muitos anos. Qual é a sua relação com o clube?
Aqui, hoje, sou um jogador referência, um dos capitães do time. Sou muito bem aceito pela torcida, depositam muita esperança em mim, e aqui eu vivo bem, tranqüilo. Claro que tenho passagens por outros clubes da Europa, mas me encontrei aqui, estou feliz, tenho esse final de temporada e a próxima no Zaragoza e depois penso o que será melhor para os dois lados.

Como tem sido o clima da torcida nos estádios nessa temporada. Há uma expectativa muito grande pelo retorno à primeira divisão?
Claro, é grande. O clube investiu bastante também, e é normal, é uma equipe que sempre esteve na primeira divisão, chegando entre os seis melhores da liga espanhola, e teve uma fatalidade no ano passado de ter caído. A pressão é muito grande, mas temos que ter a tranqüilidade para trabalhar e no final da temporada conseguir o objetivo que é subir.

A torcida tem acompanhado o time nos jogos?
Aqui eles ficaram ainda mais exigentes. Eu entendo o torcedor, porque no ano passado o clube investiu muito dinheiro, trazendo jogadores importantes, e infelizmente acabou caindo. Mas tomara que isso seja momentâneo e que passe rápido, porque não dá para encarar dois anos na segunda divisão.

Você citou que o Zaragoza fez um grande investimento em contratações recentemente, mas não obteve bons resultados. O que deu errado?
Eles investiram bastante em nomes e no final acabaram tendo um resultado desfavorável, muito ruim. Havia jogadores importantes como o Diego Milito, Sergio García, Ricardo Oliveira, Pablo Aimar, Andrés D’Alessandro, Roberto Ayala, mas no final acabou na segunda divisão. Acho que dentro do clube não houve um planejamento acertado, mas sim um equivocado. É complicado ver o clube nessa situação, mas esse é o presente. Agora temos que, quem está aqui, ter personalidade para subir esse time.

O Ricardo Oliveira foi negociado pelo Zaragoza com o Betis recentemente, mas vocês vinham formando uma ótima dupla. Como foi jogar com ele?
Conheci o Ricardo Oliveira há muito tempo, no juvenil do Corinthians. Ele não ficou e acertou com a Portuguesa, e acabei encontrando ele depois de muitos anos, os dois profissionais, jogando no mesmo time. Fizemos uma boa dupla, marcamos muitos gols, jogamos bem, mas infelizmente tivemos que parar, porque tanto o clube como o Ricardo decidiram que era melhor ele buscar uma saída. Mas fiquei muito feliz, foi uma experiência muito boa e ganhei um amigo fora de campo.

No ano passado você passou por Stuttgart e Espanyol. Por que não continuou nesses clubes?
O meu retorno para a Alemanha não foi legal, tanto esportivamente quanto a vida pessoal. Não foi um bom negócio eu ter voltado, mas depois de seis meses tive uma proposta do Espanyol, que vinha fazendo um primeiro turno na Espanha muito bom. Depois, no segundo turno, fomos muito mal. Tive uma proposta deles para continuar lá, mas eu disse que se as coisas dentro do clube não mudassem, nesse ano eles iam jogar para não cair. E realmente as coisas não mudaram e eles estão na situação que estão.

E o período que você passou no Borussia Dortmund, tem saudade?
Tenho, tenho um carinho muito grande pelo Borussia Dortmund. Foi o clube que abriu as portas para mim na Europa e onde venci meus primeiros títulos europeus. Fiquei quatro anos jogando na Alemanha, onde sou ídolo até hoje. O último campeonato que o Borussia ganhou foi com um gol meu e isso me traz muita felicidade, porque sei que se eu voltar, vou ser muito bem aceito pelos torcedores, pelas pessoas da cidade. Mas acho que chegou minha etapa, que foi muito feliz, e chegou ao final. Guardo um carinho, um sentimento pelo Borussia. Tenho certeza que eles também guardam por mim, tanto que tenho contato com o clube até hoje, com o manager, as pessoas que trabalham lá. Só que eu tive que seguir minha carreira, o Borussia tinha uma dívida de mais de € 120 milhões e tinha que dar saída nos seus principais jogadores. Para ajudar o clube, optei por sair.

Foi seu melhor momento na carreira?
Não, meu melhor momento é hoje. Tive momentos muito bons no Brasil, jogando pelo Corinthians, na Seleção Brasileira, momentos muito bons no Borussia, no Stuttgart e no Espanyol também, mas vivo meu melhor momento que é o presente.

A torcida do Borussia é famosa pelo fanatismo. Como era lidar com ela?
Graças a Deus sempre fui bem aceito pelas torcidas onde joguei. Lá é diferente, claro que a torcida do Borussia Dortmund é uma torcida de massa, que leva em todos os jogos 83 mil pessoas, que empurra bastante e é apaixonada, mas é diferente o fanatismo deles com as torcidas no Brasil. E posso dizer comparando com a do Corinthians, é bem diferente. Nós somos loucos por futebol, eles já vão para o futebol como se fosse para um teatro, museu, cinema. Eles vêem o futebol como um espetáculo, mas são mais comedidos.

Como foi conquistar o título da Bundesliga logo em sua primeira temporada?
Foi uma temporada complicada porque foi meu primeiro ano na Alemanha. E segundo porque, faltando três rodadas, estávamos cinco pontos atrás do Bayer Leverkusen e tínhamos que ganhar os três jogos e torcer por tropeço deles. E isso aconteceu, fomos campeões com 70 pontos e o Bayer foi vice com 69 e o Bayern terceiro com 68. Foi um campeonato muito nivelado.

Em relação ao Corinthians, você deixou o clube muito cedo. Gostaria de ter continuado?
Não, saí no momento certo. Fui para um time certo, acho que minha saída foi muito boa. Na época tive uma proposta do Betis, aonde eu não ia ser feliz, as coisas que foram propostas para mim eu não aceitei. Tive muita felicidade de ter meus pais, meus irmãos sempre me fornecendo uma estrutura familiar. Quando saí, mentalizei a não voltar ao futebol brasileiro a não ser que eu venha a terminar minha carreira no país. E hoje já estou há oito anos na Europa.

Ainda mantém contatos no Corinthians?
Tenho amigos. O presidente do Corinthians, na minha época, era diretor do clube, é meu amigo. Tenho um carinho muito grande pelo Corinthians, entrei lá com sete anos e saí com 19. Passei muito mais tempo da minha vida no Parque São Jorge do que na minha casa. E toda minha família sempre foi corinthiana. Agradeço muito ter vestido a camisa do Corinthians, isso me fez tornar um jogador competitivo e ganhador.

E retornar ao Brasil para encerrar a carreira é um objetivo concreto?
Vou ser sincero: claro que no Brasil está minha família, as pessoas que eu amo, é o meu país, só que sou um profissional. E onde tenho as melhores condições de trabalho é a Europa, não o Brasil. Eu não tenho um pensamento, hoje, de voltar ao futebol brasileiro. Se amanhã, por ventura, eu me canse de tudo aqui, eu possa querer voltar para o futebol brasileiro. Mas hoje não penso, estou muito bem aqui.

Seu contrato vai até o final da próxima temporada. Já sabe o que fazer depois?
Não, porque não sei o que vai acontecer agora no mercado de verão. Vamos ter que sentar para conversar, porque ou o Zaragoza renova comigo ou vai me dar saída. O mais importante é que estou me valorizando bem, fazendo um boa temporada e subindo para a primeira divisão vai ficar melhor ainda. Se eu terminar como artilheiro da competição vai ser melhor ainda.

Você é um jogador que tem mercado entre os principais clubes do Brasil. O que na sua visão é melhor: defender o Zaragoza, uma equipe média da Europa, ou ficar no país e jogar por um grande clube?
A moeda tem dois lados. Eu optei, realmente, por ficar no Zaragoza porque tenho um contrato muito bom. Não vou dizer que amo isso aqui, o Brasil é meu país, mas eu sou um profissional e tenho que ver o que é melhor para mim e minha família. Então, financeiramente, compensa muito mais para mim jogar na Europa. Só que o futebol brasileiro tem algumas dificuldades. É complicada a segurança no nosso país, diariamente você corre riscos, e isso precisa mudar, principalmente a questão da violência e segurança. E eu já estou acostumado com a Europa. A opção profissional e pessoal de viver a vida tranquila contou muito mais do que tentar um retorno para o Brasil. Não cogitei e também não chegou nenhuma proposta concreta.

Pela Seleção Brasileira você disputou a Copa América de 2001. Como foi esse torneio?
Joguei bem, disputei partidas das eliminatórias também, no Morumbi, com o Romário. Foi bom, e tive a felicidade de passar por todas as categorias da Seleção Brasileira, da infantil a principal. Vestir a camisa da Seleção é um orgulho e prazer muito grande. E tenho a intenção e estou trabalhando para voltar à Seleção.

Por que você acha que não teve seqüência na Seleção?
Acho que porque na época tinham atacantes, que naquele momento, tinham muito mais bagagem, nome, mais experiência, e eu acabei indo para o futebol alemão. E no Brasil o futebol alemão não é tão visto como o Espanhol, Italiano. Por isso que aconteceu de eu não voltar mais para a Seleção Brasileira. Mas agora aqui na Espanha, três anos atrás tive uma temporada maravilhosa, marquei 20 gols, chegamos na final da Copa do Rei, e infelizmente era um ano de Copa do Mundo. Fui cogitado a voltar, e agora é trabalhar, ainda estou novo. Esperar o ano passar e fazer um bom campeonato, daí no próximo ano arrebentar aqui ou em outro lugar.

Ainda sonha em disputar a Copa de 2010?
Com certeza, acho que tenho condições para isso. Só preciso de uma oportunidade, se tiver essa oportunidade tenho certeza que vou aproveitar bem.

Qual foi o melhor zagueiro que você já enfrentou?
Boa pergunta… Maldini, um zagueiro difícil, duro, mas tem bastante.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo