Odisseia em qualquer lugar

A Várzea, como todos sabem, é uma níusléter atenta, que faz questão de acompanhar todos os futebóis mundo afora. A gente acompanha até mesmo o futebol de Butão [futebol de Butão… sacaram? Sacaram? Aaaaah…]. Vai daí, que desde o começo do ano a gente sabia: tínhamos de ir aonde o futebol estava, como diz aquela musiquinha. Afinal de contas, era ano de Copa. E, como todos sabem, seguindo a filosofia de mestre Jardel, “ano de Copa é ano de Copa e vice-versa.”
Claro, a gente teve de destacar para tal tarefa nosso caro Tolete, o intrépido repórter que foi o destaque da Várzea no ano [até prêmio com o nome dele aqueles mocorongos da Trivela fizeram. Na cara dura, sem nem pagar direito de imagem! – o editor]. Com sua ampla família, cheia de primos em todos os cantos do globo, o talentoso jornalista era o nome certo para a hercúlea tarefa.
Para pagar os gastos, A Várzea arrumou parceiros para ajudarem a custear as viagens – nossos fiéis amigos do Bar do Chico Linguiça, da Unilodo, da Uninada, das Faculdades Zoinho… dando um exemplo de credibilidade, Tolete se dispôs até a ser garoto propaganda da Uninada, mostrando seu talento para a publicidade e criando o íslôgan “A Uninada é tudo!” E, assim, nosso repórter partiu rumo à odisseia pelo futebol – de preferência, o futebol Alegre, já que europeu é tudo caneludo!
Primeiramente, começamos com os Estaduais, já que só de pensar em cobrir todos aqueles jogos da Copa São Paulo, dá uma preguiça… Claro, Tolete se concentrou em São Paulo, Rio, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, como todo repórter faz, deixando os outros campeonatos com seus primos. E, em São Paulo, de repente, nosso repórter estava no Bruno José Daniel, quando viu um moleque fazer a fila em três jogadores do Santo André, chegar à área e fazer o gol. A Várzea já contou essa história, mas não custa repetir: ele ouviu todo mundo falando em “Nilmar” e quis corrigir a galera no estádio, falando “vocês estão errados, ele já foi para o Villarreal faz é tempo”. Só quando foi chegar à redação é que viu que o nome do camarada era Neymar…
E, no dia seguinte àquele Santo André x Santos, ele ouviu um carinha dizer “Neymar tem de estar na Copa”. Não se empolgou: afinal de contas, aquele era apenas o 1872724864192º menino-moleque-maroto-alegria-do-Brasil que é cogitado para defender a Amarelinha às vésperas de uma Copa do Mundo. Não se empolgou nem com os elogios de Orlando Paranhos, que dizia “estes garotos do Santos estão recuperando o verdadeiro futebol brasileiro, aquele que eu via na década de 1960.” Não se empolgou nem mesmo ao ver os 10 a 0 no Naviraiense, ou um 8 a 1 no Guarani. Até que, um dia, Tolete soube que o Paulo Henrique Ganso estava pegando a Fernanda Paes Leme. Aí, ele reconheceu que aqueles garotos eram diferenciados. E passou a ser mais um a cornet… ops, a sugerir que Dunga os levasse à Copa.
Meio cansado do cotidiano paulista (afinal de contas, quando o assunto não era a molecada do Santos, era um atacante cujo peso era de 147 quilos), Tolete decidiu mudar de ares, ir para outros lugares. E se mandou para o Rio de Janeiro, onde veria a final da Taça Rio. Ele simplesmente tinha de estar lá, testemunhando um fato histórico: dessa vez, o Botafogo tinha sérias chances de não flopar, negar fogo, flatular na farofa num momento decisivo. Era algo comparável a uma hecatombe nuclear. Claro, o sucesso do clube do Mourisco só era justificado por uma presença: ele, Joeldi e sua prancheta de luz. A Força estava com os botafoguenses.
Mas a Estrela Solitária de General Severiano tinha de correr um risco, senão, ficaria sem graça demais. E o jogo estava lá empatado, até que, no segundo tempo, chegou um tal Pai Isaías de Ogum lá no Maracanã [é, ainda era o Maracanã, não tinha essa de Engenhão – o editor] e mandou um lero com o Tolete: “Aí, parceiro, vou te dar meu cartão. Faço amarrações, trago a pessoa amada em trêish diaish, e ainda faço previsões. Tu pode anotar essa daqui: um cara, tido como louco, vai salvar os alvinegros, do mesmo modo que salvará sua nação das trevas.” Pelo sim, pelo não, Tolete guardou o cartão. E viu Loco Abreu cobrar um pênalti com cavadinha e dar o título da Taça Rio – e carioca – ao Fogão.
Depois, Tolete foi para o Rio Grande do Sul. Pensava apenas em comer um baita churrasco e tomar chimarrão no Parcão, mas ficou intrigado com uma coisa engraçada: o Grêmio ganhando o Troféu Fernando Carvalho, e o Internacional, a Taça Fábio Koff. Teria terminado a rivalidade histórica? Afinal de contas, os dois ganharam as taças com os nomes dos cartolas adversários… como o tempo rugia, a cobertura da final do Gauchão teve de ficar com seu primo gaúcho, o Toletchê. E ele disse que, por via das dúvidas, ambos preferiram reforçar a inimizade eterna e fizeram mais um Grenal para definir o campeão, e o Grêmio ganhou. Senão, ia ficar esquisito tanta amizade.
Nosso repórter até pensou em ir para as Minas Gerais, mas seu primo Toletrem o dissuadiu: “Vem pra cá não, sô. Tá óbvio demais da conta. Se o Cruzeiro perdeu [perdeu…ahahahahahaha… para o…ahahahahahahaha… Ipatinga… – o editor], tá na cara que o campeão vai ser o Atlético, uai.” Então, ele preferiu voltar para São Paulo. Acompanhou os dois renhidos prélios entre Santos e Santo André.
E, numa hora da segunda partida, ele estava fora de campo, com a credencial, e Paulo Henrique Ganso o viu, quando ia cobrar um escanteio. Reconheceu Tolete de outras partidas do Paulixão, e ambos trocaram palavras amigáveis. Só que Ganso ia sair, Dorival Júnior pressionou, e o homem de Ananindeua subiu nas tamancas: “Vou nada! Sai o André! O papo com o Tolete tá bom e você quer me tirar daqui?! Nada disso!” O representante varzeano ficou bastante tocado com a consideração, mas, imparcial que é, chegou á seguinte conclusão: se o Santos foi campeão, mas o Santo André ganhou o jogo de volta por 3 a 2, então, quem tinha de ir à Copa eram os destaques do Ramalhão. E Tolete iniciou a campanha “Dunga, leva o Branquinho, o Rodriguinho e o Bruno César.” Se a imprensa não encampou isso, a errada é ela, não ele.
Findados os Estaduais, Tolete teve de amargar a tarefa de ir à Europa para ver os jogos daquelas barang… isto é, acompanhar as partidas finais da Liga dos Campeões [the chaaaampioooons! Tá-tá-tá-táááááá! – o editor]. O intrépido periodista chegou preparado com o discurso prévio de que o Barcelona era o melhor time do mundo, que ninguém podia com o Messi… mas foi a Milão e viu a Internazionale dar uma traulitada na culesada. Pensou “ah, tudo bem, vai ser uns 5 a 0 no Camp Nou.” Qual nada: certamente inspirado na marcação de handebol que o time da sexta série usava em seu tempo de estudante, Zé Pequeno Mouro conseguiu evitar que os anfitriões fossem além. E foi para a final, deixando Tolete desconsolado e decepcionado: “Eu, hein?! O Chico Linguiça's Globetrotters furava essa retranquinha aí sem o menor problema. E vem o pessoal me dizer que esse Barcelona aí é o melhor time do mundo? O JV Lideral ganhava desses daí!”
Menos mal que sua estadia na Espanha continuava. E, com a pança forrada por paêjas, Tolete se foi para Madri acompanhar a final. Viu a Internazionale ser campeã, mas novamente se acabrunhou com o modo como o título veio: dois gols de um legítimo representante da Argh!entina. E, novamente, o inefável jornalista varzeano saiu do Santiago Bernabéu fazendo indagações profundas: “Mas como? Tanto representante do Futebol Alegre em campo, e quem faz dois gols é um Argh!entino?! Francamente, esse futebol europeu é uma enganação total.”
Mas não tinha importância, porque chegava o grande momento em que até os seres intraterrenos que ocupam Marte [o Uíquilíquis ainda vai provar que tem vida lá, podem apostar! – o editor] param: a Copa do Mundo. Ah, saudade dela. Tolete até hoje suspira pela redação, lembrando dos grandes momentos que testemunhou de corpo presente na África do Sul: Yakubu exibindo sua grande capacidade de finalização; Green comprovando porque Fabio Capello apostou nele como papador de frang… ops, como goleiro na Inglaterra; a Coreia do Norte mostrando como sua defesa é tão fechada quanto banco 24 horas…
Inclusive, a Copa do Mundo serviu para que Tolete reencontrasse um antigo bichinho de estimação. No aquário que mantém em casa, junto de Sabriélly Jussylédna, o repórter tinha um polvo de estimação, chamado Espafregundo. Infelizmente, a certa altura, um dos filhos do casal jogou o octópode no vaso sanitário. Tolete amargou a perda, até que soube de um polvo marrom, que vivia na Alemanha e adivinhava todos os resultados dos jogos do Nationalelf na Copa. Ficou feliz, mas preferiu não requerer a guarda do cefalópode. Afinal, tinha mais coisas com que se preocupar.
Como a modelo que o Toleteeeeeeeeeiraaaaa [nunca mais te esquecereeeeei… – o editor], seu primo paraguaio, lhe apresentou em estudos de anatomia divulgados em jornais de alta qualidade. Ou a jornalista espanhola que ele conheceu no gramado de Durban, durante o Espanha x Suíça. Disseram que o Casillas ficou desconcentrado de olho na namorada, mas ele estava vendo se o Tolete não ia lhe botar uma grande duma galhada na cabeça.
Enfim, as emoções da Copa eram muitas. Tolete se empolgava em qualquer lugar. Tanto é que, numa ligação diretamente para a redação, comentava animado com o editor sobre Brasil x Costa do Marfim. Em voz alta, para todo mundo ouvir na sala de imprensa. Até que Dunga, meio incomodado com aquilo, perguntou: “Algum problema? Ah, não? Pensei que tinha.” Daí, um carequinha disse “Nem estou falando com você, Dunga.” Como a briga já não era mais com ele, Tolete se retirou da sala de imprensa.
E, mesmo sendor absolutamente imparcial, Tolete não se furtava a torcer pela Amarelinha – afinal, ser imparcial demais é coisa de urubu, gente do contra. Por exemplo, no Brasil x Holanda. Angustiado com o 2 a 1 da Oranje, ele começou a incentivar a Seleção com gritos de “pisa fundo, Brasil”. Felipe Melo cumpriu a ordem. O Brasil perdeu, mas tudo bem.
Ainda nas quartas de final, já no Burgo do Joanes, Tolete sentou-se atrás de um dos gols para ver Uruguai x Gana. Finzinho da prorrogação, as Estrelas Negras pressionando loucamente atrás do gol, até que surgiu a chance. Ele se empolgou com o clima favorável aos ganenses, e gritou: “Vamos lá, a vaga está na mão!” “¡Es esto, la mano!”, pensou Luis Suarez. E botou a mão na bola. Foi pênalti, só que o Gyan [não o ex-Vasco – o editor] chutou para fora. E, na decisão por pênaltis, tateando o paletó, Tolete encontrou um papel amarfanhado. Era o cartão do Pai Isaías de Ogum, lembram-se? Tolete se lembrou. E se lembrou também da previsão: um cara tido como louco salvaria sua nação das trevas. Ele pensou: “Loco Abreu vai bater com cavadinha”. Bingo: Uruguai nas semifinais.
Diante de todas essas emoções, a final foi até um anticlimax. Afinal, não se definiria quem era o melhor time da Copa, mas o menos amarelão da história. Tolete até se admirou ao ver a garra holandesa em busca do título – até falou que “De Jong estava certo, quem não aguenta solada no peito bebe leite” -, mas, com a vitória espanhola, pensou: “Ah, o Mick Jagger devia estar com a camisa da Holanda. Aí não dá mesmo.”
De volta ao Brasil, Tolete passou o resto do ano meio de ressaca. Desanimou-se com o Brasileiraço-aço-aço, até porque aguentar um campeonato em que dois dos principais destaques são argh!entinos é dose pra leão. Daí, ele só foi se animar com as últimas rodadas: a perspectiva de ver o Fluminense ser campeão significava nova viagem ao Rio. E ele viajou novamente. Só que, chegando lá, a chuva impediu que ele saísse pela Avenida Atlântica para pegar umaish cariocaish, tomar uns chopes no Bracarense, fazer a festa na Apoteose…
Mas ainda faltava o Mundial de Clubes. E Tolete foi-se para Dubai, certo de que iria cobrir a final em que um Inter seria campeão. Porém, por uma dessas coincidências, ele acabou hospedado no mesmo hotel em que o TP Mazembe. Fez amizade com o Kidiaba, e até ensinou a ele uma dança que ele praticava quando era jovem e se arriscava no brêique, lá nos anos 1980. Tendo um pouco de simpatia pelo time congolês, Tolete novamente ficou sensibilizado ao ver o Mazembe fazendo 2 a 0 no Internacional, e Kidiaba praticando a dança com a qual ele fez sucesso nos bailes da juventude.
Para fechar 2010 com chave de ouro, Tolete, afinal, aceitou o pedido de desculpas da Trivela por usar seu nome indevidamente. E entregou o Tolete d'Oro ao vencedor, em cerimônia na Sociedade Amigos de Bairro da Vila Mimosa. E assim, fecha um 2010 incrível. Mas que não significa parada: Tolete já estará a postos no dia 4 de janeiro, para acompanhar a primeira rodada da Copa São Paulo. Afinal de contas, aqui é jornalismo, meu filho!
[E vê se não escreve tanto assim no ano que vem, Tolete! Senão, os mocorongos da Trivela enchem o saco e não emprestam mais este espaço para a gente! – o editor]


