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“O videoteipe é burro!”

Hoje, 21 de dezembro, faz 27 anos que morreu Nelson Rodrigues. Não, não é uma data redonda nem há em torno de seu nome um burburinho especial causado por um evento qualquer – uma exposição, a montagem de uma peça, ou uma minissérie de TV. Mas a Trivela resolveu homenagear o mestre assim mesmo. Até porque, a Trivela é um site de futebol, e o escritor era um homem do futebol. E além disso, uma das grandes chagas contemporâneas, segundo Nelson – a idiotice – está cada vez mais pimpante e disseminada (“O povo é um débil mental. Digo isso sem nenhuma crueldade. Foi sempre assim e assim será, eternamente.”). Indivíduos que babam uma baba elástica e bovina se multiplicam aos borbotões e certamente ele antevia a evolução do problema.

Dados os 27 anos passados de sua morte, não é pouco provável que grande parte dos leitores da Trivela não tenham tido o contato devido com a obra rodrigueana. Nelson Rodrigues não entendia de futebol como entende Paulo Vinicius Coelho, por exemplo. Sua visão era uma visão lúdica, poética, apaixonada, longe da racionalidade e bom senso do ESPNista PVC. Mesmo assim, com os relatos de Nelson, era possível ver o jogo, ouvir o barulho da arquibancada e até sentir o ar abafado de uma tarde quente num jogo na Rua Bariri.

Mas por favor: que o leitor da Trivela que ainda não teve o prazer de se deliciar com a obra futebolística (e não-futebolística) de Nelson Rodrigues que confunda a poesia e a visão romântica do pernambucano (naturalizado carioca) com imitações reles, chãs. Nada mais longe de Nelson Rodrigues do que as crônicas geradas à fórceps pelo “escritor” Pedro Bial na Copa do Mundo. Não. Esqueça a melancolia grudenta e copiada que o global tentava fazer ao descrever as aventuras brasileiras no além-mar, achando-se possuído por um vento camoniano, pela sensibilidade agressiva de um dos irmãos Rodrigues (Mário e Roberto, além do próprio Nelson).

Não. Autor de teatro, apesar de não ter intimidade com o que Freud, Jung e companhia lapidavam no século 20 (“entre o psicanalista e o doente, o mais perigoso é o psicanalista”), Nelson definiu a personalidade e o mundo carioca, como nenhum outro de seus contemporâneos. E na sua análise inconsciente – e do inconsciente – do Rio de Janeiro, do brasileiro e do carioca em especial, ele moldou o imaginário do futebol da época. Se hoje todos escutamos falar sobre a ‘época de ouro’ do futebol brasileiro, é em muito graças a ele. Se os críticos do futebol dos anos 50 e 60 foram calados e esquecidos, muito se deve à visão romântica de Nelson.

Assim, hoje a Trivela faz um apanhado de trechos cunhados pelo escritor (muitos deles disponíveis na Internet), mas especialmente em duas edições da Companhia das Letras, “A Pátria Sem Chuteiras” e “À Sombra das Chuteiras Imortais”. Tivesse nascido num país de língua inglesa, Nelson seria famoso mundialmente. Falando português, tornou-se um patrimônio só dos brasileiros. Mais feliz ainda é o Rio de Janeiro, que ganhou dele uma espécie de Genoma da sua personalidade.

Futebol, por Nelson Rodrigues

Brasil, produtor de craques

“O nosso futebol é de uma variedade, de uma riqueza impressionante. O sujeito não dá um passo, aqui, sem esbarrar, sem tropeçar num craque. Eles surgem aos borbotões, em cada esquina, em cada café, em cada boteco. Nas peladas de rua, a gente encontra, de pé no chão, autênticos virtuosos da bola.”

A prancheta do PVC, por Nelson Rodrigues

“Todo o Brasil, de extremo a extremo, procurou acomodar-se às concepções modernas de futebol. Os moleques fazem as suas peladas de rua com outros recursos táticos. Sabem como armar seus teams descalços. Usam a imaginação brasileira, o nosso poder de improvisação, mas dentro de uma certa estrutura. O futebol de bola para frente e fé em Deus não é mais possível. Eis o dilema: – Modernizar-se ou morrer.”

Nelson x os Anti-Seleção

“Descobri o cretino fundamental no futebol. Ele é aquele que não tem orgulho do seu país ter ganho 3 vezes no futebol. Tem brasileiro apenas escrito em seu passaporte. Em todo lugar tem esse tipo de pessoa. Mulheres traem homens porque eles são cretinos fundamentais. O adultério é uma vingança da mulher”.

Fla x Flu

“Amigos, estarei descobrindo a pólvora se disser que o Fla-Flu é o maior jogo do Brasil (e, se me permitirem, o maior jogo do mundo). Antes, era um simples Fluminense e Flamengo. Mário Filho [o irmão de Nelson] não tinha ainda descoberto a abreviatura que ficaria para sempre: – Fla-Flu. E o Fla-Flu caiu na boca do povo. O clássico passou a fascinar as multidões. Quando os dois medem forças é uma festa carioca. Os carros em disparada, as bandeiras ventam em procela. O impressionante no Fla-Flu é que sempre é grande jogo. Noventa minutos de tensão dionisíaca. O torcedor vai para casa emocionalmente exausto”.

O jornalista e a ‘imparcialidade’

“Amigos, de vez em quando aparece um vascaíno irado, a reclamar: – “Você não escreve sobre o Vasco!” Pausa e acrescenta, numa irritação maior: – “Você só escreve sobre o Fluminense”. E, de fato, não há segredo. Todo mundo sabe que existe entre mim e o tricolor um vínculo sagrado. Sou “pó de arroz” desde cinco anos. De mais a mais, gostar de alguém ou de um clube é um mérito. Triste é não ter um clube, triste é não ter um amor. Dito isto, devo acrescentar que não dou exclusividade ao tricolor. Escrevo sobre todos os outros clubes, inclusive o Vasco”.

Pelé (a quem apelidou de “Rei”)

“Não me venham falar em Di Stéfano, em Puskas, em Sivori, em Suárez. Eis a singela e casta verdade: não chegam aos pés de Pelé. Quando muito, podem engraxar-lhe os sapatos, escovar-lhe o manto”.

“Olhem Pelé, examinem suas fotografias e caiam das nuvens. É, de fato, um menino. Se quisesse entrar num filme da Brigitte Bardot, seria barrado, seria enxotado. Mas reparem:- é um gênio indubitável. Digo e repito:-gênio. Pelé poderia virar-se para Michelangelo, Homero ou Dante e cumprimenta-lo com íntima efusão: – “Como vai, colega?”

Garrincha

“Um Garrincha transcende todos os padrões de julgamento. Estou certo de que o próprio Juízo Final há de sentir-se incompetente para opinar sobre o nosso Mané”.

“Deslumbrante pais seria esse, maior que a Rússia e os Estados Unidos, se fôssemos 75 milhões de Garrinchas”.

Elogios fáceis

“A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem”.

Espírito vencedor

“Ou expulsamos de nós a alma da derrota ou nem vale a pena competir mais. Com uma humildade assim abjeta, ninguém consegue nem atravessar a rua, sob pena de ser atropelado por uam carrocinha de chica-bon”.

O torcedor do Botafogo

“Os outros comparecem [ao jogo] na esperança de saborear como um Chica-bon o triunfo do seu clube. Mas o torcedor do Botafogo é diferente:- ele compra seu ingresso como quem compra o direito inalienável de sofrer. O futebol é um detalhe secundário, mesmo desprezível”.

Profeta

“Guardem esse nome de pai de família e de Barnabé:- Coutinho. Ou muito me engano ou estará ele no escrete brasileiro que, se Deus quiser, vai ser bicampeão, no Mundial do Chile”. (em 1959)

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Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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