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O último dos bicampeões

Desde que assim foi nomeada, a partir da temporada 1991/92, a Liga dos Campeões já teve vários times que entraram para a história. Para citar somente equipes campeãs, pode-se lembrar do Ajax de 1994/95, das formações do Real Madrid campeãs em 1997/98, 1999/2000 e 2001/02, do Barcelona de 2005/06… não por acaso, a lista é tamanha, e o equilíbrio dos torneios é tal, que nunca, no período “Liga dos Campeões”, um mesmo clube conseguiu ser bicampeão consecutivo.

A última vez que isso aconteceu foi ainda na época em que o torneio continental europeu era chamado Copa dos Campeões. E o time que obteve a façanha é lembrado até hoje como uma das grandes esquadras do fim do século XX: o Milan campeão das edições 1988/89 e 1989/90. A montagem do time e as campanhas dos dois títulos serão contadas neste texto.

A montagem do time: um certo empresário

No começo de 1986, o quadro interno do Milan era desalentador. Se os tempos de punição pelo escândalo do Totonero e de passagens pela Serie B já haviam passado, eliminações na Copa Uefa fizeram a torcida se virar contra o presidente do clube, Giuseppe Farina, e problemas financeiros graves deixavam a falência muito próxima. Nem mesmo o time satisfatório, que tinha nos atacantes Virdis e Hateley os destaques e o lendário Nils Liedholm como técnico, parecia poder afastar o perigo do fim.

Até que, em 20 de fevereiro de 86, certo tempo após a renúncia de Farina, um empresário milanês, já famoso na cidade, fundador e presidente da holding financeira Fininvest, compra o clube, mesmo sem ser acionista anteriormente. Seu nome: Silvio Berlusconi. Um mês e quatro dias depois da transação, em 24 de março, Berlusconi assume o cargo de presidente do Milan. Ato contínuo, as dívidas são pagas e, em seu discurso de posse, Berlusconi é direto: “Temos de virar o maior time do mundo, com um estilo de jogo espetacular.”

A temporada 1985/86 não traria títulos nem vaga em copas europeias, mas o objetivo nem era mesmo esse. A partir de 1986/87 é que se veria o princípio da montagem de um time que pudesse tornar as palavras de Berlusconi fatos concretos. E os jogadores foram chegando: da Atalanta, veio o promissor meia Roberto Donadoni. Da Fiorentina, um bom atacante, Daniele Massaro, e Giovanni Galli, titular no gol da Azzurra que disputara a Copa do Mundo de 1986. Do Verona, campeão italiano em 1984/85, chegava mais um meia, Giuseppe Galderisi. Da Roma, um zagueiro, Dario Bonetti. 

Com um começo de temporada irregular, Nils Liedholm também foi demitido, dando lugar a Fabio Capello no comando da equipe. Ainda não seria daquela vez que os títulos viriam, mas os indícios eram de tempos muito melhores para os Rossoneri. Terminando o Campeonato Italiano empatada em quinto lugar com a Sampdoria, a equipe consegue a classificação para a Copa Uefa vencendo um difícil jogo-desempate com os bluecerchiati – a vitória por 1 a 0 veio só na prorrogação. Além disso, o artilheiro da Serie A da temporada vestia a listrada em rubro-negro: Virdis, com 17 gols.

O time ficaria pronto de verdade antes do período 1987/88. A primeira contratação fundamental veio para o banco de reservas: no lugar de Capello, chegava o treinador do Parma que eliminara o Milan da Coppa Italia, Arrigo Sacchi. Adepto do “futebol total”, com marcação contínua por pressão, perfeita linha de impedimento e conquista de espaços no campo, Sacchi receberia do futebol holandês dois reforços que virariam lendas milanistas: Marco van Basten e Ruud Gullit, vindos respectivamente de Ajax e PSV, que comporiam o ataque junto de Virdis. Para o meio-campo, juntar-se-iam a Donadoni Carlo Ancelotti e Angelo Colombo. A defesa? Ora, e qual acompanhante daquele time não se lembra da linha Tassotti-Baresi-Costacurta-Maldini?

O primeiro título

A equipe demorou a entrar nos eixos no Italiano 1987/88, por necessitar de tempo para assimilar o estilo que Sacchi queria impor no time. Mas, quando entrou… em 3 de janeiro de 1988, uma goleada por 4 a 1 simplesmente sobre o Napoli de Maradona, atual campeão da Serie A, marcou a reação rossonera, coroada com nova vitória sobre os partenopei, em 1º de maio, por 3 a 2, fora de casa, que permitiu a manutenção da vantagem na liderança do torneio. Dois empates com Juventus e Como, e pronto: após nove anos, o Milan era de novo campeão italiano e iria para a Copa dos Campeões. Nem as eliminações precoces de Coppa Italia e Copa Uefa freavam a alegria da torcida com o fim das vacas magras – e o surgimento do time que ficaria conhecido como Gli Immortali (Os Imortais).

Antes do torneio europeu, chegaram para o elenco o atacante argentino Claudio Borghi e mais um holandês que faria história em Milanello, o zagueiro Frank Rijkaard, transformado em meia por Arrigo Sacchi. O primeiro duelo na Copa dos Campeões foi fácil: vitórias fora (2 a 0) e em casa (5 a 2) sobre o Vitosha, hoje Levski Sofia, da Bulgária. Já nas oitavas-de-final, a primeira pedreira para a equipe de Sacchi. Enfrentando o Estrela Vermelha, com a base da seleção da Iugoslávia, a equipe apenas empatou na primeira partida, em pleno San Siro, por 1 a 1, tendo de definir a vaga em Belgrado.

Na partida de volta, em 9 de novembro de 1988, o Milan perdia por 1 a 0, gol de Savicevic, e estava com um jogador a menos, devido à expulsão de Virdis. Aí, uma neblina pesada fez com que o árbitro da partida, o alemão Dieter Pauly, tivesse de suspender o jogo, aos 16 minutos do segundo tempo. Na repetição do confronto, no dia seguinte, o Estrela Vermelha saiu na frente de novo, com Stojkovic, mas Van Basten conseguiu o empate, que levou a definição para os pênaltis. Nas cobranças, Milan 4 a 2.  

Nas quartas, novamente um duelo feito de placares magros. Enfrentando o Werder Bremen, o Milan arrancou empate sem gols na ida, fora de casa, e, na volta, garantiu a classificação com um 1 a 0, graças a um pênalti convertido por Van Basten. Nas semifinais, o time enfrentaria o Real Madrid de Hugo Sánchez e Butragueño, que eliminara o PSV, campeão anterior da Copa. Jogos extremamente difíceis, certo?

Por incrível que pareça, errado. Sim, a primeira partida das semis, disputada no Santiago Bernabéu, foi renhida e rendeu um empate em um gol. Hugo Sánchez abriu o placar na primeira etapa, e Van Basten foi mais uma vez o salvador, empatando aos 32 do 2º tempo. A volta, no San Siro… até hoje a partida de 19 de abril de 1989 é tida como uma das mais brilhantes da história do Milan. Impiedosos e históricos 5 a 0, com Ancelotti, Rijkaard e Gullit marcando no primeiro tempo e o placar sendo fechado com Van Basten e Donadoni, no segundo tempo. A classificação à final da Copa não poderia ser melhor.

A final, contra o Steaua Bucareste, no Camp Nou de Barcelona, em 24 de maio de 1989, nem precisava repetir o brilhantismo das semifinais. Mas, diante de quase cem mil torcedores, aquele time carimbou o passaporte para entrar na história do Milan, em outra performance lendária, quase perfeita. Mais do que isso, Gullit e Van Basten marcavam lugar nos corações milanistas, marcando dois gols cada um e garantindo outro indubitável placar. O 4 a 0 mandava a taça da Copa dos Campeões de volta a Milão, após 20 anos (isso, porque o time já se sagrara bicampeão nacional). Nada mal para um time que estava à beira da falência, havia apenas três anos. De quebra, Van Basten consagrava-se pessoalmente, como o principal goleador do torneio, com 10 gols.

O bis

Na temporada 1989/90, o Milan manteve a base para a busca do bicampeonato europeu. A nova caminhada europeia começou contra o HJK Helsinki, da Finlândia. Assim como na primeira fase de 1988/89, classificação sem muitos problemas, praticamente garantida já no jogo de ida, em Milão (4 a 0, em 13 de setembro de 1989) e sacramentada com simples 1 a 0 na volta, com gol marcado por Stefano Borgonovo.

E, também como na temporada passada, as oitavas-de-final trariam um desafio considerável. O Milan reencontrou o Real Madrid, sedento por vingar a dura eliminação nas semifinais. Para tornar as coisas ainda mais difíceis, a decisão seria na Espanha. Restava à equipe vencer no Giuseppe Meazza. E, mesmo sem goleada como na Copa anterior, ela venceu: em 18 de outubro de 1989, 2 a 0, com os gols de Rijkaard e Van Basten – este, de pênalti – sendo marcados ainda nos primeiros 15 minutos de partida. A vantagem foi fundamental no jogo de volta, quando a equipe suportou a pressão madridista e conseguiu ser derrotada só por 1 a 0, gol de Butragueño. Os rossoneri estavam nas quartas. Antes, ainda venceriam o Mundial Interclubes de 1989, superando o Nacional de Medellín, com gol de Evani no penúltimo minuto da prorrogação.

E nas quartas é que se confirmaria a tendência que aquela Copa dos Campeões teria de ser mais difícil do que a anterior. Enfrentando o KV Mechelen, da Bélgica, então campeão da Copa Uefa, o Milan arrancou um empate sem gols na ida, fora de casa. O problema é que, na volta, em 21 de março de 1990, em pleno San Siro, os 90 minutos regulamentares também terminaram sem gols, levando a decisão para a prorrogação. Só então o Milan despacharia o time belga, com gols de Van Basten e Marco Simone.

As semifinais, então, foram ainda mais árduas. Como adversário, outra equipe tradicionalíssima no futebol europeu, o Bayern de Munique. E, novamente, a desvantagem de precisar jogar a partida decisiva fora de casa. Na ida, a 4 de abril de 90, no San Siro, só um pênalti convertido por Van Basten, aos 32 do 2º tempo, deu a vitória ao Milan. A volta, no Estádio Olímpico de Munique, trouxe necessidade de mais uma decisão na prorrogação, já que Strunz, aos 14 do 2º, igualara a vantagem milanesa. Já no tempo extra, o salvador seria um reserva; Stefano Borgonovo, aos 10 da 1º etapa, empatou. Alan McInally ainda colocou o Bayern na frente, já no segundo tempo da prorrogação, mas, pelo gol marcado fora de casa, o Milan chegava a mais uma final de Copa dos Campeões.

A decisão, em 23 de maio de 1990, no Praterstadion de Viena, seria contra um Benfica que tentava conquistar, daquela vez, o título que ficara tão próximo em 1987/88. Mesmo com atuação superior à dos Encarnados, o Milan não conseguia o gol. Até que, aos 23 minutos, Maldini, ainda no campo de defesa, passou a Van Basten. O atacante, de primeira, tocou a Rijkaard, que, na corrida, invadiu a área e tocou na saída de Silvino. Ainda restava um certo tempo, mas o bicampeonato já era uma certeza, confirmada pelo apito final do austríaco Helmut Kohl. Novamente, o capitão Franco Baresi erguia a taça.

Depois, Arrigo Sacchi foi comandar a seleção italiana, veio o bi mundial interclubes sobre o Olimpia, do Paraguai, Fabio Capello assumiu o comando rossonero, Gli Immortali se transformaram em Gli Invincibili, ao conquistar o Italiano 1991/92 de modo invicto, viriam três finais consecutivas de Liga dos Campeões… mas isso já é outra parte da mesma história.

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Equipe Trivela

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