O sonho de ‘Zico’

O sucesso de Zico no Flamengo, Udinese e seleção brasileira inspirou até mesmo as peladas de rua no Iraque. Zeid Yasin (foto), ou “Zico”, como é conhecido desde a infância, é um atacante iraquiano de 22 anos que defende o modesto Orebro Syrianska, da Suécia, e deixou seu país de origem fugindo da guerra e do regime de Saddam Hussein. Com ajuda do jornalista Hassanin Mubarak, que nos permitiu o contato, entrevistamos este prodígio que já defendeu clubes da Suécia, Islândia, Qatar, seleção Sub-21 do Iraque, além do Al-Jaish, de seu país. É a primeira entrevista exclusiva que um futebolista iraquiano concede para a imprensa escrita brasileira.
Infância em Bagdá
“Eu tenho boas memórias daquele tempo maravilhoso. Nós tínhamos muito tempo e jogávamos futebol todos os dias, eu tinha muitos amigos, mas após as guerras eu perdi o contato com todos eles”.
Jogar no Iraque
“Foi uma boa experiência jogar lá (no Al-Jaish, 2004/5). A única coisa negativa era que não tínhamos campos para treinar ou mandar nossas partidas. As lesões não me deixaram em paz também, aí voltei”.
Sobrevivência no futebol iraquiano
“A maioria, especialmente nos grandes clubes, consegue viver só com o dinheiro do futebol”.
Treinos
“Nos clubes do Iraque os treinos são sempre no final da tarde porque é muito quente. Existem treinadores realmente muito bons lá”.
Torcedores
“Antes desta última guerra, os estádios estavam sempre abarrotados, mas depois de 2003 caiu demais por causa da guerra e da segurança repugnante que existe pelas ruas. A guerra não deixou os torcedores saírem e fez com que o número caísse muito nos estádios. O povo iraquiano adora futebol”.
Dentro de campo
“Obviamente não tem a rapidez e a força física daqui da Europa, mas somos conhecidos como o ‘Brasil da Ásia’ pelos talentos que sempre tivemos”.
Confrontos étnicos em campo
“Não vi nada disso, mas é suficiente observar a nossa seleção campeã asiática onde você encontra árabes, curdos e cristãos. No Iraque todos são respeitados e sua origem não te garante um lugar num time”.
Seleção iraquiana
“É claro que eu ainda sonho em jogar na seleção principal. É um sonho que eu ainda persisto e não estou satisfeito em somente ter feito parte da seleção Sub-21. Inclusive, já tem muitos anos que não visto aquela camisa (desde 2004), mas minhas raízes estão lá. Ainda sonho em jogar de novo por alguma equipe iraquiana e na seleção também”.
Aventura no Qatar
“O treinador Slobodan Santrac, do Al-Arabi, tinha grande interesse que eu ficasse, isso já no meu primeiro treino. Infelizmente ele foi demitido algumas semanas após minha chegada. Se ficasse mais tempo lá, teria jogado com Effenberg e Batistuta!”
Família Yasin
“Eu tenho quatro irmãos, três deles jogam futebol e um é treinador. O futebol é muito popular na minha família, seguimos todos os grandes campeonatos e estou interessado em acompanhar a Liga Iraquiana”.
Adaptação à Escandinávia
“É igualmente fácil fazer amizades tanto no Iraque quanto na Suécia. Mas depende de você segurar os contatos ou não”.
Ídolos
Maradona. Além de Romário e Ronaldo. No Iraque Ahmed Radhi foi a grande referência para mim por ter feito o único gol da nossa seleção na Copa de 86”.
Zico
“Foi um camarada que me apelidou de Zico quando eu era criança e ficou”.
Brasil
“É um país que eu sempre sonhei visitar. Seria um sonho ir ao país e conhecer Romário e Ronaldo”.


