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“O mundo deveria conhecer isso aqui”

O currículo é extenso e bem diversificado: com experiência em clubes de 11 países, em quatro continentes, o técnico Paulo Campos, atualmente no comando do Al-Hilal do Sudão, é comumente lembrado como o assistente técnico de Vanderlei Luxemburgo no Real Madrid. Porém, o que o treinador espera é ser lembrado por muito mais que isso. 

“O mundo deveria tomar conhecimento disso aqui, é impressionante”, afirmou o brasileiro, em entrevista à Trivela, referindo-se à paixão dos sudaneses pela pelota. “Penso que, por estar aqui, não trago algo só pelo futebol, mas também algo humano, alegria.”

Há cerca de três meses no comando da equipe sudanesa, Paulo Campos conduz o time na Liga dos Campeões Africana, torneio que o Al-Hilal não disputava há anos. A expectativa, segundo ele, são as melhores, contando com uma torcida que leva diariamente aos treinos do elenco quase 15 mil fanáticos, em uma dos grupos mais “apaixonados” que o brasileiro afirma ter visto em mais de 25 anos de carreira.

Sua primeira experiência foi na Nigéria (no Calabar Rovers), com apenas 23 anos. Como foi estrear logo de cara num time do exterior, e tão jovem?
A equipe era bem bacana, onde conheci atletas mais velhos e experientes, que se surpreenderam com a minha juventude. Mas, por ser brasileiro, eu trouxe toda uma expectativa e alegria quando cheguei. Não pelo fato de eu ser o Paulo Campos, e sim por ser brasileiro, e pela imagem que eles fazem de nós. Foi um estímulo muito grande pra mim.

Como surgiu a proposta para trabalhar no Sudão, no Al-Halil?
Eu disputei o Campeonato Paulista com o Mogi Mirim no começo de 2009. Um empresário do Al Hilal me fez a proposta e, como eu já trabalhei no mundo árabe, já me conheciam muito bem. Como o clube se classificou para a Liga dos Campeões da África depois de muito tempo, eles buscavam um reforço. Estamos atualmente em primeiro no Grupo A da LC, e em primeiro no torneio nacional, a seis pontos do segundo colocado, nosso maior rival.

Quais suas primeiras impressões no Sudão?
Uma coisa que me impressionou foi a relação da torcida com o futebol. Eles são completamente apaixonados. Na minha chegada no Sudão, havia mais de cinco mil pessoas me esperando no aeroporto, uma coisa inacreditável. Em cada treino – e digo treinos, não jogos – há cerca de 10 a 15 mil pessoas apenas para assistir. Em amistosos e jogos nacionais, o público no estádio é de cerca de 30 mil pessoas. Em jogos da LC, o público é de aproximadamente 40 mil torcedores dentro do estádio, e ficam pra fora cerca de 20 mil. É uma coisa impressionante, com a qual não estamos acostumados.

Ao que você atribui a evolução do time, que não tinha essa boa fase há tempos?
O futebol daqui tem muita qualidade, apesar de não ser equilibrado – dois clubes de revezam na ponta. A seleção nacional ainda tem muitos problemas, mas o clube em si é muito forte. O futebol aqui é de um bom nível, temos uma boa participação internacional e, nacional, ainda mais. Sinceramente, eu atribuo muito disso para essa torcida, e sua paixão, que empurra o time. Eles passam isso pro futebol, pros jogadores.

Com a boa campanha do Al Hilal na LC africana, quais são suas expectativas para o torneio?
Temos realmente adversários bem fortes, entre times da Tunísia, Nigéria, Congo, Zâmbia. Nosso grupo é um dos mais equilibrados, e nosso rival direto está na nossa chave. Portanto, o nosso “clássico” da competição já acontece direto. A África tem sim um futebol de primeiríssima qualidade, é competitivo, com torcidas apaixonadas. Não dá pra prever o que vai acontecer, não há nada definido.

E você prepara sua equipe com foco na LC ou no campeonato nacional?
Claro que tentamos nos mantermos fortes nos dois. O foco principal é a LC, mas não descartamos a atenção do campeonato nacional. No ano passado, nosso rival ganhou, e, neste ano, queremos recuperar a taça.

Quando você recebeu a proposta para trabalhar com o clube, você já o conhecia, sabia alguma coisa sobre ele?
Por já ter trabalhado no mundo árabe, já conhecia sim. Lembro-me muito bem de disputar campeonatos, e da paixão da torcida. Já me chamava atenção desde então, quando eu via o público nos estádios, em jogos fora, que era quase o mesmo que dos da casa.

Você já trabalhou em quatro continentes, em 11 países. Como você avalia o futebol africano, em comparação ao brasileiro, em estilo?
O que mais me impressionou na África é a capacidade física natural dos atletas. Devido às dificuldades locais, como as grandes distâncias, e os problemas naturais dos africanos, eles acabam desde pequenos tendo que percorrer quilômetros e quilômetros para chegar onde precisam. Eu via muito disso já na Nigéria, torcedores que faziam longas caminhadas para ir aos jogos. Por essa condição física, temos apenas que trabalhá-la e aproveitá-la. Os africanos têm uma capacidade técnica muito desenvolvida, parecida com a dos brasileiros; eles só não têm a criatividade que temos, esse “algo a mais” que o brasileiro possui. Há muitas semelhanças entre as qualidades. Na parte deficitária, eu diria que é a capacidade tática e organizacional. E isso vale para a África num geral, não só em campo, mas também fora dele.

No Sudão, o futebol é considerado instrumento político?
Sim, totalmente, futebol é carro-chefe de qualquer estrutura, e acho que isso é assim em qualquer parte do mundo. A política acaba sendo dependente do futebol. Os membros dos conselhos dos clubes fazem parte da política local, dos partidos. O problema é que isso tem que servir para o futebol, e não o contrário.

Como é a relação dos jogadores com os torcedores? Eles são vistos também como “celebridades”?
Sim, completamente. Os torcedores têm um carinho muito grande pelos jogadores. Em qualquer lugar que eles vão, têm que parar, tirar foto. Eles são ídolos, heróis nacionais. É impressionante chegar ao centro de treinamento, e ter já do lado de fora umas duas mil pessoas esperando seu carro. Quando entramos em campo, os jogadores sempre buscam retribuir esse carinho, eles fazem a volta no gramado, saúdam a todos nas arquibancadas.

Como é o investimento nas categorias de base?É impregnado na cultura local os jovens sonharem, desde muito cedo, serem jogadores de futebol e ídolos nacionais?
O sonho, sem dúvida, há sim. O país é mesmo apaixonado por futebol. Porém, os cuidados dos clubes com as categorias de base são um pouco deficitários – o que é, por sinal, uma situação que me preocupa, e sempre os questionei por essa falta de investimento. Sei que já tentaram, mas não foi possível. O Sudão sofreu muito com o embargo econômico que viveu, e o país ainda está se reerguendo. Os clubes não têm muitas condições de financiar alguns investimentos.

Uma vez que os torcedores são assim tão apaixonados e “idolatram” os jogadores, como é a cobrança e a pressão por resultados?
Bom, aqui, paixão, sonhos, esperanças por títulos é como em qualquer outro lugar. Muitos ficam felizes de ver um futebol bonito, bem jogado, acima de qualquer coisa. Pelo fato de eu estar aqui, acham que teremos um “futebol brasileiro”, “feliz”. Há uma cobrança normal, na questão do trabalho. Mas não há violência alguma, de nenhum tipo, pelo menos no tempo em que estive aqui, não vi nada disso.

O Al-Hilal sempre foi um dos times mais tradicionais no Sudão?
O Sudão tem cerca de 40 milhões de habitantes. Estima-se que 70% da população daqui seja torcedora do Al-Hilal; ele sempre foi um dos principais times do país. O mundo deveria tomar conhecimento disso aqui, é impressionante. É um clube tradicional, já esteve duas vezes nas semifinais da Liga dos Campeões, é conhecido, tem história.

Você comentou sobre a situação política que o Sudão viveu. Você sente reflexos disso no futebol e na política do presente?
Tudo o que sei daqui, tive conhecimento pela imprensa. Desde que cheguei, e já vou completar três meses, só tivemos alegria, paz. Parece que tudo o que lemos foi mentira. Mas não foi, sabemos que aconteceu. E quero que a torcida venha cada vez mais ver o futebol, e sempre vou abrir meu estádio pra torcida. A seleção, por exemplo, sempre treina com portões fechados; eu não, sempre abro ao público, acho que é uma maneira de contribuir. Penso que, por estar aqui, não trago algo só pelo futebol, mas também algo humano, alegria, esperança.

Como é sua relação com a distância da família e do Brasil, uma vez que você passou a maior parte da sua carreira fora?
Eu diria que essa é a única parte ruim de toda a história. Sou muito apegado à família, esposa e filha. Creio que esse é o grande problema da minha vida fora de casa. Porém, temos que abrir mão de algumas coisas.

Considerando sua experiência no mundo árabe e na África, como foi sua adaptação ao Sudão?
Com a passagem que tive nesses países, adquiri experiência de como lidar com a cultura, língua, religião. Eu que tenho que me adaptar à maioria. Aqui, fala-se o árabe, e teu tenho um pouco de conhecimento já. Tenho um tradutor, que já trabalhava no clube antes, e fala bem o português, então, me viro bem com ele, e com o poço que sei de árabe, um pouco de inglês… a gente dança conforme a música. A religião aqui é muçulmana, pela qual tenho grande respeito. Eu acredito em Deus, e acho que isso é o importante.

Como foi sua experiência no Brasil, ao lado de Vanderlei Luxemburgo, inicialmente na equipe B do Palmeiras?
O Vanderlei chegou depois de mim, e me ajudou muito na equipe B. A geração que montamos lá nos deu muita alegria3 m,

Como é trabalhar com Luxemburgo?
É muito gratificante. Para qualquer profissional ter a oportunidade de trabalhar com o Vanderlei. Ele é um excelente estrategista, com personalidade forte, com profissionalismo, e que não brinca em serviço.É um vencedor. Só tenho coisas boas pra falar sobre ele.

Qual foi seu melhor aprendizado trabalhando no Real Madrid?
É um aprendizado diário, sem dúvida. Você aprende a lidar com jogadores de alto nível, tem que trabalhar com a cabeça dele, cumprir com o estabelecido e as metas, e, isso sem contar a qualidade técnica invejável. Nosso único problema lá foi o Barcelona: eles tinham uma equipe melhor. De resto, não houve problema algum, o clube tem grande estrutura, uma boa filosofia, qualidade. Infelizmente, deram pouco tempo para o Vanderlei trabalhar. E era disso que ele precisava. Assim como deram pouco tempo para o Felipão, no Chelsea.

Ao que você atribui essa “falta de tempo” dada aos treinadores brasileiros?
Ouvindo os comentários dos treinadores brasileiros que estiveram no exterior, cheguei à conclusão que os europeus não têm paciência. Os dirigentes europeus e a torcida acham que, quando um jogador brasileiro é contratado, dará “show”, será diferenciado logo de cara. Acham que mudará da noite pro dia. Com treinador, é a mesma coisa. Esperam aquele futebol espetáculo, vitorioso, de um dia pro outro. Mas é aí que está o grande engano. Trabalhamos com 20, até 25 jogadores diferentes, não temos o dom da mágica de mudar da noite pro dia.

Você acha que a rápida passagem de Luxemburgo pelo Real Madrid, ou mesmo a de Felipão do Chelsea, podem ter turvado a imagem do técnico brasileiro na Europa?
Bom, não dá pra negar que mexe um pouco com a estrutura do pensamento europeu, claro que mexe. Mas não acho que será uma coisa definitiva, determinante. Outros treinadores brasileiros têm total condição de chegar lá.

Depois de trabalhar em quatro continentes, qual a sua visão dos diferentes estilos e estrutura de futebol entre cada um deles?
De modo bem esquemático: no futebol europeu, que trabalhei em três clubes, dois países. Lá o futebol é altamente profissional; a organização é acima da média, assim como o nível intelectual. É só pensar que os maiores do mundo estão lá. Na América do Sul, há uma capacidade técnica altíssima, e muita há criatividade; porém, não tem condição financeira, e pecam na organização, que são as razões para os jogadores saírem. Na África, têm capacidade física excelente, assim como técnica, mas a organização também é ruim, assim como há uma falta de capacidade tática. Na Ásia, a organização é realmente muito boa, mas eles não têm boa capacidade técnica. Dos aspectos negativos, diria que, na Europa, não há nenhum.

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Equipe Trivela

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