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“O Márcio Braga parou no tempo”

O Flamengo é uma bagunça política. Isso todo mundo sabe, mas quando alguém que estava lá dentro mostra como acontece tudo, percebe-se que o clube ainda precisa evoluir muito.

João Henrique Areias assumiu os Esportes Olímpicos do clube no começo do ano. Saiu após o presidente Márcio Braga, na comemoração do título brasileiro do basquete, menosprezar a sua participação e de toda equipe que ele levou para lá publicamente. Nesta entrevista à Trivela, Areias, um dos idealizadores da Copa União, em 1987, fala um pouco sobre os meses que coordenou o departamente no Flamengo.

Por que você decidiu assumir os esportes olímpicos do Flamengo?
Eu disse ao Márcio Braga que iria voltar ao Flamengo para ajudar o clube. Naquele momento, o esporte olímpico estava para acabar. A ginástica estava com muitos problemas, com a Jade Barbosa, Daniele Hypólito e Diego Hypólito sem receber salário, e o basquete ia perder todos os jogadores. Pouco antes a Patrícia Amorim, que cuidava dos esportes olímpicos, pediu o cargo, disse que ia sair e concorrer à presidência. Foi quando o Márcio Braga me pediu ajuda. Levei um grupo de dez ex-estudantes do meu curso para trabalharmos no clube e implantamos um novo modelo de gestão. Íamos ficar de fevereiro a abril, mas esticamos até junho. Tudo isso sem receber nada, esse era o acordo. Basicamente, o que criamos de mais importante foram a Coordenação de Negócios e a Coordenação Econômica na estrutura. Arrumamos a ginásticas, pagamos todos os salários atrasados no basquete, conquistamos o título do NBB (Novo Basquete Brasil) e acertamos quase todas as premiações. Só faltou a do Brasileiro de 2008.

E o que motivou sua saída?
O Márcio Braga cometeu um deslize político quando o time foi campeão do NBB. Na hora de receber a taça, ele chamou a Patrícia Amorim, que quer ser oposição nas próximas eleições. Não chamou ninguém da nossa equipe, que tinha trabalhado tanto nos últimos meses e que conseguiu reerguer tudo. A questão política se sobrepôs ao aspecto esportivo. Discuti com ele pela imprensa, porque não foi certo. Queria deixar um legado…

Acha que o trabalho vai ser prosseguido?
O Marcos Vaz, que já fazia parte da estrutura, ficou no meu lugar. Ele vai continuar o trabalho, já até renovou o contrato da maioria dos jogadores do time de basquete. Agora, se vai pagar ou não, isso já não sei. Quando eu entrei, disse que ia implantar o meu modelo, sem dirigentes amadores.

Os mesmos problemas de antigamente devem voltar?
Não sei se vai voltar tudo, porque criamos muita coisa. Conseguimos o patrocínio da Companhia do Terno, a Loterj veio na seqüência e também ajudou, as finais na HSBC Arena foram um sucesso. Na decisão contra o Brasília, levamos mais público do que nas partidas dos Jogos Pan-Americanos. Toda essa renda ajudou muito, mas no final sobrou pouco para o Flamengo, por causa de todas as dívidas.

Você esperava continuar no clube?
Não esperava continuar, por isso que a ideia sempre foi criar o Instituto Fla Olímpico. Entreguei o projeto para o Delair Dumbrosck e disse que não teria como implantá-lo por causa das eleições. Ele me disse que, se for eleito, vai criar o instituto em 1º de janeiro. O Flamengo nos esportes olímpicos precisa de uma entidade nova, com CNPJ novo, separada do futebol. É preciso buscar novas fontes de receita. Hoje, de tudo que entra no clube o TRT pega 15% para pagar dívidas trabalhistas. O Márcio disse que tinha a intenção de fazer isso, mas usou tudo politicamente.

No futebol o Flamengo sofre muito também com problemas políticos. Qual é a solução para evitá-los?
Mudar o modelo de gestão.Escrevi um artigo há algum tempo, propondo o “Presidente por um dia”. Toda eleição precisa acontecer dentro do estatuto do clube, por isso proponho que o candidato fale abertamente nas eleições que no dia seguinte que for eleito iria convocar uma reunião com o Conselho Deliberativo para mudar o estatuto. Claro que um dia estou exagerando, porque isso demanda tempo, mas aí criaria um novo conselho de administração, onde ele seria o presidente e teria mais alguns integrantes. Eles escolheriam um CEO no mercado para administrar o clube profissionalmente, que ficaria abaixo dele, um presidente profissional. Claro que teria que ser alguém de fora, porque dentro do Flamengo a cultura é do século passado.

Mas você acha que isso seria viável dentro da cultura futebolística brasileira?
Estou há 22 anos no futebol, desde a criação da Copa União, em 1987, quando fiz parte do marketing. O mercado está mudando, pedindo a profissionalização. Uma hora ou outra os clubes vão ter que mudar. Principalmente os times do Rio de Janeiro. Fluminense e Botafogo já estão bem mal e o Vasco na segunda divisão.

Ainda mantém contato com o Márcio Braga?
Sim, eu mantenho contato, sou amigo dele há 22 anos. Só que eu disse que não trabalho nunca mais com ele. Com a cabeça que tem, o Márcio Braga parou no tempo.

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Equipe Trivela

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