O jogo político da Fifa

Mohamed Bin Hammam, adversário de Joseph Blatter nas eleições presidenciais da Fifa, em junho, foi um dos maiores suportes do suíço em sua chegada ao cargo, em 1998. O presidente da Confederação Asiática (AFC) bancou consideravelmente a campanha de Blatter, cedendo até um jatinho particular para suas viagens em busca de votos.

Blatter e Bin Hammam romperam em 2009, e desde então o milionário do Catar tem declarado oposição. Vem de uma vitória política importante, após levar a Copa do Mundo de 2022 para seu país – mesmo sem ter feito parte do comitê de campanha -, e espera tirar partido das mais recentes acusações de corrupção nas práticas internas da Fifa.

Bin Hammam, 13 anos mais jovem que Blatter, usa “transparência e tecnologia” como seu mote de campanha, prometendo maior atenção à possibilidade do uso de meios tecnológicos para auxiliar a arbitragem, algo que o atual mandatário tem visto com ressalvas.

O asiático sabe que não entra em uma briga fácil. Não faltaram acusações de suborno e promessas de favorecimento em todas as eleições de Blatter – algo que ele deve conhecer muito bem. Em 1998, o concorrente era o sueco Lennart Johansson, então presidente da Uefa. Johansson lutava não apenas contra Blatter, mas contra todo o aparato criado para levar João Havelange ao poder e depois mantê-lo por 24 anos.

De qualquer maneira, mesmo que Bin Hammam seja eleito, é improvável acreditar que sua chegada ao poder signifique uma mudança significativa no modus operandi da Fifa. Afinal de contas, a vitória do Catar na corrida pelo Mundial de 2022 também foi recheada de suspeitas, e durante 13 dos 15 anos de sua presença no comitê executivo da Fifa, Bin Hammam só soube dizer “amém” a Blatter.

Blatter iniciou a campanha para se reeleger a um quarto mandato dizendo que não tentaria se manter no cargo após 2015 – tática velha e manjada. Pode ser, ainda, uma forma de buscar o apoio de Michel Platini, que vem de um bem sucedido primeiro mandato na Uefa e acaba de ser aclamado para mais quatro anos à frente do futebol europeu.

Platini também não tem nada de bobo. Tem vários cavalos de batalha na sua administração, como a reformulação da Liga dos Campeões para abrigar países periféricos, a aprovada política do “fair-play financeiro” a ser implantada durante seu segundo mandato e a venda coletiva dos direitos de transmissão das eliminatórias de seleções. Além disso, fez com que os governos de países Sérvia e Croácia se envolvessem diretamente na luta contra a ação dos hooligans, sob ameaça de exclui-los das competições.

Em suas declarações mais recentes, Platini tem manifestado apreço pelo futebol de seleções e defendido seu espaço no calendário. Ao dizer que acha estranho ver jogadores que declaram preferir um título da Champions, menina dos olhos da Uefa, ao da Copa do Mundo da Fifa, o francês sinaliza de alguma maneira que olha para um futuro no comando do futebol mundial.

Platini mira 2015, mas sabe que terá papel decisivo na eleição de 2011. Por isso, não fala abertamente se apoiará algum dos candidatos. A Uefa tem 53 votos de um total de 208.

Mesmo com a promessa de sair em 2015, Blatter tem outros aliados políticos que gostaria de ver como sucessores – Jérôme Valcke, secretário-geral, e Ricardo Teixeira, presidente da CBF e todo-poderoso da Copa de 2014, são alguns da linha de frente.

Assim, Platini pode relutar em se manifestar favoravelmente ao suíço, preferindo se posicionar como clara oposição nos próximos quatro anos.

Bin Hammam dificilmente abriria mão de tentar a reeleição dentro de quatro anos caso conseguisse chegar ao topo agora, mas pode mudar de ideia caso consiga trazer Platini para seu lado. Definitivamente, o maior ator da disputa está do lado de fora.


Bin Hammam e Blatter: mais do mesmo

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo