“O fanatismo aqui é de arrepiar!”

Logo na sua temporada de estréia na Meridian Superliga, a liga sérvia de futebol, o volante Juca (foto ao lado), ex-Fluminense e Botafogo, curte a liderança da competição jogando pelo poderoso Partizan, da capital Belgrado. Feliz e titular do meio-campo do ‘Grobari’, como o time é conhecido na região, a equipe está há sete pontos de vantagem sobre o vice-líder, arqui-rival e atual bicampeão Red Star. Neste papo com a Trivela, o camisa ‘8’ do Partizan fala da sua adaptação ao país, do futebol sérvio e do fanatismo das torcidas no ‘derby eterno’ contra o Red Star. “Tinha umas camisetas vermelhas aqui (cor do rival), mas tive que dar tudo pra não me complicar” conta o gaúcho, de Passo Fundo. Confira!
O Partizan mudou radicalmente o plantel nesta temporada 2007/8, saíram e entraram vários jogadores e mesmo assim a equipe é líder da Liga Sérvia e vai muito bem. Qual o segredo do sucesso?
A estrutura que o clube oferece é muito boa e também acho que os jogadores que chegaram se encaixaram muito bem uns com os outros, por isso penso que estamos tendo sucesso tanto no Campeonato Nacional como na Copa da Sérvia.
Nesta temporada você está trabalhando com treinadores muito jovens que abandonaram a carreira de jogador há pouco tempo. Como foi trabalhar com Miroslav Djukic e como está sendo agora com Slavisa Jokanovic? Quais as diferenças entre eles?
São dois treinadores muito corretos com o grupo, muito profissionais. Tanto o Djukic quanto o Jokanovic são treinadores bastante acessíveis e tem uma liderança muito forte sobre o grupo. Eu acho que isso ajuda muito porque você sabe que do lado de fora tem um amigo e que você pode contar com essa pessoa. Com certeza são dois treinadores que daqui a pouco certamente vão figurar nos maiores centros do futebol mundial porque são muito competentes.
Como é compor o meio-campo ao lado de Tosic, Lazic e Almami Moreira? Quais os pontos fortes e fracos desse quarteto?
Está sendo muito bom jogar ao lado desses jogadores porque são habilidosos e tem muita qualidade, em especial o Moreira (meia português, ex-Standard, da Bélgica) por falar a mesma língua que eu. Agente se dá muito bem tanto dentro de campo como fora também, e como são jogadores inteligentes isso ajuda bastante. O ponto fraco é a marcação, já que nosso time prima muito pelo ataque, então, eu acho que muitas vezes ficamos um pouco desguarnecidos. Mas acho que esta dando certo, então, vamos continuar assim (risos).
Recentemente falamos com o zagueiro chileno Berríos, que jogou no OFK Belgrado e agora está na Malásia. Ele disse que a Liga Sérvia é competitiva, forte e sempre revela bons jogadores. Por ter crescido na escola gaúcha – que também tem essas três características – foi fácil se adaptar ao estilo de jogo sérvio?
Eu tive uma adaptação muita rápida aqui, eu acho que isso me ajudou muito também porque fui muito bem tratado por todos, pessoas do clube, na cidade, diretoria, enfim, todo mundo querendo me ajudar. Isso foi o que mais me deixou contente e por isso eu acho que estou conseguindo ter sucesso. Estou bastante contente por ter feito essa opção de vir jogar na Sérvia. Em relação ao estilo de jogo, realmente é muito disputado, de muita briga, mas o Partizan além de ter essa gana de querer ganhar tem também muita qualidade e isso nos ajuda a fazer bons jogos e se Deus quiser chegaremos ao titulo.
Já arrisca algumas palavras em sérvio?
A língua é realmente muito difícil. Alguma coisa sai como ‘bom dia’, que é “dobro iutro'', ‘obrigado’, que é ''huala'' (gargalhadas), agente vai se virando e eu faço aulas de inglês aqui também, então, dá pra me virar legal. Já não passo tanto sufoco como no começo (gargalhadas), mas esta sendo uma experiência muito boa, estou gostando muito.
Você conversa mais com o pessoal que fala português como o Vitor Hugo, ex-Sport Recife, o Moreira e o Ednílson ou já tem amizade com outros jogadores?
Tenho amizade com todos, mas com quem eu sempre estou junto é com os três, até pela facilidade da língua, mas a gente tem aqui uma pessoa que nos ajuda muito. Ele trabalha no marketing do clube, mas esta sempre conosco, é o Jaric Vlada. Ele fala que a vida dele virou de cabeça pra baixo depois que agente chegou (gargalhadas), mas é um cara fantástico que nos ajuda em todos os momentos aqui na Sérvia.
Conte-nos como é o ‘derby’ entre Partizan e Red Star. Tem algo diferente dos outros clássicos que disputou?
É um clássico que pára o país. Na semana que antecede, é uma rivalidade muito grande, os torcedores são muito fanáticos aqui, é de arrepiar mesmo! Também é muito bonito, você vê o estádio lotado e jogar uma partida dessas. Eu até tinha umas camisetas vermelhas aqui, mas dei tudo pra não me complicar (gargalhadas).
O comportamento dos torcedores é realmente violento neste derby? Existe algum tipo de precaução na semana que antecede o clássico para que os jogadores evitem dar entrevistas polêmicas ou provocativas para evitar a violência dos torcedores?
A rivalidade é muito grande mesmo, mas não tem nada de especial em relação a preparação durante a semana. É uma festa muito bonita que os torcedores fazem. É uma sensação muito boa você entrar em um estádio lotado e saber que tem um país inteiro parado esperando aquele jogo. Isso faz com que você se desdobre dentro de campo pra conseguir vencer, é muito bom.
Tem disparado seus ‘canhões’ nas cobranças de falta ou ainda não marcou gols nesta situação?
Até agora não fiz gol de falta, mas ainda tem dois meses pra sair um golzinho assim (risos), está na hora já.
Fala-se maravilhas do atacante Stevan Jovetic, que tem apenas 18 anos e já é o capitão da equipe. Tecnicamente, ele tem qualidades tão especiais assim?
É um garoto que tem um futuro brilhante pela frente e tem nos ajudado bastante. Tomara que continue crescendo e que seje bem auxiliado, pois se continuar nesse caminho vai ter uma carreira de muito sucesso.
Não acha um absurdo um garoto tão inexperiente usar a faixa de capitão, pois, por mais personalidade que tenha, é um peso enorme para quem está começando?
Eu sinceramente não ligo muito pra essa coisa de capitão. Eu acho que o que vale é lá dentro de campo e a atitude que você tem perante seus colegas. Eu acho que ele esta exercendo bem a função, apesar de ser muito jovem, mas aqui todos tem sua ‘parcela de capitão’, isso é bom pra todos.
Quem no plantel chamou sua atenção em termos de qualidade?
O Tosic (Zoran, meio-campista, 21 anos) é um jogador muito habilidoso que nos ajuda muito com suas jogadas individuais, além do Moreira, que pensa rápido e sempre deixa os atacantes em condições de marcar gols. Apesar de ser um futebol muito disputado, eu tenho o privilegio de jogar num time que também tem muita qualidade.
O Leste Europeu é conhecido por ser fonte de grandes talentos com requinte técnico superior a muitos países da Europa Ocidental. Pelo que você observa, o trabalho de base é muito bem feito ou não?
Aqui o pessoal é apaixonado por futebol, você vê muita criança jogando bola na rua, nas escolas, eles gostam muito. Em relação as categorias de base, o Partizan tem uma estrutura fantástica, o que proporciona uma qualidade maior dos seus futuros jogadores.
O Botafogo sempre teve muita estima por você desde quando jogava no Marilia. Ainda pretende retornar ao clube um dia?
Eu gostei muito de ter jogado no Botafogo, foi o time que eu mais gostei de jogar, onde eu me senti melhor, o ambiente é muito bom. Eu só tenho a agradecer as pessoas que eu trabalhei lá porque só fui ajudado. Em relação a voltar, eu acredito que seja difícil já que tenho objetivo de ficar na Europa um bom tempo, mas vou ser sempre grato ao Botafogo por tudo que passei lá e pelos amigos que fiz.
Certa vez Romário se auto-definiu como “um cara mal-humorado e pouco simpático”. Como foi conviver com ele e Edmundo no Fluminense de 2004?
Foi muito bom, apesar de não ter conquistado títulos, mas deu pra conhecer duas pessoas que sempre querem vencer e eu aprendi muito com os dois, em especial com o Romário, por ser uma pessoa bastante fechada, mas que depois que você conhece te deixa muito á vontade. Foi muito legal ter jogado ao lado desses dois jogadores e hoje poder falar que joguei ao lado de dois dos maiores craques do mundo. Pra mim é uma satisfação.
Com qual sentimento você encarou o título mundial do Inter, seu ex-clube, em 2006?
Eu comemorei muito, me lembro até hoje que acordei bem cedinho, em Porto Alegre. Eu estava de férias, aí quando acabou, todo mundo foi pra rua comemorar. Eu não pensei duas vezes, peguei meu carro, meus filhos, e comprei uma bandeira e sai buzinando também, foi muito emocionante, eu nasci colorado, não tem como mudar, sou colorado pra sempre.
Sobre as mulheres sérvias. a beleza delas se equipara à das gaúchas, cariocas e catarinenses, ou nem de longe?
Elas são lindíssimas, iguais as brasileiras!


