O Caçula da Holanda

O Preparador Físico brasileiro Alessandro Schoenmaker segue sua aventura na Eredivisie – a liga holandesa de futebol. Depois de pouco mais de três temporadas no FC Utrecht, agora ele vive seu novo desafio, o FC Twente, 5º colocado na atual temporada. Neste contato, o ex-preparador do Guarani de Campinas, disserta sobre os bastidores de sua nova equipe e fala da atualidade do futebol holandês. Confira nas linhas abaixo como foi esta ótima conversa com o ‘fysiek trainer’ mais jovem da Eredivisie.

Como aconteceu o convite para você trocar o FC Utrecht pelo Twente nesta temporada?
Ao final da temporada passada recebi o convite de dois clubes da Eredivisie. Todo profissional tem ambições, e eu não sou diferente. Após ter trabalhado três anos e meio no FC Utrecht como assistente, a oportunidade de ser o encarregado da preparação física numa equipe como o Twente, me surpreendeu positivamente. Primeiro porque me tornaria o preparador mais novo da Eredivisie, e segundo porque a equipe havia realizado sua melhor campanha nos últimos anos.

O FC Twente terminou a última temporada em 4º lugar depois de muitos anos fechando o campeonato na zona intermediária da tabela. Você percebeu que o ambiente e a mentalidade no clube é diferente do FC Utrecht? A ambição é maior?
Todo time possui ambições e no Twente isto não e diferente. A equipe tem como objetivo, estruturalmente, dentro de cinco anos, terminar sempre entre os cinco primeiros colocados. O Twente, assim como o Utrecht, teve um período muito complicado estruturalmente e financeiramente, mas que foi superado e hoje é um dos clubes mais “saudáveis” da Eredivisie.

A torcida do FC Twente parece ser bem mais fanática também, não?
A torcida do Twente é bem fanática, sim. Devido a pequena concorrência com outros clubes na província de Overeijssel, o FC é o mais querido. Os torcedores do clube são conhecidos como “Tukkers”, e a maior torcida organizada se chama “VAK-P”. Recentemente jogamos em Madrid, pela Copa UEFA contra o Getafe, e lá estavam 800 torcedores do Twente. Aqui na Eredisivie, sempre quando jogamos fora de casa temos o apoio em massa de nossa torcida. Por nosso estádio ser menor do que do meu ex-clube (FC Utrecht), a pressão parece ser bem maior.

Como vai o trabalho diário com o técnico Fred Rutten?
Trabalhar com um treinador com a experiência dele é muito bom. Posso resumir a pessoa dele em duas palavras: exigente e atencioso. Ele sempre diz “Nunca esteja satisfeito, coloque seus objetivos bem alto, para não se acomodar e ser intermediário”.

O que você aprendeu de mais valioso trabalhando ao lado do técnico Foeke Booy e do Preparador Físico Rob Druppers durante seus anos no FC Utrecht?
Ambos foram muito importantes durante a minha passagem de três anos pelo Utrecht. Não só dentro como fora do clube, a pessoa Rob Druppers foi muito importante para meu crescimento e adaptação ao país, tanto que mesmo após a minha mudança de clube mantemos contato quase que diário. Já Foeke Booy foi quem indiretamente abriu as portas para mim. Sem a sua confiança no meu trabalho, eu não teria ficado por tanto tempo no clube, já que ele além de técnico, também era diretor técnico na época. Atualmente, ele trabalha na Arábia Saudita (Al Nasr).

Você ainda mantém contato com seu amigo Rick Kruys, meia titular da seleção Sub-20 da Holanda no Mundial Júnior 2005?
Como você mencionou, Rick Kruys é um amigo que fiz no FC Utrecht, assim como Rob Druppers e David Nascimento. Com eles mantenho contato, e sempre que posso faço uma visita a eles ou ligo após uma partida. Mesmo a distancia, ainda acompanho o trabalho deles. O Utrecht continuará sendo um clube que aprecio, mas infelizmente também somos adversários e temos os mesmos objetivos.

Quais os jogadores do FC Twente que mais te impressionaram, tecnicamente e nos treinos físicos, desde que você chegou?
O grupo do FC Twente não me surpreendeu, haja vista o resultado obtido na temporada passada. Mesmo com a saída de alguns jogadores, o grupo foi reposto a altura; entre eles Romano Denneboom, Stein Huysegems, Alfred Schreuder e Youssouf Hersi. Pessoalmente admiro o futebol dos meio-campistas Karim El Ahmadi e Orlando Engelaar. Fisicamente tem me surpreendido o talentoso Andre Rendla, que com apenas 16 anos integra a equipe principal. Além do Eljero Elia.

Impressiona a forma como o meia Orlando Engelaard, 28 anos, explodiu tarde para o futebol. É incrível ver um jogador de 1,96 de altura e 92 quilos ser protagonista de uma equipe jogando com a ‘10’. Foi chamado agora para seleção. Conte-nos um pouco sobre este jogador, que tem particularidades bem interessantes em campo…
Orlando é um verdadeiro profissional, tanto fora quanto dentro de campo. Assim como Alfred Schreuder (meia) é muito atento aos jogadores mais jovens. Esta temporada ele herdou a braçadeira de capitão que antes era do goleiro Boschker. Realmente impressiona sua estatura, que não atrapalha em nada sua agilidade e velocidade. Mas, marcante mesmo é sua técnica e disciplina tática. No jogo classificatório da Holanda contra a Eslovênia para Euro 2008, ele integrou o grupo.

Blaise N´Kufo, aos 32 anos, atravessa uma fase fantástica e foi o goleador da equipe nas últimas quatro temporadas. Depois de atuar em vários clubes, só foi se achar no FC Twente. Causa estranheza ele não ter conseguido chegar numa equipe ‘top’ na Holanda, dada sua qualidade como centroavante. Como está sendo trabalhar com ele?
N’Kufo encontrou no Twente a tranquilidade que precisava. Aqui lhe foi dado o tempo para ele se adaptar a cultura do país e a maneira de se jogar. Também foi na Holanda que ele construiu sua família. Sua qualidade é indiscutível. É um exemplo de profissional; sempre é um dos primeiros a chegar ao clube e logo desce para sala de musculação.

Em campo, é o último a ir aos vestiários, treinando finalizações e bolas paradas. É um atleta que sabe de sua idade e também é muito atento ao seu corpo. Assim como Orlando, ele voltou a seleção da Suíça após boa fase no Twente..

Chama a atenção a quantidade de jovens promissores do Twente: Wout Brama, Eljero Elia, Sérgio Zijler, Arnautovic, Patrick Gerritsen e El Ahmadi. Como esta safra esta sendo trabalhada e aproveitada atualmente?
Não somente estes jogadores, mas alguns outros talentos tem ganhado especial atenção do clube. Todos que você mencionou integram as seleções inferiores de seus países. O FC Twente talvez seja, na Holanda, um dos clubes que mais revela jogadores para equipe profissional. Desde o início da pré-temporada, temos ‘estagiários’ no time principal: jogadores que por sua idade, integram as categorias de base, mas que tem o potencial, para dentro de um futuro breve, integrar o grupo profissional. Com estes atletas é desenvolvido um trabalho físico, técnico e mental, individualizado.

O FC Twente acertou o empréstimo do jovem goleiro búlgaro Nikolay Mihaylov, junto ao Liverpool. Ele está aceitando ‘na boa’ ficar no banco para o veterano Boschker?
Nikolay é um goleiro promissor, que por não poder atuar na Inglaterra foi emprestado ao FC Twente. Assim como outros jogadores estrangeiros, ele ainda passa por um processo de aclimatização. Ele tem uma personalidade forte, mas tem aceitado esta situação numa boa, e é visto no clube como um provável candidato a camisa 1. 

Voltando a Utrecht, na 2ª rodada da Eredivisie, o que você passou da sua ex-equipe para o técnico Fred Rutten?
A equipe do Utrecht, após a chegada do técnico Willen Van Hanegen, mudou muito a maneira de jogar, está muito mais ofensiva, deixando mais de lado as características de força e raça, dos últimos anos. Um dos destaques é o Sanmartean, cérebro do meio campo da equipe e responsável pela criatividade.

Do grupo do ano passado, ele (Sanmartean) junto com o atacante Vandenbergh, são os únicos jogadores com quem eu quase não trabalhei. Neste jogo foram poucas as informações repassadas, pois ele mesmo já havia visto algumas partidas do Utrecht durante a pré-temporada. Infelizmente, o jogo terminou em 2 a 2, mas um admirador de um bom futebol, voltou satisfeito para casa.

Qual a situação dos preparadores físicos no futebol holandês, hoje?
Atualmente quase todos os clubes possuem um preparador físico em sua comissão técnica. O Preparador é responsável não só pela equipe principal, mas muitas vezes também pela categoria de base. Cada vez mais sua figura ganha importância. A resistência que resta é quanto a maneira de trabalhar de alguns profissionais, considerada pela confederação especifica. A mesma instituição que prezava o trabalho com bola, tem mudado sua visão.

Escale a seleção ideal da Eredivisie na atualidade? Quem seriam os ‘11’ de Alessandro Schoenmaker?
Gomes (PSV); Steinsson (AZ Alkmaar), Heitinga (Ájax), Addo (PSV) e De Cler (Feyenoord); Simons (PSV), Afellay (PSV) e El Ahmadi (Twente); Farfan (PSV), Afonso Alves (Heerenven) e Suárez (Ájax).

Você está aberto a propostas do Brasil ou pretende seguir na Europa?
Esta é a minha quarta temporada na Europa; trabalhando aqui, fica muito difícil para os clubes brasileiros avaliarem meu trabalho. Atualmente sou o preparador mais jovem trabalhando na Eredivisie. Todo profissional tem um objetivo em sua carreira, que é crescer. Aparecendo algo interessante, onde se possa ter uma boa estrutura para trabalhar, porque não?