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No calor do Qatar (2)

Como a Q-League, Campeonato de futebol do Qatar, está prestes a começar, procuramos os brasileiros Rúbio Alencar, preparador físico, e Rodrigo ‘Barroca’ (foto ao lado), preparador de goleiros, para batermos um papo sobre o ponta pé inicial de uma das ligas mais ricas da Ásia. Ambos atuam no Al Shamal, clube localizado ao norte do país, onde alinha o ex-astro holandês Ronald De Boer.

Otimistas e empolgados para nova temporada, Barroca e Rúbio contaram tudo sobre os bastidores da temporada 2007/8 e principalmente detalhes de como é planejada a pré-temporada de uma equipe no Qatar, e como as questões climáticas são um fator fundamental dentro da programação de treinos e preparação.

Confira abaixo como foi este interessante contato!

O Al Shamal fez a pré-temporada na Hungria para poder trabalhar em dois períodos e fugir do calor infernal do Qatar nesta época do ano, onde é impossível treinar de dia. Como foi essa preparação?
Barroca – O Shamal fez sua pré-temporada na Hungria, em um lugar com uma ótima estrutura voltada ao esporte, onde dentro do complexo tinha bom Hotel, ótima academia, campos de futebol, pista de atletismo e piscinas de águas frias e quentes. Também o grande atrativo para trabalhar em dois períodos é a boa temperatura e a qualidade do ar que são muito importantes para fazer toda a base da equipe para temporada. Aqui no Qatar, durante o dia esta fazendo 50 graus, impossibilitando o treino no campo, assim trabalhamos apenas em academia pela manhã e treinamos no campo somente à noite. Os jogos da Qatari League ocorrem apenas no período noturno também por este motivo.

Rúbio – Todas as equipes do Golfo utilizam desta estratégia e o Al Shamal não foge a regra. As temperaturas elevadíssimas neste período impossibilita realizarmos uma preparação mais qualificada. Tivemos uma experiência vindo da temporada passada onde realizamos nossa pré-temporada em Debrecen, na Hungria, um local que nos ofereceu totais condições para que nosso trabalho evoluísse de forma continua e satisfatória. Sendo assim, resolvemos voltar ao local que possui uma excelente infra-estrutura esportiva. Também é interessante salientar que equipes que se prepararam bem em suas pré-temporadas na liga passada tiveram bons resultados no transcorrer dos jogos. Outro fator que devemos mencionar é que na liga passada tivemos poucas lesões musculares – apenas duas. Elas foram ocasionadas por ‘Overtraining’. Uma foi com o Ahmed Hadid (seleção do Omã), e o Adel Chaled. Ambos os casos foi diagnosticado uma pubalgia. O que nos indica que a pré-temporada foi essencial para termos sempre nossos jogadores em condições físicas ideais para todos os jogos, e que essas lesões já vieram acompanhando esses jogadores há um bom tempo, pois eles não faziam fortalecimento muscular na sala de musculação onde iniciamos a preparação da temporada passada.

A comissão técnica ainda é toda brasileira? Como tem sido o trabalho do
treinador Adilson Luis?

Barroca – Sim, toda comissão é a mesma da temporada passada, todos são brasileiros e agora com a chegada de mais um assistente técnico (Julio César Marinho). Hoje a comissão técnica do Al Shamal esta realizando um trabalho de alto nível e com um planejamento de trabalho para fazer uma ótima temporada.

Rúbio – O Júlio César Marinho, que já trabalhou aqui no Golfo com o Zé Mário e o Candinho é o novo integrante. No Brasil ele fez bons trabalhos no Americano e no Friburguense. Além de ter sido auxiliar do Zé Mário, no Guarani, e do Evaristo de Macedo, no Vitória. Com a presença dele, facilitou muito mais o trabalho do Adilson, pois ele tem condições de realizar trabalhos mais específicos de zagueiros, atacantes, qualificando mais os trabalhos. O Barroca continua como preparador de goleiros e eu como preparador físico. Uma comissão técnica cujos membros falam o mesmo idioma facilita a organização dos treinamentos e os jogadores só tem a ganhar com isto.

Como estão indo os novos reforços Evando e Paulo César?
Barroca – Os nossos reforços para esta temporada, Evando e Paulo César, encaixaram muito bem dentro do time, estão totalmente adaptados ao futebol daqui e tenho certeza que farão um grande campeonato juntamente com o Marcone (zagueiro, ex-Vitória e Marilia) e o Ronald De Boer. O Evando é um atacante conhecido, por passagens em grandes clubes como Vitória de Guimarães, de Portugal, Santos, Fluminense, Ponte Preta, Avaí entre outros. Na Jassim Cup ele fez três jogos e marcou 3 gols, é um grande atacante. O Paulo César é um ótimo zagueiro, forte, técnico, com passagens por Avaí, Grêmio, Stuttgart Kickers, da Alemanha, Xian Anxinyuan, da China, e Estrela Amadora, de Portugal. Deve formar uma grande dupla de zaga com o Marcone.

Rúbio – São jogadores que vieram para somar e nos ajudar nesta caminhada difícil. São de boa qualidade e experiência e tem nos mostrado que estão afim de vencer no futebol do Qatar.

Ronald De Boer tem privilégios? Aos 37 anos ele ainda tem gana de treinar e jogar?
Barroca – O Ronald De Boer é um líder dentro do time, é o nosso capitão, e passa muito da sua experiência para os novos jogadores daqui. Dentro dos treinos ele procura fazer o seu melhor. Nos jogos é onde ele se destaca fazendo grandes passes e lançamentos ao Evando. Acredito que o Ronald ainda esta motivado a fazer uma boa temporada aqui no Al Shamal.

Rúbio – Um jogador com experiência de Copa do Mundo, Liga dos Campeões, Eurocopa, e que jogou em grandes clubes e que ainda tem motivação para jogar uma liga com jogadores técnicos e de muita força necessita de uma atenção especial. Devido a sua idade, devemos sempre estar atentos em relação aos limites de condicionamento físico que são impostos durante uma partida. Nos treinamentos ele tem consciência de ser um jogador que vai sempre formar opiniões. Uma liderança dentro e fora de campo. Sempre avaliamos sua condição física durante a liga e ele nos oferece sempre boas respostas quanto às valências físicas que estão envolvidas numa partida. Lógico que com suas limitações físicas tudo tem que ser analisado, mas que ele faz a diferença dentro de campo com suas assistências e experiência é inegável. Ele é um jogador de referência.

Barroca, como está indo o trabalho com os goleiros nesta temporada?
O Al Shamal tem um grande goleiro, Salah Al Hayar. Acredito que este ano irá para seleção, pois está muito cotado para isso. Então por ele já estar tecnicamente em um bom nível, isso fez com que o trabalho programado na pré-temporada fosse mais forte, e o resultado foi ótimo. Agora após a Jassim Cup, estamos iniciando uma forte sequência de treinos para que os goleiros entrem 100% no inicio da Liga.

Rúbio, conte-nos: como estão indo os trabalhos físicos?
Tivemos uma grande vantagem em relação a temporada passada, pois nesta já tivemos a possibilidade de iniciar trabalhos físicos num outro estágio de iniciação. Nossos trabalhos de força e potencia na sala de musculação e campo de treino durante a temporada passada nos ofereceu uma qualificação mais rápida no planejamento do condicionamento físico da equipe. As adaptações anatômicas que na temporada passada tivemos que realizar com mais cuidados e que dentro de nosso planejamento foram realizados com maior tempo, evoluíram com rapidez nas sessões na sala de musculação, e já passamos para um outro estágio sem perder muito tempo neste nosso inicio. Também os trabalhos com bola, treinamentos físicos e técnicos foram agilizados dentro do planejamento e estamos iniciando a liga num outro patamar de condicionamento físico. Temos muito ainda para trabalhar e atingir. Estamos seguindo um caminho que vai nos oferecer uma resposta eficiente durante a liga.

A participação na Jassim Cup foi produtiva para equipe?
Barroca – Acredito que a Jassim Cup foi produtiva para o time adquirir mais conjunto e para comissão técnica analisar qual é a melhor formação a ser utilizada na Liga. O Evando fez três jogos e marcou 3 gols, uma ótima marca para quem quer ser o destaque na competição. O ponto negativo da copa é o calor que esta fazendo aqui, sendo quase impossível jogar futebol. Está fazendo 35 graus à noite com a umidade quase a 100%. Jogamos três jogos em seis dias, o desgaste é grande e a condição física de todos os times fica prejudicada para o inicio da Liga.

Rúbio – O Barroca tem razão, é uma situação que estamos discutindo – a validade desta Copa. Nela realizamos três jogos em cinco dias numa temperatura de 35 graus com elevada umidade do ar. Para um jogador que vem de uma pré-temporada e já tem desgaste logo de inicio, eu como profissional da preparação física tenho que opinar que é anti-produtivo, pois expõe o atleta em situação de estresse físico sem necessidade no inicio de uma temporada. Uma alternativa era rever o calendário oferecendo um tempo maior de recuperação com espaços adequados entre as partidas dentro daquilo que a fisiologia do exercício menciona através de estudos como tempo ideal de recuperação após os jogos.

A saída do atacante Emerson do Al Sadd foi um golpe duro para o atual campeão do Qatar. O Al Sadd ainda deve ser considerado o grande favorito para esta temporada?
Barroca –
A saída do Emerson fez o Al Sadd se enfraquecer muito, e ainda com o boato da possível saída do outro atacante (Tenório, interessava ao Bolton, da Inglaterra), faz com que o Al Sadd não inicie a Liga como favorito absoluto ao título, mas sabemos da potencia e a grandeza do Al Sadd. Eles irão trazer grandes estrangeiros de novo.

Rúbio – Realmente foi um golpe duro. Mas na minha opinião o Al Sadd tem que ser considerado favorito, pois tem jogadores que desequilibram como Felipe e Tenório. Também não podemos esquecer que muitas equipes se reforçaram e que podem ser surpresas.

Paulo Autuori, no Al Rayyan, Marcos Paquetá, no Al Gharrafa, e Zaluar, no Mesaimeer. A admiração por treinadores brasileiros é muito grande por ai, não?
Barroca – A admiração por brasileiros aqui é muito grande, ainda mais depois da conquista da Copa América o prestigio aumentou muito nos paises do Golfo. O Al Sadd acabou não contratando o brasileiro Jorvan Vieira, que estava certo, e trouxe um holandês (Co Adriaanse). O Paulo Autuori e o Marcos Paquetá e também o Zé Paulo, trouxeram comissões inteiras para trabalhar aqui, assim aumentará as qualidades dos times e deixando a liga muito mais disputada e nivelada.

Rúbio – Eu penso que é reflexo da Copa do Golfo, onde Jorvan Vieira e Hélio dos Anjos – chegando a final com Iraque e Arábia Saudita – valorizaram ainda mais os profissionais brasileiros no Golfo. Não podemos esquecer também a vinda do Zé Paulo para o Al Siliya, que perdeu a final da Jassim Cup para o Al Gharrafa. Isto mostra que nós ainda temos muito espaço no Golfo e que devemos sempre aumentar nossos horizontes expandindo nossos conhecimentos para outros centros de futebol.

O surpreendente Umm Salal deve ser colocado como um dos favoritos ou a boa campanha que eles fizeram na temporada passada foi 'por acaso'?
Barroca – Acredito que o Umm Salal é um clube novo, que veio para ficar na 1ª divisão. Esta montando um time para fazer uma boa temporada novamente com ótimos estrangeiros.

Rúbio – Se formos analisar a liga passada, o Umm Salal iniciou a campanha muito bem através de sua forma tática e estratégia de jogo, caracterizando uma estratégia de futebol de resultado, e conseguiu manter esta forma com sucesso até o fim da liga. Outra situação que podemos citar foi o inicio da equipe do Al Khor, que na primeira fase fez apenas 5 pontos e todos achavam que seriam rebaixados, mas que depois deslanchou com grandes resultados, chegando com chances de ficar entre os quatro primeiros e também foram finalistas da Emir Cup. Isto mostra que equipes bem equilibradas e com estratégia de jogo bem definidas podem atingir resultados surpreendentes, que foi o caso do Umm Salal. Sabemos que a cada temporada, tudo se modifica, o que não garante o sucesso desta ou aquela equipe, pois todos os campeonatos são conquistados nos detalhes.

Younis Mahmoud, do Al Gharrafa, é um atacante diferenciado ou fora do Oriente Médio não seria capaz de brilhar?
Rúbio – O Younis é um jogador que sempre vai deixar os zagueiros preocupados devido seu posicionamento dentro da área , pois é um jogador que sabe aproveitar os espaços oferecidos durante o jogo. Fora do Oriente Médio ele poderia ser aproveitado em qualquer equipe dando-lhe o devido tempo.

Quais as melhores opções que a cidade de Ash-Shamal possui em termos de turismo?
Barroca – O Qatar é um país pequeno que esta em pleno crescimento, construções para todos os lados, mas tudo se concentra na capital Doha. Aqui sim eles estão investido no Turismo como grandes shoppings, restaurantes, hotéis 5 estrelas, luxuosos condomínios e grandes centros comerciais. As cidades como Al Khor, Al Wakrah, e Al Shamal são cidades próximas com ótimas praias, mas com pouca estrutura ainda para o turismo. Acho que eles estão primeiramente dando estrutura a capital Doha.

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Equipe Trivela

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